Helena Arcoverde

Quem sabe…

Posted in Opinião by helenarcoverde on 23/03/2010

Aspectos do cotidiano se constituem em bons indicadores do que é uma sociedade. Quando os pacotes de rações dos animais domésticos deixarem de ser postos no mesmo cartucho dos materiais de limpeza talvez se possa ter mais esperanças.

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Um inusitado treino

Posted in Crônica by helenarcoverde on 18/03/2010

Helena Arcoverde

Estava entediada. Dizia a uma amiga que precisaria melhorar meus diálogos ao escrever roteiros. Como estávamos usando uma ferramenta de conversa instantânea, ela prontamente me convidou a treinar. E que treino. Um mau pressentimento me assolara exatamente nos primeiros diálogos, ou, mais exatamente, uma constatação. Ela era rápida, fluente e sua linguagem acadêmica se transformara, com uma facilidade que eu não conseguia acompanhar, em uma linguagem, digamos, inusitada.
Em segundos, a quietude da minha sala fora transformada em um motel bem próximo aos bordeis que me afugentavam ao passar perto do velho centro, próximo ao rio. As moradoras ficavam no batente alisado com tons fortes e cimento, tão alquebradas quanto as paredes descascadas. Olhares plácidos e conformados. Miniblusas que deixavam antever, além do tecido barato, barrigas flácidas e descuidadas. Eu me encontrava, naquele momento, literalmente, dentro de uma dessas casas. A personagem marcara um encontro pela internet e agora estava às voltas com um brutamonte que ela nunca vira. Comer pelas bordas foi a estratégia para entrar naquele relato incomum. Um dos elementos da narrativa me salvaria daquele vexame: o espaço. Eu descreveria todo o ambiente em que esse diálogo aconteceria. Assim o fiz. Ou, pelo menos, tentei.
Esqueci de contar que eu não sou tão isenta de culpa na seleção do recurso didático desse treino. É que antes dessa busca pelo diálogo perfeito, estávamos conversando sobre o que as mulheres não gostam. Apontávamos uma dessas possibilidades: a conversa durante o sexo. Talvez essa prospecção comportamental tivesse suscitado o tema, não sei ao certo. Se o soubesse, teria evitado.
A suíte era sem banheira e a parede, pink. Eu escrevi isso? Ou ela também interveio nesse elemento narrativo? Não sei quem foi o autor dessa parte, mas agora não importa. Não contente com minha falta de habilidade em construir aquelas cenas picantes, minha amiga ainda disse que o marido achava que o texto dela ficara muito melhor do que o meu. Como ele havia sido um dos meus professores, fiquei, momentaneamente, meio chateada. Isso só até o momento em que ela justificou o elogio: “é que eu fui bem sacana e você ficou só descrevendo o ambiente do quarto e nem sequer chegou à cama, ou melhor, nem subiu nas paredes, como a nossa heroína”. Estou passada (o pior é que é verdade) pra usar uma expressão bem popular da minha região. Confesso que fiquei meio envergonhada com essa avaliação. Bem, voltemos a essa batalha quase épica. Antes que eu esqueça, minha amiga ainda me disse: posso te ensinar algumas coisas? Quer? Ou você prefere que eu a ensine quando eu for ai? Sem comentários, internautas. Reservo-me o direito de ficar calada.
Dia seguinte, ela me liga de São Paulo: amiga, coloquei teu nome como uma das autoras do conto. Divulguei o na internet. E ela continuou: Escuta, só pra ser fiel à questão da autoria, aquele trecho em que os dois se lambiam em frente ao “otel” é teu ou meu? Sim, porque não quero parecer desonesta. Ainda sem ação, eu perguntei: colocou meu nome? Como assim? Meu nome, todo? Deixa eu ver se coloquei o sobrenome, ou não. Confesso que foram instantes de extremo desconforto até ela me dar a reconfortante resposta de que só tinha colocado o primeiro nome. Se estivesse próxima a ela eu mesma a teria lambido, mas de tanta alegria. Amiga, te amo, não precisa se preocupar com essa questão de autoria. Mesmo. E ela ressaltava que não, fazia questão. Você quer que eu coloque seu sobrenome? Não amiga, fica assim uma espécie de pseudônimo, prática da ditadura, você sabe, não é? Muitos autores nem se identificavam, isso é até histórico, sua ideia foi ótima.
Sem nenhum motivo, aquele momento era inspirador. Satisfeita pelo desfecho, escrevi um e-mail a uma prima, mandei o endereço do meu blog. Pedi que ela o repassasse a outros parentes da minha cidade. Depois, resolvi acessar minha página só pra dar uma conferida nos acessos. Um número tímido, mas vermelho, indicava a existência de mais um comentário. Era da minha parceira de contos eróticos. Oi, amiga, adorei sua poesia. Você está inspirada, agora que resolveu dar novamente? Toma fôlego antes, finalizou, beijos.
Assim tá bom pra você? Aposto que sim.

Relatos de um certo Oriente e as manifestações da memória coletiva

Posted in Artigos by helenarcoverde on 16/03/2010

Helena Arcoverde
A narrativa de Hatoum vai da visão de mundo particularizada dos personagens às lembranças socializadas que eles possuem como grupo. A narradora anônima valeu-se do grupo do qual continuava a fazer parte, apesar da distância, para recompor os fatos passados. Assim, ela juntou suas lembranças às dos outros narradores, assumiu, em alguns momentos o ponto de vista deles, com o objetivo de descrever cenas, retratar passagens vista pelo grupo, refazer perfis. Ao escrever uma carta ao seu interlocutor, a narradora busca, antes mesmo de refazer percursos memorialistas, encontrar a si própria, sua história, seu estar ali, naquele grupo familiar, naquela comunidade marcada pelo multiculturalismo.
As manifestações da memória social se fazem presentes, assim, de forma a restaurar, preencher lacunas e redesenhar o que ficou para trás. RCO figura entre a memória voluntária e a involuntária; entre o fragmento e a completude da morte; entre a reconstrução e a impossibilidade; entre a evidência e o anonimato; entre o plausível e o extraordinário. Essa obra, com procedimentos literários criativos e engenhosos, com sua busca premente por redesenhar o presente é, antes de tudo, uma reverência ao passado, a esse espaço não retilíneo, fragmentado e cheios de contornos e voltas, como forma de redimensioná-lo em um presente inconformado por escolhas e erros do passado.
A reconstrução do passado, em RCO, é marcada pela incerteza da reconquista do passado, pela impossibilidade de recompor o tempo pretérito sem o auxílio da ficção no preenchimento das lacunas, dos remendos causados pelo estrago do esquecimento e da dor.
A vitória da narradora é a de quem decide lutar e não uma finitude dessa luta. Não se trata de, após a catarse ou o organizar coletivo da memória, ser a vencedora. A luta dessa heroína, como a de Sherazade, é permanente e, quem sabe por isso, eterna. Como eterna seria a luta do homem contra os processos pelos quais sente terror, como a própria morte. Enfim, é a luta dos que buscam um nome, uma identidade negada, daqueles que necessitam detectar quando e onde essa história parou de ser contada.
A narradora de Hatoum necessita saber em que ponto de sua trajetória perdeu o direito de ser sujeito. Ela, com a morte de Emilie, volta para, só então, ser sujeito de uma historia da qual faz parte, retomando as rédeas de sua própria vida, mesmo que, para isso, tenha de recorrer ao coletivo, às lembranças dos outros, aqueles sem os quais não poderia recontar porque foram parte de sua historia. Os outros, mesmo aqueles não nomeados, como a narradora, são parte das lacunas e das certezas que a narradora possui, consagraram-se como parte de um passado, seja ele obscuro ou evidente.
Sem eles, sem a cidade permitida ou proibida, sem as ruas e monumentos, sem as historias dos outros, do estrangeiro ou do nativo, a viagem seria totalmente inglória. O outro sempre é parte da historia de cada um e assim ocorreu, também, com a heroína de Relato: ela valeu-se das lembranças dos outros e das suas para recontar, consertar os fios que se soltaram em algum ponto do seu passado e, assim, se livrar da clausura imposta pelo passado. A narradora, que empreende a jornada contra “a morte” é a mesma que se aproveita da morte para acionar suas lembranças e a dos outros. A narrativa simboliza, portanto, a jornada coletiva pela vida, pela negação da morte, da solidão e da clausura.