Helena Arcoverde

Sai Baba

Posted in Uncategorized by helenarcoverde on 24/04/2011

Adeus, Baba.

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A pressa

Posted in Crônica by helenarcoverde on 16/04/2011

Não sou do tipo metódico e nem tampouco “organizadinho”, mas nunca chego atrasada. Pior, reparo em quem chega. Pura contradição em se tratando de mim. Não dirijo, então passo boa parte dos trajetos em coletivos e, ocasionalmente, táxis. Aquela tarde daria duas aulas de redação para um aluno em uma cidade metropolitana. Esse, ao qual considero meu último aluno, em quarenta minutos estaria à minha espera, em vão, se dependesse do “andar da carruagem”. Mesmo em pistas exclusivas, acho reprovável a falta de atenção de alguns motoristas de ônibus. Essa concepção, no entanto, seria marcada pelo descrédito se eu fizesse, no momento desse relato, uma autoavaliação. Boquiaberta, verifiquei que o motorista parecia valsar sobre a pista, como a simular uma sequência de manobras em câmera lenta. Não fora a pressa, eu acharia aquilo fascinante, mas naquela hora minha irritação só aumentava. A face dele parecia quase angelical, eu diria. Qualquer pessoa, em seu estado lúcido, o acharia equilibrado, um exemplo de profissionalismo, menos eu. Uma barreira à frente até pareceu animá-lo. Desviou o ônibus numa leveza de fazer inveja aos mais estressados. Este termo se aplicava a mim, evidentemente. Durante o desvio ele parecia sorrir. Sem nenhum remorso cristão eu odiava aquele ser de postura tão adequada. Eu me considerava a mais vil das pessoas, uma pecadora melhor dizendo, com uma alma momentaneamente desviada da salvação. Se almas querem reza, naquele momento em não entregaria nem o terço. Estava furiosa. Para aumentar ainda mais meu estado neurastênico, notei que o motorista fazia uma leve batucada com a ponta dos dedos no volante. Aquilo era demais. A palavra neurastenia, a qual eu nunca havia escrito porque a detesto, é adequada em se tratando deste último pormenor. Finalmente acabou a agonia. Ao chegar ainda teria que caminhar algumas quadras. Foi o que pensei fazer não fosse a chuva cada vez mais afoita. Quase molhada, me esgueirava em busca do passatempo de quem anda na chuva: procurar  marquises. Resolvi diminuir as passadas. Quando avistei o condomínio em que morava o aluno, a chuva passou. O relógio não deixava dúvidas do quão precipitada fui: vinte minutos adiantada. Esqueci de dizer que também sou contra chegar adiantada. O que me restou foi me abrigar em uma frondosa árvore até chegar a hora exata da aula. Em frente, um lindo quintal, sem nenhuma construção, me devolveu a lucidez e eu pude ver as curvas e retas traçadas pelos pássaros, felizes pela ausência do urbano naquele espaço. E eu, mais feliz ainda por vê-los naquele traçado sem registro. Ao começarmos nossa aula, lemos e discutimos sobre economia, política e literatura e eu ainda lembrava do tracejado preciso dos pássaros. Quanto ao motorista, agora, passado o susto em chegar atrasada, o achava magnífico, porque não dizer, poético.

O cinema

Posted in Crônica by helenarcoverde on 10/04/2011

Herbert Richers, Columbia Pictures, cortinas que pareciam eternas. Eu me perdia em meio aquela sequência infindável de cadeiras. Não consigo lembrar com precisão como eram, mas o encosto, certamente era de madeira. Ele esperava  por uma alma boa que o abaixasse e eu fazia isso vez por outra. Ocasionalmente, algumas sessões no Clube dos Diários. Giuliano Gemma. Alguns anos depois, a sessão de arte. O cinema era novo. Não o do Glauber. Olhares se cruzavam na antessala e lá dentro me aguardava Teorema. Vou assistir novamente, pode deixar. Pasolini, Visconti. Um mundo novo pra quem só ouvia a mãe falar em Gilda. O lanterninha “entonado” em um uniforme garboso. Era um privilégio aquela companhia sem rosto. Marisol no Rio ficaria para trás, bem como muitas outras coisas. Cenas contemporâneas desse tempo vêm até mim. Querem minha companhia. Não me faço de rogada. Acolho-as. Sou sujeito dessa história, de suas particularidades, da forma como lidei com elas. Mas são também marcas de um tempo de mais gente. Por isso, não as refuto. Quando as deixo chegar mais perto, resgato os heróis que ninguém mais se lembra. Os primos que trocavam figurinhas do lado de fora do cinema. Os meninos da vizinhança. E então eu sou um deles, participo das negociações  com revistas e figurinhas. Cá entre nós, eu ainda não seria capaz de fazer isso, mas como eu gostaria de ter participado daquelas rodinhas. Onde estarão hoje os meninos que entendiam tanto dos meandros dessa negociação? Quem sabe em cada um de nós. Do lado de fora do prédio jujubas e uvas passas. Maças, naquela época escassas. Todos se foram, a mercê do tempo. Alguns teriam visto os mesmos Super8? Ainda posso entrar naquele cinema. Ao redor de mim, as cadeiras estão quase vazias. À frente olho, compenetrada, os trailers. Vez por outra, antes da sessão, viro levemente o rosto para o lado. Não espero ninguém, ainda. É cedo para pensar em meninos. Cismo com as tramas inalteráveis na tela. Lá fora também seria assim. Mas eu ainda não sabia disso.

Quero ser Joca

Posted in Crônica by helenarcoverde on 06/04/2011

Ele vai ser um avião, disse-me ela, com ar vencedor. Nada lhe respondi, pois fui inundada por um sentimento de desvanecimento, de inutilidade mesmo. Então ela criaria mais um, apenas isso. Um homem bom não estava em seus planos. Puxaria tapetes, desconheceria amigos ou a ela própria quando estivesse no que normalmente se considera topo, se aproveitaria das relações partidárias para enriquecer a si e aos seus, viraria as costas para os que um dia lhe apoiaram, seria arrogante com os que estivessem em uma posição de desprestígio. Meu filho mais tarde resumiria todo esse perfil, figurativamente. Conhecendo-o não imaginei na sentença nenhum cunho religioso: Mamãe, ele é tão bonitinho, mas o bichinho não tem “alma”. Todas às vezes que pensava nesse episódio, me remetia de imediato a meus avós. Fui criada por eles – Joca e Helena. Se eles tinham alma eu não sei, mas o outro era parte da vida deles. Importavam-se com os que não conheciam, queriam ajudar, dialogar, ser éticos. Mas que importa a ética, eu quero é me dar bem. Assim pensam alguns, assim planejam alguns as suas próprias estratégias de vida. “Assim caminha a humanidade”. Ninguém fez a biografia do Professor Joca, que era também Rodrigues, Vieira e Arcoverde. Era um estudioso que deixou tudo que o dinheiro e o berço poderiam lhe proporcionar para ser um professor. Pulou dos fármacos para a geografia. Que péssima escolha, disseram alguns. Mas ele trabalhava em prol dos menos favorecidos, um trabalho silencioso e contínuo. As obras sobre seus contemporâneos desfilam e sua foto foi destroçada no porão da escola em que foi diretor. Era um intelectual sem publicações, apesar de ter escrito muitas páginas que o tempo e a falta de uma máquina de escrever apagaram. Fundou algumas escolas direcionadas para os menos afortunados. Mas quem é Joca, afinal? Joca não é ninguém, apenas um homem bom. Mede-se geralmente um vencedor pelos bens, pelos cargos, pelo que ele deixou para trás. Quem perderia tempo em trocar meia dúzias de palavras com um desconhecido, quem perderia uma festa porque seu melhor amigo está muito triste, quem deixaria de concorrer a um cargo porque aquele posto era o maior sonho do colega ao lado, quem deixaria de ser empresário para se tornar um professor? Joca faria tudo isso, mas hoje ele não simboliza nenhum valor. Eu segui a lição de casa? Nem tanto. Mas não criei nenhum avião. Não puxei tapetes. Não invadi vidas sem ser convidada. Se tenho alma, não sei, mas pretendo tê-la, ainda. Como apregoa o dito, nunca é tarde. Talvez não escreva tão bem quanto ele, não me sinta inteiramente parte do cosmo, como ele o fazia, não tenha paciência, como ele a tinha, não acredite tanto em vidas em outros planetas. Talvez eu mate insetos ao avistá-los, ele não. Não preciso de biografia, nem Joca. Somos apenas rastros do homem comum, gostamos do anonimato, em que pese o gosto pelos registros escritos. Mas uma coisa é certa: quero ser Joca. É que quero ter alma.