Helena Arcoverde

O fujão

Posted in Crônica by helenarcoverde on 28/05/2011

Ele olhava para o alto e babava ante o lanche. A mulher, acima dele cerca de um metro e meio, parecia aborrecida com o “espião”. Ele não era o que se poderia chamar de gracioso e nem robusto como muitos dos outros cachorros que perambulavam pelo terminal. A mulher, talvez para se desvencilhar da companhia, caminhou em direção a outra ala. Mas o perseguidor não se deteve. Rapidamente comprei um dos salgados e comecei a caminhar apressadamente em direção a ele que agora se acalmara com o término do lanche. Porém, toda vez que dele eu me aproximava ele, sem se dar conta, se desviava. Eu tentava ser discreta, afinal deixar, mesmo que “de mansinho”, um salgado no chão não deveria ser do agrado dos administradores do lugar. Até então, fora esta inadequação, eu não me importara muito em ser observada, afinal, minha melhor amiga põe os dois cachorros para escutar os filhos ao telefone. Pior, mesmo sem ter muito dinheiro, toda vez que viaja leva os cachorros de avião para que eles não se traumatizem com a ausência dela. Com isso tudo na cabeça me dirigi, resoluta, à ala oposta  com o salgado que minava o guardanapo de gordura e, também, a minha mão. Para desespero meu, o cachorro saiu do terminal e eu não faria o mesmo. Foi então que lancei o salgado além das grades, tentando, em vão, acertar um alvo próximo ao fujão. E nada. Estava quase desistindo quando surgiu uma alma boa: um senhor simples, ar bondoso, quem sabe a espera de salvar uma alma aflita. E eu, na hora, aproveitei a chance: senhor, poderia alcançar este salgado e jogá-lo na grama pois esse cachorro está morto de fome? Ele pensou um pouco sobre o inusitado favor e o atendeu prontamente. Desta vez dera certo. O cachorro, ainda em dúvida com a graça alcançada, relutou um pouco e, em seguida, abocanhou, vorazmente, o alimento. Com a boca cheia, olhava para os lados, a procura de um esconderijo. Eu agradeci o favor, sem nenhuma cerimônia  e comecei a andar rente à vidraça que ladeava o guichê para me certificar de que o ingrato tinha realmente terminado o lanche. Voltei para casa certa de que havia cometido duas “contravenções”: uma delas pela intenção. Já a última teve um agravante: fui a mandante.

Anúncios

A casa

Posted in Conto by helenarcoverde on 22/05/2011

 

Na mesinha do centro, em meio aos bibelôs, tocos de cigarros. Sem os enganos da noite, o fim é anunciado. O oitizeiro e o quintal de topografia irregular ficariam para trás. A dor fora, então, compartilhada com a infância. O espaço conquistado desapareceria, em poucos dias.

Antes do fim, reinava uma atmosfera de desordem em meio ao metódico, à música e à alegria que cessavam quando o marido chegava. Instaurava-se, com essa vinda, uma outra ordem, sisuda e amorfa, em que todas as lacunas estavam previamente preenchidas. Ele só vinha dormir, sem ela, que aceitava prolongar o engano e, assim, manter a casa. Mais uma vez, ela embrulharia as porcelanas sem uso. O papel era de diferentes texturas. Às vezes, jornal.

A mãe se fez trapo. Nem pelos filhos fora capaz de ser feliz. Eles não eram barulhentos, nem exigentes, nem alegres. O dia era igual. Aos sábados ela ficava mais triste. Esse dia fora eleito, até o fim, como aquele em que ela se dava o direito de ficar mais taciturna.

Seu quase riso ficou mais raro. Nunca mais se importaria com nada ao redor, a não ser com seu próprio cotidiano morno. Há muito, já morrera.   Os filhos passaram a vida buscando construir uma imagem de família que não conheciam. Cada um se contentou com o que achou ter encontrado. Afinal, o modelo apreendido é o de que vale a pena fingir para não perder o pouco que se tem.

Nos dias que se seguiram, o menino era levado a passear, nunca por ela. Por instantes, parecia ser possível vê-lo feliz, mas logo o irremediável se instalava e ele voltava a ter o olhar perdido. O rosto  transitava do meigo ao aborrecido, traços que conserva até hoje.

Gostasse ou não, as coisas para ela se transformavam sempre em hábito. Quando ia viajar, arrumava, antes, a bagagem de volta. Já se acostumara a retornar, não somente das viagens. Todos os meses ela cortava pequeninas tiras de papel em branco, ia ticando cada registro dos pagamentos a serem feitos, só então, passava a embrulhar as cédulas. O dinheiro era enrolado em um papel retangular e pequeno. O formato era pouco mais do que o de um cigarro, eterno objeto de desejo dela. Quase sempre o fazia com tristeza, mas com um certo orgulho, afinal, pagaria cada compromisso assumido mesmo que não lhe restasse nem um tostão. Não pensava em alçar voos, era mansa e conformada.

Era maternal durante os aniversários e o natal. Os sapatos na janela, a montagem da árvore, os presentes embaixo da cama eram rituais feitos se não com prazer, com empenho. Uma concessão à infância. Depois, voltava a ser tudo como antes e a tristeza se acentuava uma vez que, por alguns dias, o parâmetro era a felicidade. A sacola vermelha, trançada, formando pequenos losangos, abertos, antecipava o formato dos presentes e durante o mês inteiro os filhos tentavam adivinhar o seu conteúdo. Quase todos os dias ela trazia do trabalho um pouco de embrulho. Eles corriam na direção dos presentes, mas estancavam diante do ar aborrecido de quem carregava a sacola.

No dia eleito, o sábado, ela ouvia sua própria coletânea. Inundava o ambiente de tristeza. Todos recorriam ao corredor lateral da casa, a segunda saída, um plano B em meio a uma fila indiana de folhas imprensadas contra o muro. Vez por outra, reclamava ela, eu vejo só o vulto, todos fogem de mim, queixava-se. A fuga era do mal-estar socializado nesse dia da semana. A essa altura não saia mais de casa, temerosa de encontrar alguém que vira sua estonteante beleza pretérita. Seu último, fiel admirador e ex-namorado tinha acesso restrito a ela, somente por telefone. Com isso, ela se permitia ir além do metódico cotidiano. Quando ele vinha à cidade em que ela morava, o evitava, queria ser lembrada como a moça mais bonita da cidade.

Nunca se soube o que conversavam, mas, às vezes, ela ria muito, outras, retrucava decerto algum elogio, afirmando que já não possuía nenhum traço do que fora anteriormente. Ele sabia, mas fingia ignorar.

A casa ficara para trás. Muitas outras vieram, porém, aquela, exatamente por permanecer inatingível, transformou-se em um objeto de desejo quase inesquecível. Ela ainda está lá, mas as pessoas envolvidas são outras, não existem mais. Não há mais quem compartilhe os antigos  códigos. Os desejos são outros.

Entre a imaginação e o vivido, a casa talvez ainda espere a colcha de crochê na cama de casal, sem uso, a velha bacia alemã posta no alto do móvel, vinda quando os rios ainda eram vivos, remendada fortuitamente pela arrumadeira com cola feita de goma e água.

O perdão é apenas um ritual em que não se acredita, mas que se exercita para não se estragar tudo mais ainda. Mas o arrependimento é real. Ela sabia que não haveria mais tempo de contar história aos filhos na hora de dormir, ou poupá-los das tristezas geradas pelos equívocos. Chega uma hora em que o cotidiano não permite mais  retoques.  Os filhos já tinham ido embora, carregando para sempre o peso da infância perdida. O tempo impede certas retomadas, mesmo as mais desejadas. As histórias que os filhos tanto desejaram ouvir foram narradas por outros. Uma sucessão de pessoas fazia o papel, nunca encenado por ela, de mãe e, assim, eles acabaram sem nenhuma.

As vozes do passado ressoam, uns a escutam, outros fingem ignorá-las. Mas, na medida em que o passado se distancia, elas se intensificam, inoportunas, mas companheiras. Vozes não exorcizáveis, atemporais, tecidas por um tempo que desconhece a linearidade, perpetuadas porque o subjetivo e a emoção assim o querem. Parecem inteiras, mas são apenas fragmentos, retalhos impossíveis de se costurar novamente.

Vez por outra a mãe ressurge na lembrança dos que ficaram: vestido acinturado, vasta saia rodada, cabelos longos e pintinhas tímidas no rosto levemente moreno. Os cabelos, quase acobreados, batem na cintura e são cacheados. Ela reluta mais uma vez. Parece fugidia, porém, olha os filhos. Está tímida, a espera do conto de fada que arruinaria uma vida inteira. Olha-os, conformada. E eles, atônitos, diante da impossibilidade da volta.

 

Antes de envelhecer, converse com os animais

Posted in Crônica by helenarcoverde on 20/05/2011

O envelhecimento não é encarado naturalmente por boa parte das pessoas. Um dos indicativos dessa afirmativa é o caráter infantilizado marcantes nas matérias jornalísticas sobre idosos veiculadas na imprensa do país. Participações em atividades físicas, entretenimento, projetos educacionais e até sociais podem se constituir em uma pauta em que o tom de curiosidade perpassa toda a matéria, como se praticar atividade física, por exemplo, fosse algo tão inusitado nessa faixa etária que mereça recorrentes matérias jornalísticas, quase sempre sob o pretexto de se constituir em um modelo de busca da qualidade de vida. Quando se trata, então, de namoros, casamentos, bloco de idosos e coisas do tipo o tom carnavalizado é fortalecido. A impressão que dá, diante de fatos como esse, é que a velhice é incomum e não uma etapa normal do ciclo de vida, sem a qual a espécie humana, provavelmente, sequer continuaria a existir.

Falta de assunto, de criatividade e até uma certa dose de ignorância povoam matérias desse tipo, além de dificultarem a aceitação da tão propalada e pouco praticada diversidade. O que falta, além de leitura e bom senso, é olhar para si próprio, para os seus e fazer uma autocrítica: eu gostaria que meu pai ou que eu próprio fossemos tratados assim? Fossemos vistos com o olhar quem sabe do colonizador quando aqui chegou ou quando retratava os povos que aqui já existiam? O procedimento é o mesmo: olhar para o outro com superioridade, com  arrogância, com estranhamento. Isso tudo só tem um nome: ignorância ou, quem sabe, prepotência.

O tom dos depoimentos que marcam essas matérias então é um delírio: o entrevistado é tratado como alguém que já perdeu sua capacidade de raciocinar, sem o menor traço de inteligência. O que tem por trás disso tudo é um sério preconceito social e econômico, uma vez que jamais se verá um arquiteto renomado ou um artista famoso ser tratado dessa forma.

Essa atitude é recorrente também em convívios familiares em que o idoso é simplesmente ignorado. É sempre a terceira pessoa, nunca a primeira ou segunda. Fala-se dele, na presença dele, sem ouvi-lo, sem que ele interfira no diálogo. Como se vê, o mal está disseminando, chega a parecer natural. Mas não é.

Para envelhecer, no Brasil, é preciso conversar primeiro com os animais. O tratamento recebido, com as adaptações necessárias a cada uma das espécies, é o mesmo. São todos vistos como bibelôs, adereços de um mundo que não aprendeu a “amar ao próximo como a si mesmo”. Procedimentos deste tipo não refletem somente as ordens sociais, culturais, educacionais e econômicas de uma sociedade, indicam, sim, os motivos pelos quais os problemas seculares que minam o convívio nunca cessaram.

A morte de Bin Laden: euforia e ritual

Posted in Opinião by helenarcoverde on 02/05/2011

Um grande boneco feito de pano, com enchimento de palha ou restos de panos rasgados  era alçado ao topo de um poste. Caso faltasse esse aparato, era fixado até mesmo em grades de ferro que ladeavam as casas. Em seguida ele era surrado e, por fim, queimado. As partes do corpo eram espalhadas rua afora e faziam a  alegria da garotada e até de alguns pais. O ritual, conhecido de muitos em época de menino, representa a morte de Judas, ainda tradição em algumas partes do Brasil. A euforia quase mundial face à morte de Bin Laden se não foi inesperada, lembrou e muito o ritual de espancamento do filho de Simão de Queriote. Por outro lado, demonstra o quanto a simbologia está presente na vida das pessoas, em seus medos, paixões. Essa euforia é desconectada de uma análise mais lógica da realidade. A violência e os complexos problemas culturais, religiosos e econômicos não cessarão com essa morte. Possivelmente, há muito Bin Laden não tivesse mais acesso à rede. Até mesmo porque se o tivesse, seu esconderijo teria sido descoberto há mais tempo. Como o próprio nome diz, é uma rede e estas, geralmente, são formados por muitos elos, nós e redirecionamentos. Portanto, essa euforia, embora compreensível, de forma alguma resolverá as complexas questões que permeiam o embate de poder e intransigência entre ocidente e oriente.

O desconto

Posted in Crônica by helenarcoverde on 01/05/2011

Helena Arcoverde

Nunca refleti sobre essa mania de promoções. Ela estaria atrelada ao poder de compra, ou melhor dizendo, à falta dele? Entre todos os descontos já barganhados, aquele soara inusitado para mim, mas oportuno para quem o concedera. Este eu nunca houvera pedido. Era do tipo gosto amargo da vitória. Naquela manhã, dirigi-me à academia disposta a permanecer por lá umas duas horas. Esse sempre era meu plano, mas sempre ficava pelo menos quarenta minutos a menos. Na ausência do instrutor, puxaria um pouco mais de ferro. Antes disso, comuniquei à funcionária que trouxera o dinheiro da mensalidade com vencimento já no dia seguinte. Ela, simpaticamente, disse-me:

-Consegui um desconto na sua mensalidade.

-Mesmo?

-Sim, 20% para os que atingiram a terceira idade.

Mas já? pensei. Olhei para ela meio desconcertada. Isso ela jamais notaria. Vivamente, completou:

-Você está perto, não é? Então eu busquei um jeito de diminuir sua mensalidade, que estava meio alta.

-Obrigada, querida, respondi-lhe.

Fui para a esteira. De lá não sairia. Ali era meu lugar. Assim, evitaria acidentes vasculares, má circulação, arritmia, diminuiria as probabilidades de enfartar e até de desenvolver a osteoporose. Essa última palavra era demais. Decerto estaria descartada. Quanto mais corria na esteira, mais encarava a imagem retratada no espelho. Não o de Cecília. Não poderia romantizaria esse reflexo. Pelo menos naquele momento.

Aos poucos, fui me acostumando ao ocorrido. Em casa me esperaria um encontro e é sobre ele que eu me concentraria. Iria conhecer a namorada do meu terceiro filho, o mais novinho, 18 anos. Ao retornar, cuidei em colocar um lenço no cabelo. Havia esquecido de retocar a pintura e apareceram alguns fios teimosamente brancos. Sempre pensei que demoraria o dia em que me identificaria com o personagem vivido por Dirk Bogarde, no filme Morte em Veneza, na cena em que os resíduos de tinta escorriam do seu cabelo. Eu teria que me acostumar em ser vista assim. A velhice desnudada. Mas o ritmo dessa adaptação ficaria a cargo do tempo. E eu não poderia mediar esse processo. Pensava nisso tudo ao voltar para casa. Conhecer a namorada do último filho seria um problema? Isso eu saberia daí a minutos.

-mamãe, ela se parece tanto com você, disse-me ele.

-não caia nessa armadilha, filho, a gente sempre deve arranjar alguém melhor que a mãe.

Quando ela chegou, eu não consegui avaliá-la, era apenas alguém começando a viver. Não sabia quem seria. Iria mudar muito, ainda. E essa incompletude era magnífica. Talvez ele sempre a visse com características minhas, mas aquela alegria e jovialidade em nada se aproximariam de como me vejo e me via no passado. A semelhança ficaria somente por conta dele e do inventor de tudo isso. Ele mesmo, Freud. Eu sentei-me em frente dela, em diagonal. O que pensamos uma da outra talvez ficasse perdido para sempre no limiar entre o que se diz e o que se oculta. Mas ela estava ali e, naquele momento, fazia parte da minha história. O evento na academia talvez tenha sido um prenúncio desse encontro que nada mais simbolizava do que a passagem do tempo. O último filho crescera. Sim, eu estava velha. E ainda teria que aprender a lidar com isso, a me ver pelo olhar do tempo.