Helena Arcoverde

O pedido

Posted in Crônica by helenarcoverde on 16/07/2010

Helena Arcoverde
Aquele era um desses dias enjoados. Insossos mesmo. “Transitava” de um jornal eletrônico a outro. Nada de novo no front. Quando menos esperei, meia noite. Toca o telefone, era uma amiga, com voz de quem estava esbaforida, ela pediu-me para que analisássemos um trabalho a ser entregue por ela bem cedo. Nem dormirei essa noite, disse ela. De início hesitei em pensar que eu estaria incluída nessa aventura noturna, no entanto, logo confirmaria tal suspeita. Pode vir, imagine, amiga, disse eu, ora educada, ora não tão convincente. Olhei para os lados e assustei-me com o cenário: papel, lembretes, impressos espalhados, eu também havia estudado há pouco. Sem falar nas xícaras de cafezinho, umas seis, com um gole subtraído de cada uma. Bem verdade que eram pequenas, mas estavam bem visíveis. Com esses pensamentos, abri a porta. Minha amiga estava iluminada, não só pelos tons ruivos dos cabelos e olhos levemente rajados de dourado, mas pelo entusiasmo àquela hora da noite. Uma heroína, isso sim. Senti-me compelida a compartilhar desse sentimento. Ela estava impecável. Usava um sobretudo rosa em um tom absolutamente suave. Ainda deu tempo de pensar que tudo poderia ter sido pior em minha vida se eu costumasse usar cor-de-rosa. Mas só pensei, minha amiga estava tão feliz, não iria ser indelicada fazendo observações desse tipo. Ela puxava uma mala com rodinhas, cheia de livros, cena que eu sempre presencio, no entanto sem atinar o motivo da prática, mais comum do que se pensa. É evidente que é um recurso para uma eventual consulta, mas quem acha que isso é viável em uma palestra, por exemplo? Quem sabe em uma aula? Alunos, todos enfileirados, ou melhor, em círculo, assunto a ser tratado: localizar citações quando eu tiver esquecido teor, página, nome, enfim. Bem, voltando ao que interessa. Minha amiga terminou de entrar. Antes que eu esqueça, ela não gosta muito de animais e eu tenho, forçosamente, duas gatinhas. Prefiro não contar os nomes dessas duas “hóspedes” porque não quero cair mais ainda em descrédito depois desse desabafo. Hoje eu vou abusar dos mecanismos de coesão. Então, minha amiga olhou sorrateiramente em direção às felinas. É o que poderia se chamar de olhadela, rápida, que nem dá tempo de ser vista. Mas eu, que sou mestra nessa prática, vi. Ela, que também é boa nisso, se justificou: amiga, deixe elas, eu não me importo. Ainda bem. Ela se acomodou como pôde, olhou para os lados procurando um lugar confortável não somente para sentar-se, mas também para redistribuir os livros. As horas voavam. Como vocês sabem, quando a gente tem que entregar alguma coisa bem cedo, as horas, geralmente tão longas, ficam impertinentes, ávidas por causar um dano irreversível, desafiadoras, eu diria. Quando ela pensou ter se acomodado, vejo que direcionou o olhar para a borda do sofá, que, embora não fosse de todo velho, possuía contornos marcados, digamos, mordidos, ou talvez arranhado, não sei bem. Ao perceber que eu estava embaraçada, ela alisou a área danificada, disfarçadamente. Delicado da parte dela! Demos inicio aos trabalhos. Na verdade, ela já tinha feito tudo, queria muito mais conversar do que obter qualquer colaboração. Quatro horas da manhã e ela se rendeu: acho que vou cochilar, disse. Puxou de um local já conhecido por ela o colchão sobressalente e disse: fico aqui mesmo, já levanto, deita aqui do lado, amiga, me faz companhia que só vou tirar uma soneca. Timidamente, deitei do lado da minha amiga. Fazia muito frio. Fiquei bem na extremidade do colchão, quase cai. Bem, não seria bem uma queda. Essa gentileza de deixar minha amiga com mais espaço talvez tenha sido minha salvação. Logo conto o porquê. Puxamos alguns cobertores. Antes, porém, ela deu uma última olhadela para as duas gatinhas: fiquem ai quietinhas, disse-lhes. Quando dei por mim, o sol estava alto. Minha amiga despertou atarantada, sentou-se. Olhei em volta. As duas criaturinhas estavam, para usar um termo de cunho totalmente popular, “unha e carne” com minha amiga, ladeando-a, moldadas ao corpo dela. Ela riu levemente. Que meigo, elas gostam de mim, justificou ela quando percebeu meu constrangimento. Levantou-se, quando pôde, não sem antes livrar-se, depois de várias tentativas, das companhias. Eu estava “sem palavras”, pra usar um termo tão original, presente nos depoimentos das reportagens em língua portuguesa. Só mais uma informação, minha amiga dormiu de sobretudo. Olhei para ela mais demoradamente, agora totalmente despertada: o tom delicadamente rosa estava tomado de manchas pretas e amarelas. Um último aviso: os “estampados” recém-adquiridos pelo tecido coincidiam com as cores das duas hóspedes. Todas essas coisas acontecem comigo exatamente porque nunca usei a maldita cor-de-rosa. Que me perdoe Inês de Castro, agora é tarde. “Nêz é morta”. Em tempo: ainda somos amigas. Não me refiro à rainha, é claro.

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