Helena Arcoverde

A inteligência, os realitys shows e o mercado de trabalho: mais que imbroglio

Posted in Crônica by helenarcoverde on 26/01/2011

As constatações (pessoais) indesejáveis são, com algum esforço, refutáveis. Mas às vezes delas não se consegue fugir por muito tempo: a suposta inteligência arruinaria uma carreira? Era somente uma suposição e com isso dava para conviver. Podia ter dormido sem essa, mas as cinco linhas que escrevera sobre os reality shows e o mercado de trabalho aguçaram meus questionamentos pré-existente sobre essa teia ou rede, vai saber, de relações entre ser inteligente e, por isso mesmo, preterida. Suposição antiga e queixa de alguns “colegas” de infortúnio. E eu sou solidária, por isso essa crônica-queixa. Mas você me considera mesmo tão inteligente assim? Perguntei a uma das chefas? Nossa, termo incomum, mas vou usar porque diante das polêmicas suscitadas pelo uso da palavra presidenta, é melhor não arriscar, além do mais outro dia usei “os homens” e pegou mal. Acabou comigo. Dessa, pelo menos, me livro. Sim, a mais que conheci, respondera ela. Mas você, disse-lhe eu, mantém diálogo coerente com várias pessoas ao mesmo tempo, e eu não. É ótima em matemática e eu não. Se bem que sou lógica. Mas não vamos mudar o rumo da prosa. Como pode achar isso? Mas acho, disse ela, desconsolada. Aquela parecia ser uma constatação que a fazia sofrer. O pior é que o sofrimento dela era, a meu ver, totalmente gratuito. Mas eu não poderia dissuadi-la, já havia percebido isso antes da malfadada confissão. Como não conseguia pegar no sono, lembrei de mais alguns casos: um deles ocorreu quando eu trabalhava com dois jovens estagiários pertencentes a uma área mais técnica. Eles chegaram a mesma conclusão a meu respeito e, sem nenhum autocontrole, fizeram insinuações sobre minha idade. Não fiquei constrangida, nessas horas era bom terem feito a fama. Eu poderia deitar na cama (nossa, que trocadilho chulo) e conviver com o fato de que realmente estou “passadésima”. Olha as aspas, por favor. O outro ocorreu quando ingressei em uma editora como revisora. Como sempre, alguma alma me descobria e eu só passava três dias na função. Não entendam mal. Seria mais um engano. A colega ao lado não gostou da súbita ascensão e foi só questão de tempo: cheguei a reescrever cerca de dez vezes o mesmo texto. As correções eram as mesmas e nunca inseridas pelas outras instâncias. Se eu fosse realmente esperta, teria feito uma fotocópia do material. Resolvi sair. Logo fui para outra empresa de naipe semelhante. Lá ocorreu uma coisa interessante, mas animadora: as colegas fizeram de tudo para esconder essa suposta capacidade. E eu lá, sandália quase de dedo. Não queria ser notada. Parecia ter dado certo. Ledo engano. A frase ao lado é gasta, mas pega bem. Elas (as duas colegas) se esbarravam uma na outra na tentativa de me esconder. E eu gostando. Esse gerúndio normalmente complica a vida das pessoas, mas dessa vez ele não me pega. Naquele eu ficaria, calculei. Até que uma delas não se aguentou e disse: você já é cinquentona, por que não vai pra casa? A frase seria devastadora, mas eu logo me recompus porque pensei na fama. Logo me senti a tal. O estratagema parecia a mim eficaz. Dera certo mais uma vez. Eu, que às vezes consigo ser desaforada, se bem que, também nesse aspecto, engano bem, pois, imagine, faço o papel de “meigésima, logo dei o troco. Então, fugindo do estigma de boazinha, eu disse-lhe: só posso ir embora quando tiver gente competente para substituir a mim e a outra cinquentona, referi-me a outra colega também motivo de preocupação das duas moças. Naquela hora senti-me uma grossa, mas fiz ainda pior: fiquei de semblante fechado durante algumas horas. Depois ela veio melosa e eu esqueci. Fiz que esqueci, a bem da verdade. Não contei as piores, mas essas são ocorridas na academia. E o foco aqui é meu nome é trabalho.Vou omitir. É passado. Sobre as atividades laborais, estou em casa, totalmente freela, mas nem por isso sossegada. Não fiz a fama e nem deito na cama. Nem só, nem acompanhada.

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