Helena Arcoverde

O desconto

Posted in Crônica by helenarcoverde on 01/05/2011

Helena Arcoverde

Nunca refleti sobre essa mania de promoções. Ela estaria atrelada ao poder de compra, ou melhor dizendo, à falta dele? Entre todos os descontos já barganhados, aquele soara inusitado para mim, mas oportuno para quem o concedera. Este eu nunca houvera pedido. Era do tipo gosto amargo da vitória. Naquela manhã, dirigi-me à academia disposta a permanecer por lá umas duas horas. Esse sempre era meu plano, mas sempre ficava pelo menos quarenta minutos a menos. Na ausência do instrutor, puxaria um pouco mais de ferro. Antes disso, comuniquei à funcionária que trouxera o dinheiro da mensalidade com vencimento já no dia seguinte. Ela, simpaticamente, disse-me:

-Consegui um desconto na sua mensalidade.

-Mesmo?

-Sim, 20% para os que atingiram a terceira idade.

Mas já? pensei. Olhei para ela meio desconcertada. Isso ela jamais notaria. Vivamente, completou:

-Você está perto, não é? Então eu busquei um jeito de diminuir sua mensalidade, que estava meio alta.

-Obrigada, querida, respondi-lhe.

Fui para a esteira. De lá não sairia. Ali era meu lugar. Assim, evitaria acidentes vasculares, má circulação, arritmia, diminuiria as probabilidades de enfartar e até de desenvolver a osteoporose. Essa última palavra era demais. Decerto estaria descartada. Quanto mais corria na esteira, mais encarava a imagem retratada no espelho. Não o de Cecília. Não poderia romantizaria esse reflexo. Pelo menos naquele momento.

Aos poucos, fui me acostumando ao ocorrido. Em casa me esperaria um encontro e é sobre ele que eu me concentraria. Iria conhecer a namorada do meu terceiro filho, o mais novinho, 18 anos. Ao retornar, cuidei em colocar um lenço no cabelo. Havia esquecido de retocar a pintura e apareceram alguns fios teimosamente brancos. Sempre pensei que demoraria o dia em que me identificaria com o personagem vivido por Dirk Bogarde, no filme Morte em Veneza, na cena em que os resíduos de tinta escorriam do seu cabelo. Eu teria que me acostumar em ser vista assim. A velhice desnudada. Mas o ritmo dessa adaptação ficaria a cargo do tempo. E eu não poderia mediar esse processo. Pensava nisso tudo ao voltar para casa. Conhecer a namorada do último filho seria um problema? Isso eu saberia daí a minutos.

-mamãe, ela se parece tanto com você, disse-me ele.

-não caia nessa armadilha, filho, a gente sempre deve arranjar alguém melhor que a mãe.

Quando ela chegou, eu não consegui avaliá-la, era apenas alguém começando a viver. Não sabia quem seria. Iria mudar muito, ainda. E essa incompletude era magnífica. Talvez ele sempre a visse com características minhas, mas aquela alegria e jovialidade em nada se aproximariam de como me vejo e me via no passado. A semelhança ficaria somente por conta dele e do inventor de tudo isso. Ele mesmo, Freud. Eu sentei-me em frente dela, em diagonal. O que pensamos uma da outra talvez ficasse perdido para sempre no limiar entre o que se diz e o que se oculta. Mas ela estava ali e, naquele momento, fazia parte da minha história. O evento na academia talvez tenha sido um prenúncio desse encontro que nada mais simbolizava do que a passagem do tempo. O último filho crescera. Sim, eu estava velha. E ainda teria que aprender a lidar com isso, a me ver pelo olhar do tempo.

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