Helena Arcoverde

O conto proibido

Posted in Roteiro by helenarcoverde on 30/09/2009

Nome do Filme
O conto proibido.
Sinopse

O filme (curta duração) narra a história de uma mulher que, ao retornar à sua cidade, mesmo sabendo da morte da mãe, trava com ela um último diálogo. Coisas não ditas, sorrisos não dados, um conto não lido: pequenos acertos que vão desde os atritos da adolescência à leitura do conto que sempre se recusara a ler para a mãe e que relata a forma como a irmã, portadora de necessidades especiais, fora tratada. Laura sempre inventava uma desculpa quando a mãe pedia para lê-lo. O filme relata, assim, o último diálogo entre Laura e sua mãe, Almira, no cemitério. O espaço retratado é marcado por tomadas que transitam entre o sombrio e a redenção. O tempo é linear, embora represente o passado da personagem e, portanto, nesse sentido, apresenta também a não-linearidade. Enfim, uma prestação de contas que busca o limiar entre a vida e a morte, entre a vontade e a impossibilidade. O conto fica inacabado, em meio àquelas imagens longínquas e esquecidas do tempo e do urbano.

Descrição da personagem principal

Laura é uma mulher de aproximadamente 48 anos, com expressões marcadas pelo tempo. Acenava sempre à família com a possibilidade de voltar à sua cidadezinha. Laura deixara sua vida pessoal e afetiva em função do êxito profissional e da autonomia. A visita é uma espécie de catarse diante do passado.

NÚMERO DE CENAS
05 (cinco)

CENA 1 – EXTERNA- RUA – DIA

Passos lentos, mas resolutos, caminham por uma ruazinha de interior, revestida por paralelepípedos. Algumas folhas secas no chão contribuem para aumentar o ar de isolamento do local. As tomadas mostram, sucessivamente, parte das pernas e do corpo do personagem. Os sapatos são escuros e sem enfeite. Em seguida, surge um grande e sombrio portão que, ao se abrir, dá acesso a um cemitério.

Laura entra, silenciosamente, no cemitério. Olha ao redor como a procurar localizar algum túmulo.

Entra Título.
O conto proibido.

CENA 2 – EXTERNA – CEMITÉRIO (ENTRADA) – DIA

Câmera passeia pelo espaço, mostrando uma visão mais ampla do local, sem que nenhuma pessoa, no entanto, seja vista. A câmera refaz o olhar do personagem. Após caminhar alguns metros entre os túmulos e jardins, Laura detém-se, vagarosamente.

CENA 3 – EXTERNA – CEMITÉRIO – DIA

Laura fita, demoradamente, o túmulo. Agacha-se, afaga, levemente, com as pontas dos dedos, o mármore que reveste o túmulo. Depois, levanta-se e segura a bolsa, da qual retira um papel.

LAURA
Pensava que eu não viria?Eu sei que demorei, mas vim, como prometi. Eu trouxe o conto sobre Marta.

Laura segura o papel com mãos trêmulas. Mas não dá início, de imediato, à leitura. Mostra-se reflexiva.

LAURA

Vim fazer um pacto: eu te desculpo, tu me perdoas. Não diga que não tem do quê. Perdoe por todos os beijos que não te dei, mesmo quando notava quer você esperava por eles, pela indiferença e altivez com que fui embora. Por não ter olhado para trás.

Silencia, olhando para o túmulo, como esperando uma resposta.

LAURA
Em compensação, eu te desculpo por não ter me cobrado uma volta, o que me pareceu uma indiferença. Eu te desculpo por ter me deixado longe por toda uma vida. Por muitos anos carreguei mágoa das ruas simples do passado, de rostos que não escolhi enxergar. Mas nunca deixei de amar os rostos sem nome, as ruas que fizeram parte de minha história, a venda da esquina, o teu cheiro.

Laura faz uma pausa. Parece, novamente, esperar uma resposta.

LAURA
Sabe, o tempo cuida de tudo, essa é uma de suas principais funções, mudar a face das pessoas, os desenhos das ruas, a esperança… os enredos são apenas recontados, no fim, tudo é igual. Nossa cidade permanece intacta dentro de mim, as mesmas ruas, os mesmos vizinhos, o menino bonito que não envelheceu, o carro do vizinho ainda reluz…
Mas ela não existe mais nem para mim e nem para você. O asfalto tomou o lugar do paralelepípedo e, ao lado da nossa casa, construíram um prédio. Nosso quintal tão pequeno e … sozinho, como nós duas, agora.

Novamente interrompe o monólogo. Parece relutante.

LAURA
Sabe aquele conto… sobre Marta ? Eu o trouxe, vou lê-lo, como havia prometido. Vim só para isso. Para que você não pensasse que nele eu fazia uma acusação a você. Ninguém é culpado porque quer.

Levanta, à altura dos olhos, o papel. Antes, coloca os óculos, que retira, pausadamente, da bolsa. Coloca-o e retorna o papel à frente dos olhos.

LAURA
Excluir é a forma mais fácil que as pessoas acham de lidar com as diferenças. Com ela não foi diferente. Desde pequena, Marta demonstrava atitudes tidas como “desequilibradas” aos olhos de todos. Logo sentenciaram: é doente! Uma irmã doente, naquela época, uma marca. Só os muito ricos “eram perdoados” por possuir uma pessoa assim na família. Agachada no canto do quarto, olhar lançando tristes desafios, mãos trêmulas, ela chorava, questionando os motivos de sua condição. Sua sorte havia sido lançada quando suas diferenças foram rotuladas como anormalidade.
Infância comprometida, ela passara os seus primeiros anos ouvindo trechos de conversas em que sua situação era exposta. “Essa é a mais velha, é doentinha”. Nem ouvia o final da frase, evitando, assim, o olhar condoído da visita. O que ela almejava era apenas ser uma criança normal, como suas irmãs. Por mais que se esforçasse ela não conseguia detectar os sintomas de sua doença, muito menos mostrar aos outros o engano. Inútil, sua doença parecia até algo natural para todos os que com ela conviviam. Cada vez um número maior de pessoas ficava sabendo do seu infortúnio.

CENA 4 – EXTERNA- RUA – DIA
Aos poucos a voz de Laura vai ficando distante. A câmera vai se afastando do local, retornando ao portão, à ruazinha com folhas secas que se movimentam sob o vento.
CENA 5 – EXTERNA- RUA – DIA
Desse ponto (rua) uma última tomada mostra uma cidadezinha quase escondida, esquecida. A câmera se distancia vagarosamente.

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Pelos velhos tempos

Posted in Roteiro by helenarcoverde on 28/09/2009

CENA 22 – EXTERNA-PRAÇA-DIA
Did volta-se para um grande tanque no centro da praça. Nele, meninos mergulham na água esverdeada. Mina aproxima-se. Uns 60 anos, flor na cabeça, pés descalços, saia de chita rodada, batom de cor forte, queixo sujo de tons vermelhos.Bolas vermelhas nas faces.
MINA
tem um cigarro
DID
não fumo
MINA
nem um toquinho?
DID
nada
MINA
você vai dançar o carnaval?
DID
não gosto de carnaval
MINA
pois pra mim só existe os bloco na rua

A pedinte agora se afasta um pouco de Did, começa a dançar em volta do próprio corpo, desenvolve uma dança lenta e desconexa.Depois, para, perde um pouco o equilíbrio mas logo se recupera.
DID
você dança bonito!
Mina para, vaidosa.
MINA
Você acha?
DID
sim, com certeza, eu acho

MINA
então me dá um cigarro
DID
não tenho, mas meu amigo está vindo e vai te dar
MINA
é seu namorado?
DID
não, apenas amigo
MINA
Você acha que eu sou bonita?
Did volta-se com ar de surpresa. Encara Mina.
DID
Sim, você tem uma beleza que as pessoas nem sempre veem, mas ela existe assim mesmo.Independente dos outros, entende? Você é um pouco de mim e eu sou um pouco de você. Nós somos esse mundo que ta ai, nem que as outras partes não queiram.
MINA
Por que você diz isso? Eles riem de mim!
DID
Quem?
MINA
Toda rua.
DID
Não se importe, eles riem de tudo que, de alguma forma, eles sentem medo de encontrar dentro deles.
MINA
Eles têm medo de me encontrar?
DID
De certa forma. Eles têm medo de encontrar algo que eles não conhecem e está dentro de você. E que eles temem por que, no fim, está em todos nós. Nós somos feitos dos mesmos pedacinhos.
MINA
Medo de que? Eu não sou doida, tu acha que sou?
DID
Medo da poesia. Têm medo da poesia escondida dentro de você. Têm medo de encontrar essa verdade, esse primitivo que nós trazemos da natureza, do universo, entende?
MINA
Você gosta de mim? Já tinha me visto?
DID
Muitas vezes, você é parte da cidade. Não só no carnaval…
MINA
Eu gosto de carnaval!
DID
Eu sei.
MINA
Você gosta de carnaval?
Did parece interromper o que iria dizer. Depois retoma:
DID
Sim, eu gosto, muito.
Did acaricia o rosto da mendiga. Contraste entre a mão de Did e o rosto sofrido e encardido de Mina.A cena só é interrompida pelo retorno de Tide.Mina volta-se, então, rápida.
MINA
Me dá um cigarro!
Tide dá um cigarro a Mina e acende-o. Após um longo trago, Mina reinicia sua dança, em volta do próprio corpo. Did e Tide observam.Os meninos que antes tomavam banho no tanque aproximam-se, molhados, quase encolhidos. Acompanham a cena, irônicos.Trocam olhares. Agora se comunicam através do toque de um corpo (lateral) no outro. Não se olha, apenas se tocam cada vez que querem chamar a atenção do outro para a cena.
MENINO1
olha a doida!
MENINO 2
ei , maluca!
MENINO 1
me dá um trago do teu cigarro, velha.
MENINO 3
velha, cadê o teu amiguinho, que pensa que é um avião?
MENINO 1
me dá um trago, meu, senão eu vou te foder.
Mina continua sua dança. Parece indiferente aos insultos. Tide e Did continuam a observar. Outros meninos aproximam-se.
MENINO 4
Doidinha, ui, ui…
Mina dança,para, olha sem focar em ninguém especificamente, depois retoma.
MINA
Você tem namorada?
TIDE
não
MINA
porque
TIDE
porque as vezes é melhor ficar sozinho.eu tenho meus amigos.
MINA
eu moro sozinha, mas um dia minha família vai me querer de novo.
TIDE
nós também moramos sozinhos, sem família.
MINA
é mesmo?
TIDE
sim, a gente gosta de morar sozinho, sem família.
MINA
mas minha família me quer, sabia
Did e Tide se olha, com tristeza.
MINA
sabia que a televisão sempre me filma no no carnaval?
DID
que bom
MINA
quer ver? vou fazer uns passes bem bonitos…
Mina dança. A câmera se distancia e focaliza apenas os rostos dos meninos, suas bocas, em silêncio, se movimentando com os insultos.

CENA 66– EXTERNA-BAR-NOITE
[…]
DID
Inútil, retocar o cotidiano…
Chove. Did, como um autômato, se dirige para a área externa do bar. Caminha, entre as mesas (da área externa),lentamente, aparência distante. Ela está parada na chuva. A filha se aproxima, observa-a. A câmera (alta, plano geral) vai se distanciando das duas. Surgem os mendigos liderados por Mina, eles dançam. Mina tem uma sombrinha vermelha, roupa colorida, flor na cabeça, desenvolve uma coreografia cansada, desconexa, em volta do próprio corpo, mas que evolui. Atrás dela estão avião fazendo ondulações com o braços, Don-don, cheia de flores brancas na cabeça, caminha; logo em seguida, maria-chiquinha, ar carrancudo. Outros figurantes compõem a coreografia, quase uma marcha. Aos poucos, todos vão desaparecendo. A música acompanha a lentidão da dança e vai diminuindo na medida em que a presença dos personagens vai ficando menos nítida e mais distante.

[…]

Eles também merecem

Posted in Opinião by helenarcoverde on 20/09/2009

Comentários aparentemente sem importância refletem a formação e o caráter de cada um. Criticar a pessoa que cuida de animais ao invés de dedicar sua atenção a uma criança, por exemplo, é um indício de que essa pessoa também precisa de ajuda. O cuidar pode ser socializado. Por que não investir um pouco na qualidade de vida de um animal abandonado? A “supremacia” do homem com relação às outras espécies foi um dos fatores que determinaram o caminho que levou o planeta a esse cenário atual. Priorizar somente animaizinhos de raça prestigiada também é um indicador significativo. Tem gente que nem diz que tem dois cachorros, por exemplo, mas cita as raças que possui. Bem, o negócio, então, é fazer o mesmo com o restante das coisas e pessoas. Já imaginou (não extrapole muito)? Não que essas espécies não mereçam carinho e cuidado, mas por que não ajudar aos que perambulam por sua rua, por exemplo? Existem muitas formas de apoio, ninguém é obrigado a recolher animais na rua. Muito pode ser feito, mas se a pessoa só consegue enxergar e amar a si própria, não há o que fazer. Estas também precisam de ajuda.

O pedido

Posted in Conto by helenarcoverde on 17/09/2009

Vez por outra, ele pede que eu descreva o que visto. A descrição sempre é fiel, mesmo que o sentimento que a permeie seja de inutilidade. Camiseta amarela, sandálias que não são havaianas, calça pantalona de cós meio baixo, tecido com bom caimento que envolve um corpo quase magro, cabelos compridos, não bonitos quanto antes, presos na nuca, espírito arredio e inconformado, preso à matéria. Coisas desse tipo enfeitam nossos cotidianos sem adjetivos. Nunca nos encontraríamos novamente? Que importa o futuro, se ele não existe? Sem encontro, ele imaginaria o que o tempo não destruíra e eu apenas usaria o seu interesse para preencher as lacunas de um dia quase igual.

A amizade, Proust, Becket e o Cristiano Ronaldo: vai saber

Posted in Crônica by helenarcoverde on 11/09/2009

Por Helena Arcoverde

A amizade para Proust transita entre a fadiga e o tédio, diz Beckett. Em que pese a frase ser bastante interessante e, eu até diria, verdadeira em muitas situações, eu não poderia situar a nossa amizade nesse âmbito. Eu a situaria sob um patamar bem mais dinâmico, porém estável e, antes que eu esqueça, previsível. Quando atribui ao José Serra, em meio às inúmeras vezes que nos falamos ao telefone, todos os malefícios do país, sei que está uma fera comigo e quer revanche. Será que esqueci de devolver algum livro? Bem, isso é possível, já que sempre peço emprestado algum entre as montanhas que ela possui. Melhor desligar porque eu já vi esse filme, ou melhor, já ouvi essa música. Com tantos anos de conversa a gente sabe tudo de cor e salteado.
Ela é sempre do contra, mesmo que eu tenha os melhores e mais incontestáveis argumentos. Liguei pra ela, na saída do trabalho e perguntei se a filha dela, que gosta tanto de esportes, tinha visto determinada foto do Cristiano Ronaldo. Imagino que ela quase derruba o celular, não falou mal daquele político porque não dei brecha. Muito braba, ela disse:
– nem fales nesse cara pra minha filha, imagine, ela está mais preocupada com as leituras de comércio exterior, nem vens com tuas conversas, tu sabes como é minha filha.
-pode deixar amiga, não falarei.
Assunto encerrado. À noite, como de costume, mais um telefonema. Desta feita, criei coragem e disse:
-Chama ai a Marina que eu quero dar um oi pra ela.
-Mas não vais falar sobre aquele cara, vais?
-Imagine, querida, chama ai.
-Oi Marina, você viu a foto do Cristiano Ronaldo hoje?
– A de flor no boné?
-Não sei querida, só vi o short branco.
-Sei, vi, sim.
-Mas não gosto dele.
-Sei querida, você por acaso viu aquela foto de shortinho vermelho?
-vi, sim.
-Mas, espera, tem várias de short vermelho. Eu falo daquela que o botão está simulando estar aberto, mas não está, tecido meio de nylon, bem desculpe ter usado um termo meio ultrapassado, mas é isso. Você viu?
-Sim, vi, sei qual é.
-E o shortinho amarelo?
-Idem.
-Viu ele de calça jeans?
-Não, essa eu não vi.
-Sei, entendi, querida, um beijo.
Criei coragem, retomei a ligação. Logo veio a resposta.
-olha, sua doida, minha filha não gosta desse Cristiano Ronaldo.
-Amiga…
-Depois nos falamos.
Resignada, resolvi buscar consolo mais uma vez no Beckett quando diz que, para Proust, a amizade equivale a um sacrifício.
Não sei se a presente missiva é uma epístola, uma simples cartinha, um arremedo de crônica, um conto. Seja qual for o gênero, espero que minha amiga a leia, pois não tenho coragem de retomar esse assunto.
Amiga, deixa a menina ver as fotos do Cristiano Ronaldo. O que tem de mais, até eu vejo, ainda mais ela, uma mocinha. Além do mais, a questão toda se resume no comprimento do short, no tecido e no maldito design. Quem será que teve essa ideia? Vai saber. Assunto encerrado. Dessa, o Serra se livrou.