A pergunta
Por Helena Arcoverde
Usa as palavras sem pressa. Reflete sobre cada uma, às vezes demoradamente. Detalhista e metódico, desarma o interlocutor com a impossibilidade de descobrir a avaliação que faz dele. Esse meu amigo, que há vinte anos não vejo, é tudo que eu não sou: estudioso e comedido. Em tempos distantes me considerava bonita e “careta”, algumas de suas raras precipitações. Mas acontece. Essa descrição quase deslocada está atrelada a uma pergunta aparentemente simples, mas que, a mim, naquele momento, pareceu intrigante: você conhece pessoalmente o Cristóvão Tezza? Eu, que lia apressadamente o e-mail, parei, de supetão, por força não das circunstâncias, mas de suposições que naquele momento me inundavam. Não fui aluna, não participo muito de seminários ou congressos, muito menos de eventos literários. Não sou conhecida no meio nem fora dele. Enquanto pensava nessas assertivas, já conhecidas pelo meu amigo, observei que minha mão, antes afoita no teclado, parara no ar. Por mais que tentasse, não conseguia atinar com o real – não consigo me livrar dessas palavras traiçoeiras – significado não da pergunta, mas da minha ensimesmação ante a uma pergunta tão singela e que jamais se constituiria em nenhum indicador. Ao final de alguns minutos, eu redigi uma frase-sentença que poderá parecer apenas mais um estratagema para ocupar este espaço, mas para mim uma confissão não pretendida, mas necessária: amigo, eu não conheço o Cristóvão Tezza!
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