Helena Arcoverde

O espaço em “O crepúsculo dos deuses”

Posted in Artigos by helenarcoverde on 29/04/2010

Helena Arcoverde

Clausura, morte e esquecimento marcam o espaço em “O crepúsculo dos deuses”. As imagens do passado se multiplicam: as fotografias, os objetos que lembram os dias de glória, os dramas. Como diria Bachelard, “na casa tudo se diferencia, se multiplica” (BACHELARD, 2000, p. 57).
A casa da ex-atriz do cinema mudo, papel vivido por Glória Swanson, é marcada pelo esquecimento. Esse processo fronteiriço da lembrança algumas vezes esconde a verdade que se quer distante, mas que sucumbe diante do imprevisível e até do inevitável; ressurge, sufocando da memória o vivido ou passagens de uma vida inteira. Próxima a eles, se posta o silêncio, pronto para interferir nesse processo por vezes complexo, outras, sombrio. Enquanto as lembranças são sopros de vida para a personagem Norma Desmond, o esquecimento representa a morte: da fama, do glamour. Simboliza o anonimato, o silêncio da plateia.
A casa é, também, o símbolo da resistência, da fortaleza em ruínas, do último reduto de alguém que o mundo não quer mais. Nela, o amigo fiel, o escudo, o sustentáculo de um símbolo em ruínas: a eterna figura do mordomo que, como sempre, não é só mordomo.
A morada é também o espaço da ilusão, aquele que impede, mas ao mesmo tempo representa o anonimato; a identidade da atriz, mantendo-a como sujeito e agente da história que ela ainda quer viva.
Já o apartamento do roteirista é o lugar do confronto, do fracasso, da perda. O carro é o ícone do que poderia ter sido a carreira dele em Hollywood. Por que nos apegamos aos objetos, indaga Halbwachs. Por que desejamos que eles não mudem e continuem em nossa companhia? (HALBWACHS, 2006, p. 156) É o objeto ao qual se apega o personagem porque, sem ele, nem a volta, nem a venda, nem a locomoção serão possíveis. Por isso esse objeto representa o desencadear da trama, o medo da perda. É por ele que o roteirista, inicialmente, luta, se sujeita, faz concessões.
Se para o endividado roteirista o carro é uma espécie de tábua de salvação, para Desmond o velho modelo causador de equívocos era o símbolo de uma era vitoriosa, de poderio. Ao carro ela também se apegara porque ele era a evidência do que ela já fora. Era, sim, um ícone que, como as fotografias, os filmes em que atuara, a suntuosidade dos móveis significava sua permanência no mundo que a esquecera.
A ironia alia-se aos espaços e exterioriza a amargura dos personagens. Ela se manifesta, em especial, através das falas do roteirista: […] “é esperta, nada como ter 22 anos”. Embora também esteja presente na fala de Desmond, é mais marcante nas do roteirista.
Para Bachelard, o exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento (BACHELARD, 2000, p. 215). Essa oposição a que alude o autor está presente no filme e é evidenciada, principalmente, pelo contraste entre a aparência de abandono das áreas externas e o requinte e cuidado do interior da casa. Apesar disso, com o desenrolar da trama percebe-se que os dois ambientes, igualmente, representam o abandono. Enquanto as folhas, os ratos e o acúmulo de sujeira indicam a ausência de vida nas áreas externas, o abandono do interior não está simbolizado pela ausência de limpeza, mas por um outro tipo de abandono: dos fãs, dos produtores e diretores de cinema.
Para Bachelard, o objeto que se abre é o primeiro diferencial do objeto. Nesse momento, diz, não há mais dialética. O exterior é riscado com um traço, tudo é novidade, tudo é surpresa, tudo é desconhecido. O exterior já nada significa. Acaba de se abrir a dimensão da intimidade, diz ele (BACHELARD, 2000, p. 98). Na medida em que Gilles desvenda o espaço interno, os segredos, as mentiras construídas pelo mordomo em nome do amor, o exterior se esvai. As tomadas no interior da casa se desenvolvem e revelam os dramas e os mistérios que, inicialmente, se descortinavam apenas na velha garagem.
A morte perpassa toda a trama. A morte do roteirista como forma de impedir mais uma perda, a morte de uma carreira, da juventude, do glamour, da fama. A morte de Norma Desmond é simbolizada pelo silêncio dos aplausos, pela ausência do diálogo, da troca. E essa presença é um contraste com relação à vida ansiada pela estrela do cinema mudo, pelas luzes dos refletores. A própria impossibilidade presente na narrativa simboliza uma espécie de morte dos ideais, das conquistas e sonhos dos personagens. Do retorno improvável.
A ilusão, a mentira, as supostas cartas dos fãs são os recursos usados para afastar esse fim. Gilles simboliza a juventude, o possibilitador, aquele que costurará os remendos. É o renascimento, o herói que não quer sê-lo.
Essa necessidade da narradora em vencer “a morte”, o estado de desânimo e a convivência com a loucura e a solidão com as quais tem contato na casa, a moveu a deixar para trás o marasmo e a dor e empreender um retorno. Para tanto, precisa de outros heróis, capazes de empreender com ela essa jornada. Para ela, Gilles é um fio de esperança; para ele, uma concessão a qual não estaria disposto.
A imensidão do estúdio remete ao poder; os equipamentos de cinema, à modernidade. Representa o corte entre o cinema mudo e o sonoro. É a volta negada, o confronto, a rejeição. Nesse espaço, o objeto que funciona como um acionador não somente das lembranças de Norma, mas também de suas esperanças é o refletor. Esse mesmo mecanismo que a move está presente nas cenas finais. É por causa das luzes que a personagem desce as escadas, após o assassinato de Gilles. Sai da imobilidade em que se encontrava para entrar no espaço da loucura definitiva, da total impossibilidade do retorno. A representação, nesse momento, assume o lugar da realidade. Para Desmond, no entanto, esta deixou de existir há muitos anos.
Já, o espaço da piscina é o do desejo, do sonho, da ascensão. No caso do roteirista, este espaço remete à impossibilidade, já que ele a conseguiu tarde demais, através da morte. Representa, assim, aquilo que deixou de ser importante, simboliza o presente. Esse mesmo espaço, por outro lado, é o da esperança e do renascimento, do resplendor, quando as tomadas mostram Joe Gillis na piscina reativada. Assim, o trágico e o esplendor se opõem em um mesmo espaço e em tempos próximos. A piscina que é o símbolo da morte, é o da vida; que é o símbolo do abandono, é também do renascimento; que é o símbolo do poder, é o da iminência da perda. Ela, enfim, é o lugar da derrocada, do fim de um tempo cronologicamente curto para Gilles, mas longo demais para Norma Desmond.
As cenas finais e iniciais se entrelaçam. São espaços que retomam e, ao mesmo tempo, arrematam; que interrompem e sequenciam; que reafirmam a morte, mesmo querendo a vida.