Helena Arcoverde

Quando cabe ao eleitor bater o martelo

Posted in Opinião by helenarcoverde on 26/11/2010

Era exímia em compreender o funcionamento de circuitos elétricos, em cercar as crianças dos outros de cuidados, em amparar atitudes em preceitos éticos e de justiça, em argumentar com logicidade, em projetar com visão antecipatória. Com todas essas competências e habilidades não sabia ler nem escrever. Tinha domínio da oralidade e isso se não bastasse pelo menos atendia suas necessidades e a de suas crianças. Fui uma destas. Ela daria certamente uma ótima legisladora. Precisaria de pessoas que a apoiassem nessa tarefa, mas tinha os atributos mais importantes nessa função: bom senso, capacidade de compreensão da realidade, preocupação social e ética. Se um político é cerceado por não ter domínio dos códigos formais de leitura e escrita, será que não se deveria começar a pensar que, embora com certas limitações, ele é capaz de pensar no bem comum, de compreender tecnicamente as situações, de gerenciar essas dependências com o apoio de outras pessoas? Isso influenciaria em sua autonomia? E os que não possuem nenhum código de ética compatível com a exigência de um bom legislador? Não são incomuns, mas são, geralmente, permeados pelo silêncio. Deveria caber somente ao eleitor a incumbência de auferir, na urna, a ética e a importância do saber no percurso do legislador que o representa. Só ele deveria bater o martelo.

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Sem sobressaltos

Posted in Sem categoria by helenarcoverde on 22/11/2010

Havia marcas nos pés. Os calos pareciam indicar muitas caminhadas. Eram, se não tristes, ávidos da chegada. As veias sobressaídas, as unhas sem consistência. Sozinhos, eles viram a inveja, a dor, os minutos de alegria, os percursos que duvidou serem vãos. Agora, prefere parar diante da efemeridade das azaleias, de outros anônimos que também já não acreditam tanto. Sem surpresas, arriscam eles, assim serão suas últimas caminhadas. Se houver saltos possivelmente os transporão. Ainda são fortes. Ainda preferem sandálias. Mesmo diante da iminência, ainda gostam muito de dançar. De preferência, a sós.

Tudo por causa do Hokheim!

Posted in Crônica by helenarcoverde on 16/11/2010

Minhas amigas me inspiram. Quem sabe é por isso que elas andam escassas e eu, judiação, tão sem inspiração. Qualquer hora, como já estou “mais pra lá do que pra cá” vou retornar à infância e perguntar: você quer ser minha amiga? Em caso negativo, rapidamente juntaria os dois dedinhos, desculpe o uso inadequado do diminutivo, e mandaria o sujeito da negativa “cortar”, em um bravo e decidido ato de “intriga”. Vamos lá ao caso. Bem, hoje a questão envolve o Hokheim. Minha amiga me pediu que conversasse com ela sobre um seminário em que teria como atribuição apresentar um pré-projeto de mestrado com um sumário consistente e algumas noções fundamentais já delineadas. O que eu não sabia é que, por trás daquele, digamos, singelo pedido, qualifico-o assim porque a dona dele encarna a meiguice, estaria um sentimento de acuamento. Seria algum tipo ideológico? Bem, melhor do que financeiro ou quem sabe jurídico? Veio-me, repentinamente, certa conformação ao pensar nas outras modalidades do que eu denominei acuamento. Após enviar a prévia para a orientadora, ela me ligou nervosa. A professora estaria desconfiada da tão repentina descoberta de caminhos, o projeto está redondo, mas tem ressalvas. Ela, que como disse, é muito especial, optou por contar que obteve ajuda. A partir daí, ocorreu um fato inusitado, talvez nem tanto, mas, para o momento, inesperado: a orientadora passou a “conversar” comigo através dela, o que, infelizmente, não foi nada bom nem para mim e nem para a minha amiga. De repente me senti em uma batalha que envolvia a escola de Frankfurt. Minha amiga entrou em desespero e eu, que não tinha nada com o caso, me sentia totalmente julgada e, antes que esqueça, punida sumariamente. Disse a ela que não desanimasse, pois excluiríamos os autores que não estivessem em conformidade com a linha teórica apresentada pela Universidade e, em seguida, leríamos novamente para localizar alguma incoerência teórica. Assim o fizemos. A calmaria pouco durou. Ela alegou mais duas questões: a sociedade, mesmo com os avanços tecnológicos, não poderia ser denominada do conhecimento, além do mais ninguém ouviu falar em um dos autores citados. Bem, resolvi: tiramos o anônimo. Os autores frankfurtianos, porém, estavam presentes tão intensamente na memória recente daquele episódio, eu diria até que, a essas alturas, essa memória poderia ser denominada, nos moldes de Halbwach, de social, que foi difícil diminuir o mal estar acadêmico. Ainda estou confusa. O termo não seria acadêmico, mas deixa pra lá. Desta vez passa. Por que eu não comecei a introdução dissertando, “inovadoramente”, sobre o neoliberalismo? Tantos estudos marcados pelo ineditismo sobre o assunto…O que deu em minha cabeça. Jesus, Maria, José, valei-me. O discurso estava na ponta da língua e eu não o usei. Pior, esqueci de acrescentar que em que pese os recursos tecnológicos, a desigualdade ainda assola a sociedade, melhor, a tecnologia amplia significativamente os índices de desigualdade social e educacional… Nossa, eu tenho a mania de falar sociedade, esqueci que não posso. Não é mais pra juntar todo mundo. Segmento? Parte da….? Parcela significativa? Ninguém me peça mais ajuda, só se me trouxer uma cartilha. Afinal, está na moda na Terra de Santa Cruz esse tipo de publicação. Ps.: não me tragam livro de metodologia cientifica, isso não garante nada. Nem do Adorno. Nem do colega dele. Essa situação de fato tinha contribuído para me deixar tensa. Perdi o sono! Quando menos esperei, falei de supetão pra minha amiga: não mencione meu nome, se ela tiver acesso a esse singelo espaço virtual e de parcos leitores você estará reprovada sumariamente. Desculpe, não é para tanto, ela não faria isso, brincadeira, mas, ainda assim, não fale meu nome. Sujou.