Helena Arcoverde

Posted in Poesia by helenarcoverde on 29/12/2010

Fim de linha
inútil,
retocar o cotidiano

Só no papel

Posted in Opinião by helenarcoverde on 18/12/2010

O aluno crítico e questionador ainda não conquistou lugar na maioria das instituições brasileiras. Cansado de “peregrinar” em busca da discussão e de um embate mais fascinante do que geralmente encontra, o aluno investigativo termina vencido pelo cansado, pela ditadura de uma escola onde “o doméstico” se sobrepõe aos interesses discentes. Infelizmente, seu lugar está garantido, na maioria das vezes, apenas no papel.

A igrejinha

Posted in Crônica by helenarcoverde on 16/12/2010

Por Helena Arcoverde
Entre a descrença e a necessidade, adentrei naquele espaço, que doravante denominarei de igrejinha por ser quase a miniatura do que imagino sejam as outras. O convite fora feito por uma amiga. O púlpito, retangular. Bicos de crochê branco arrematavam a cobertura de dourado e vermelho. Recostadas à parede, várias cadeiras. Um pequeno informe, impresso em cores, avisava: cadeira exclusiva. Intervenho nessa narrativa somente para pedir: interlocutores, não se aventurem em perguntas desnecessárias. A cadeira estava ocupada e quem sabe por esse pormenor não percebi nenhuma diferença nela, a não ser que o assento fosse mais macio do que os outros. Nunca consegui assistir “missa” sem observar o que não deveria. Um ritual, por enquanto o único, me chamou a atenção. Os presentes se dirigiam ao púlpito, entregavam um CD e passavam a cantar juntamente com os cantores, digamos, oficiais. O que sentiriam com aquele microfone na mão, além da devoção? Ali seria um espaço democrático em que, após um dia de luta, se sentiriam privilegiados? Afugentariam a pouca importância que o mundo lhes dá? Um encontro entre o individual e o coletivo? Não sei dizer. Era um ato heróico do qual eu nunca seria capaz. Infelizmente, sou tímida, acreditem ou não. Um grande momento, até para os que não estavam ali absolutamente por devoção. Depois, a ocupante da cadeira exclusiva fez revelações. O preocupante é que me inclui em 80% delas, com exceção daquela em que havia um presente com medo de ser preso ou da que afirmava haver uma pessoa que, há apenas três dias, teria ido à procura de trabalhos de magia. Ufa! dessas eu escapei. A cada revelação alguém em quem a carapuça assentava levantava a mão e, mediante esse ato, seria libertado. Numa dessas revelações ela perguntou? Alguém ai é católico? O silêncio era pesado! Pelo menos uma havia, provavelmente. Não totalmente. Alguém que reza o terço, está louca para aprender um rosário salvador, reza ave-maria, pai-nosso, salve-rainha e credo. Cruzes, esqueci de dizer: vai raramente à missa, nem mais a do galo, ama procissão e os hinos à Maria. Provavelmente chore ao ouvir “a 13 de maio na cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria”. Criança, gostaria de ter usado aquele véu de renda, mas sabia que, ao crescer seria tarde demais. Além disso, adora imagem: Aparecida, Nossa Senhora das Cabeças, São Benedito. Não se conforma com a ausência das imagens da principal igreja de sua cidade, retiradas depois da reforma modernizadora. Sem falar que esse alguém se sente pecador porque a felina, denominada, em função da aparência em idade pueril, de Feia Maria, derruba a imagem de Nossa Senhora da Aparecida da estante. Para tanto, escala até o teto, arrasta-a consecutivamente e, depois, a leva para detrás da porta. Essa é pecadora e a dona também pela posse da bichana iconoclasta. Deixemos a Mãe de lado dessa conversa meio profana e voltemos ao tema. Olhei ao redor, virei o rosto levemente para trás, o ambiente era encantadoramente um teatro do absurdo: o moço que bebeu entrecruzava os bancos, trôpego e risonho; alguns se ajoelhavam de frente para o assento e de costas para o púlpito; mais adiante, a moça de cabelos encaracolados proferia palavras de ordem e invocação. Outras frases formavam, com esses ditos, corais ora sintonizados, ora desencontrados. A moça de vestido estampado surgia em meio a tudo isso, cantando: voz grave, corpo robusto, tímida franja entortada para um lado da testa. Pensei na Nina Simone. Apesar do encanto, eu não era dali. Talvez nunca o fosse, mas não poderia deixar de ficar atônita e apaixonada pela plasticidade e fé do espaço. Um lugar que crescia, na medida em que essas manifestações se desenvolviam. Voltarei, sem compromisso. Estes, na maioria das vezes, nunca dão certo. Nem que seja com a fé.