Helena Arcoverde

O encontro

Publicado em Conto por helenarcoverde em 16/11/2009

Aquele certamente seria um dia inesquecível. Sentada, fitava, atônita, aquele homem desconhecido. Histórias de uma vida inteira, expostas ali, através daqueles olhares. Meu olhar era fugidio, relutante mesmo, mas o dele era insistente, como a cobrar algo que eu não conseguia definir.
Tinha treze anos e aquela foi a única vez que o vi. Sempre esperava encontrá-lo outras vezes, não sabia se o queria, mas esperava. Sou filha de uma só cena. Não tenho diálogos a lembrar, na verdade, nunca falei com ele. Poucas palavras que a mim soaram soltas. Só a imagem predominava. Lembro que fiquei séria, sem dissimular o rancor, transformado mais tarde em culpa. Eu não quis ouvir sua história, não lhe dei nenhuma chance. O papel que eu encenei era comum a todos os filhos do ódio. Aquele não era o personagem que eu queria representar, mas era o que me oportunizaram, naquele momento. Era apenas uma cadeia de reação esperada para os que não aprendem a refletir, a construir, de forma partilhada, a sua própria história, a buscar sua própria identidade. Mas era o papel possível naquele momento.
Muitas vezes senti falta do que ele simbolizava, pensei como seria tê-lo presente. Se assim o fosse, o que teria sido diferente? Ainda hoje faço essas indagações, embora elas sejam cada vez mais raras. À medida que se envelhece algumas questões vão perdendo a importância, aparentemente. Hoje eu apenas gostaria de ter mais cenas para lembrar, de um banco de imagens que um dia, quando só tiver a mim para conversar, fará falta.
Há histórias que sempre se espera retomar. Quando ele morreu, reconheci, não de imediato, que a nossa história nunca poderia ser retomada. O desfecho era definitivo: o fim, sem retoques.
[...]
Às vezes precisa-se de tempo para reconhecer o irremediável. Eu nunca o veria nas ruas do meu passado, no quitandeiro da esquina, nunca saberia como é ser beijada por ele. Não há como recompor histórias perdidas. Os desfechos muitas vezes são definitivos. Quando não há lembrança, recorre-se ao preenchimento dos vazios. Não foi o que fiz. Nem isso adiantaria.

Quando o progresso virá?

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 15/11/2009

Helena Arcoverde
Pisar em ovos. Assim é a sensação ao se abordar alguns temas. São feridas abertas, marcadas por secular discriminação. As palavras parecem impregnadas pela intolerância, as frases soam cheias de duplicidade. Quando houver, de fato, mudanças não impostas, possivelmente nesse terreno minado possam florescer, no lugar da desconfiança, o convívio igualitário de uma sociedade plural por natureza. Por enquanto, o silêncio ocupará o lugar do debate; o riso, o lugar do medo; a indiferença, o da cumplicidade. Uma sociedade em que o punido é sempre aquele que simboliza algum tipo de diferença está distante do crescimento, do progresso efetivo, uma vez que o convívio dessas diferentes concepções é um fator de enriquecimento, favorece soluções, além de ser um direito de todos. O progresso é efetivo quando é compartilhado, não adianta possuir grandes indústrias se não existem profissionais capacitados para exercer as funções. As evidências são formadas, também, de indicadores. Essas questões não podem permanecer somente no âmbito do discurso, devem, sim, estar presentes nas ruas, nas praças, nas instituições. Admita-se ou não, o peso dessas rejeições continua a escravizar, a gerar danos, a fomentar uma batalha às vezes surda, outras nem tanto, que atinge as casas, as relações entre as pessoas, que impedem, enfim, a confiança e a felicidade. Amar os amigos, os iguais é amar a nós mesmos, nossa projeção. O desafio é conviver com aqueles que não comungam nossos códigos, que simbolizam o outro, que enxergam o mundo de outra forma. Essas questões se constituem em alguns dos desafios que essa sociedade vai ter que enfrentar para se desenvolver. Quem sabe seria saudável começarmos a mudar com aquele que está do nosso lado? No ônibus, na nossa casa, no bar. Não desanime ao observar a reação da criança diante da diversidade, não é natural, ela apenas reflete o olhar dos adultos, nada mais. Também é um indicador consistente. Daí a alguns anos, ela reproduzirá esse olhar para seus filhos. É a rede do ódio. Não é destruindo plantações que se resolverá o problema da distribuição de riquezas, nem propiciando o retorno do preconceito, e muito menos apontando seu riso para o filho do vizinho. Assim, você também será algoz. E ser algoz não dói somente na vitima, dói também dentro de nós, em algum momento. O senso de justiça não tem dono, não é prioridade de alguns grupos, é de quem for capaz de compreender que ele é pra ser usado e não somente em proveito próprio, mas de forma irrestrita. É fundamental que se reflita sobre o progresso. Ele perpassa, também, pela concepção que temos dele.

Fim da contemplação

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 13/11/2009

Cada vez os homens a admiram menos. Não há mais tempo. Eles não sabem que olhá-la é refletir sobre eles mesmos, suas indefinições, suas paixões. É estender o olhar fora das angustias e vicissitudes. É reconhecer o que existe além de si. Afinal, não admirar mais a lua é apenas um sinal de que a espécie encontra tudo o que quer dentro dela própria.

Anos-luz de distância

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 13/11/2009

Fragilidade e vulnerabilidade marcam a trajetória do homem. A ciência, tão alardeada desde o século XIX ainda engatinha e não conseguiu nem ao menos resolver velhas questões, como por exemplo, o câncer. Se o tema passa a ser o que está além do espaço terrestre, a situação fica ainda pior. A ciência enquanto admira a si própria esquece de seu papel nesse mundo que há tanto a fazer. “Menos”, aconselhariam os adeptos do senso comum. “Baixe a bola” e produza, diriam outros.

Desculpas esfarrapadas

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 13/11/2009

Alguns atletas precisam ser mais criativos quando for comprovado o doping. As desculpas são sempre as mesmas, sem nenhuma inovação. Melhor seria o silêncio. Ou, então, fazer o que deve ser feito: eu me comportei inadequadamente, estou arrependido, peço desculpas. Pronto. Mas, a maioria simplesmente trata o outro como incapaz de interpretar a realidade. É como usar determinados recursos proibidos nas corridas automobilísticas. Só que, nesse caso, o escândalo envolve um número maior de pessoas, geralmente. Não se trata de usar ou não essas substâncias, mas sim do direito que cada um possui de concorrer com igualdade de condições.

O instante

Publicado em Crônica por helenarcoverde em 11/11/2009

Caminhávamos com passos amplos e rápidos. A conversa era muito subjetiva. Falávamos sobre pessoas que passam pela vida e não conseguem definir o que procuram. Citamos a possibilidade, segundo indicam alguns estudos, desses objetos de desejo sempre se deslocarem quando são atingidos. Ríamos enquanto nos certificávamos de estarmos perdidas, se isso fosse um fato. Estávamos fascinadas pela conversa e acho que cada uma, afinal, por si própria. Às vezes capturamos instantes meio mágicos e que se tornam interessantes talvez por serem raros. E aquele era um deles. Minha interlocutora parecia romântica e procurava o amor. Não gostei nada quando me comparei com ela. Achei-a portadora de sentimentos primitivos, intactos. Pensei que ela deveria ser do tipo que gostava de conversar sobre a própria relação. Coisa que eu abominava. Mas, como ela não extrapolava o nível mais abstrato, a conversa ainda parecia interessante. Ao final da caminhada ela voltou a ser a executiva e, eu, alguém que gostava de capturar esse Eu que as pessoas deixam aflorar, vez por outra, mesmo que na maior parte do tempo o escondam. A caminhada valeu, além de me possibilitar ficar em paz com meu peso.

Cada um no seu quadrado

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 06/11/2009

O título da matéria dizia mais ou menos assim: Madona admite que está envelhecendo. Isso é óbvio. Nada de novo no front. O estranho é o título. O que há, provavelmente, é que a sociedade exige que se tenha um comportamento “compatível” com a idade. Esse fato deve, sim, ter gerado a declaração. Exige-se que você seja, aos 50, uma dona de casa nos moldes clássicos (nada contra, nem a favor), que se vista de determinada forma e que, em hipótese alguma, teime em parecer viva. Isso é proibido. Cada um no seu quadrado, diria aquela canção. E sem sair nem um milímetro do lugar que lhe é “mais adequado”. Cuidado com o cós da calça comprida. Querida, você tem 50 anos, o mais adequado é um jeans de cós alto, bem alto. Sim, pode deixar.

Ciência e população: como evitar essa aproximação

Publicado em Opinião por helenarcoverde em 06/11/2009

Se a população está longe da ciência feita nos Institutos e nas Universidades, esse país também está longe da aplicação dessa ciência. A ciência não pode ser privilégio de poucos, mas sim um avanço que tenda a se socializar. A sociedade nem sempre espera que esse papel seja cumprido porque vê esse distanciamento como um processo natural. Parte dessa sociedade vê a pesquisa feita na universidade como inatingível, uma parceria só possível quando enfrenta longas filas para ser atendida em algum hospital universitário. Apesar das dificuldades, os hospitais universitários são de grande valia para a comunidade, uma aproximação real entre a prática médica e os avanços científicos. Benefícios como esses poderiam ser estendidos se os resultados das pesquisas fossem mais socializados, na maioria das vezes eles chegam aos periódicos (indexados) mas não chegam às salas de aulas, ou melhor, não chegam às aulas. Ciência (com ou sem apoio oficial/empresarial) não é vitrine, pelo menos não deveria ser somente isso, deveria ser muito mais do que isso. Se esse não-compartilhamento traz benefícios individuais, impede, a médio e longo prazo, um retorno social, para todos.

A casa

Publicado em Conto por helenarcoverde em 04/11/2009

Helena Arcoverde

[...]
A casa ficara para trás. Outras vieram, porém, aquela, exatamente por permanecer inatingível, transformou-se em um objeto de desejo nunca alcançado. Ela ainda está lá, mas as pessoas envolvidas não existem mais. Não há mais quem compartilhe os antigos códigos. Os desejos são outros, se é que eles existem.
Entre a imaginação e o vivido, a casa talvez ainda espere a colcha de crochê na cama de casal, sem uso, a velha bacia alemã posta no alto do móvel, vinda quando os rios ainda eram vivos, remendada fortuitamente pela arrumadeira com cola feita de goma e água.
O perdão é apenas um ritual em que não se acredita, mas que se exercita para não se estragar tudo mais ainda. Mas o arrependimento é real. Os filhos já tinham ido embora, carregando para sempre o peso da infância perdida. O tempo impede certas retomadas, mesmo as mais desejadas. As histórias que os filhos tanto desejaram ouvir foram narradas por outros. Uma sucessão de pessoas fazia o papel, nunca encenado por ela, de mãe e, assim, eles acabaram sem nenhuma.
As vozes do passado ressoam, uns a escutam, outros fingem ignorá-las. Mas, na medida em que o passado se distancia, elas se intensificam, inoportunas, mas companheiras. Vozes não exorcizáveis, atemporais, tecidas por um tempo que desconhece a linearidade, perpetuadas porque o subjetivo e a emoção assim o querem. Parecem inteiras, mas são apenas fragmentos, impossíveis de se reconstruir novamente.
[...]
Vez por outra a mãe ressurge na lembrança dos que ficaram: vestido acinturado, vasta saia rodada, cabelos longos e pintinhas tímidas no rosto levemente moreno. Os cabelos, quase acobreados, batem na cintura e são cacheados. Ela parece relutante, fugidia, porém, olha os filhos. Está tímida, a espera do conto de fada que arruinaria uma vida inteira. Olha-os, conformada. E eles, atônitos, diante da impossibilidade da volta.

Última jornada

Publicado em Conto por helenarcoverde em 02/11/2009

Helena Arcoverde
Ela dera seu último telefonema e deitara. Tudo que pulsou naquelas sete décadas se esvaia. Suas falas perderam qualquer vestígio de poder, suas ascendências ruíram, sem as ressiginificações dadas por ela ao longo dos anos. Nada mais restava da fortaleza que um dia desdenhou do destino, enfrentando suas próprias escolhas, desfazendo tanto do que amara, relegando o amor ao último dos planos, embora ele sempre estivesse ali, perto dela, admirando-a, sem tocá-la. Tudo por terra, numa lápide sem nobreza, mas com tudo o que ela mais amou: o próprio nome. Quando o vento colide com o calor do asfalto e sobe o ar quente da tarde, lá surge ela, ora afugentando as ondas transparentes, ora se confundindo com elas. Intensa, cheia de adjetivos, externando amor e ódio como se fosse possível imprimir a eles a mesma marca. Que jornadas ainda pretenderia fazer? Apostara todas suas cartas. O prazo expirara. Azar no jogo, sorte no amor? Nem tanto, pensaria ela. Qual teria sido seu último pensamento? O jogo perdido, o dinheiro não ganho, quem sabe as festas não frequentadas? Voltaria pé ante pé ao casarão de azulejos portugueses, deitaria na rede a zombar do armador e, de mansinho, buscaria a mãe que nunca teve, recomeçaria, nobremente. E, certamente, não olharia para os que desprezavam a matéria. Faria jus a tudo que era e que perdera dia a dia no transitar entre a labuta e a mansidão enfadonha dos poucos lugares que conhecera. E, então, pediria desculpa a ele por não querê-lo outra vez. E ele, mansamente, concordaria. Compassivo, ele sorriria e, mais uma vez, amaria aquelas contradições que marcavam o seu avesso. A serra azulou o horizonte e lá ficou ela, a refletir sobre a eterna luta entre o amor e a razão. Fechou os olhos, o armador rangeu e ela ficou à espera do vizinho rabugento com a latinha de azeite numa mão e a lamparina na outra na direção do som incômodo da madrugada.