Helena Arcoverde

Abril Despedaçado: morte, identidade e impossibilidade

Posted in Artigos by helenarcoverde on 18/08/2010

Helena Arcoverde
Ao transitar entre o tradicional e o artístico, Abril Despedaçado, dirigido por Walter Salles, evidencia os códigos de um mundo inalterado, em que o social se sobrepõe ao subjetivo. A impossibilidade está presente no distanciamento que os personagens da família Breves possuem das palavras e da escrita, na escassez de cenários, na morosidade da sequência de imagens, na aparente uniformidade na iluminação. No silêncio e nos olhares de irremediabilidade dos personagens. O diálogo cede lugar ao estabelecido e, assim, os personagens repetem suas ações ao sabor dos dias e das horas. O divisor, a noite, é o tempo da reflexão, do medo, da espera.
Abril Despedaçado é o espaço do já dito; transita em uma zona de desejos esquecidos, acobertados em face do já posto, já delineado, de regras fortalecidas pelo tempo. O coletivo impera em detrimento do subjetivo. A memória social fortalece o desejo da morte, da espera sem mudanças, dos elos incomuns.

Anonimato e identidade
A identidade, em Abril Despedaçado, é negada sob o ponto de vista do individual, mas é mantida através do coletivo em um diálogo impossível. A criança pertencente à família Breves, como os pais, não é anunciada pelo nome, possui uma identidade ofuscada. O nome, para esse personagem, vem tardiamente, Pacu, um apelido ganho pouco antes do fim. Essa ausência do nome indica um não pertencimento, já que não caberia a esse personagem compartilhar, em função da tenra idade, dos códigos de honra e morte, o que não o impede de exercer uma posição de sujeito, de partícipe nesses códigos, que mais tarde também seriam seus, ou até mesmo de transformá-los em vida e não em morte. O menino sem nome é a marca dissonante em um coro de vozes com o mesmo eco, movimento em uma zona de conformismo. Simboliza uma alma que busca o outro, o conhecimento, a mudança, como se observa na cena em que o personagem vale-se de estratégias para simular um ato de leitura. Na casa do Menino, só Tonho, personagem vivido por Rodrigo Santoro, tem nome, um alto preço a ser pago pela “regalia”.
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Determinismo, impossibilidade e morte
O determinismo permeia a vida dos personagens de Abril. Eles aceitam-no como o fazem com a morte. Assim, mantêm, passivamente, os códigos que destroem vidas e perpetuam a tradição. Esse processo, no entanto, identifica essa população. Para Hall, “a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente” (HALL, 2006, p 13).
Esse mundo pré-destinado e sem palavras também está presente em O Carteiro e O Poeta, dirigido por Michael Radford. Tanto na produção brasileira quanto na italiana, os personagens estão mergulhados no silêncio. São parte de um mundo acabado, sem permissão para a mudança. O pai do aprendiz da poesia, no filme italiano, assim como o de Tonho, praticamente não fala, está preso ao cotidiano. As cenas que mostram o caminho percorrido por Mario Ruoppolo, representado pelo ator Massimo Troisi, rumo à casa do escritor Pablo Neruda, vivido por Philippe Noiret, é a moenda dos Breves. Porém, enquanto o carteiro trilha-o com alegria, em busca do novo, Tonho e o Menino mantêm um mundo sisudo e triste. Neste embate, o personagem italiano certamente saiu vitorioso, embora também encontre “a indesejada das gentes” (BANDEIRA, 1993).
Considerações finais
Abril Despedaçado representa, em sequências lentas, nos moldes da tradição europeia, a impossibilidade de alterar o vivido, de deslocar os códigos endurecidos pelo tempo; simboliza a predominância do coletivo sobre as particularidades do subjetivo; a morte como completude do estabelecido. O narrar para celebrar a vida mesmo com a certeza da morte.

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