Helena Arcoverde

O domingo

Posted in Crônica by helenarcoverde on 18/09/2010

Helena Arcoverde
Aquele não era um dia agradável. Era domingo. Fugi das missas aos domingos. Não fosse isso e talvez eu não tivesse hoje tanta ojeriza pelo dia do descanso. Ainda assim faria os trajetos planejados. Atravessei o terminal de ônibus. Pensei nos cães saudáveis que costumava encontrar naquele espaço. Andavam em grupo e pareciam adolescentes prontos para uma noitada. Mas poderia também dar de cara com o outro, castigado por coceiras impertinentes. Foi o que aconteceu. Ele não conseguia dar dois passos sem parar. Era alto, as pernas longas. Antes, devia ser um bonito cão. Naquele momento eu o amava, mas nunca o tiraria dali. O ônibus chegou e, momentaneamente, a culpa parecia menos intensa. Não consegui o banco próximo à janela, o jeito era a cadeira do corredor. Melhor que nada. Observar as cenas protagonizadas por anônimos parecia ser a única ocupação interessante naquela tarde fria. Às vezes não as notava, outras, no entanto, me atraiam pelos olhares entrecruzados, muxoxos “ininteligíveis” a primeira vista e, raramente, pelas lágrimas inoportunas pouco presenciadas, em locais públicos, ao longo da vida. Inicialmente aborrecida, aos poucos fui me deixando, sorrateiramente, fascinar por aqueles dois grupos. Os garotos conversavam quase encostados na primeira porta do ônibus. Elas chegaram devagarzinho. Enquanto caminhavam, olhavam pra eles. Acomodaram-se. Lançavam olhadelas. Eles pareciam fingir não nota-las. A mais próxima a mim estava inquieta. Os hormônios “pululavam”. Vão começar a falar alto, a contar histórias, calculei. Qual dos dois grupos será mais audacioso? Essas suposições, como diria uma amiga, indicam que eu antecipo conclusões. Isso não é nada científico. E daí, não sou cientista e nem faço nenhum trabalho que requeira, pelo menos por ora, essa atitude. Como verão mais adiante, errei o alvo. O banco da frente desocupou. As meninas sentaram-se. Eles continuaram, durante toda a viagem, concentrados neles próprios. Aos poucos, o entusiasmo inicial delas foi sendo arrefecido. As franjas, arrematadas na face esquerda, disfarçavam o marasmo em que elas se encontravam. Agora pareciam presas ao banco. Existiria um abismo entre eles? Elas estavam uniformizadas. Eles desceram na parada seguinte. Não olharam nem uma só vez para trás. E elas, conformadas, tomaram o próximo ônibus. Nunca mais os veria. Cenas preciosas de um mundo que, apesar das mudanças ocorridas em todos os âmbitos, ainda é o mesmo. Por isso, talvez essas não sejam cenas tão anônimas, mas interessantes pelas poucas, mas preciosas singularidades.