Helena Arcoverde

Antes de envelhecer, converse com os animais

Posted in Crônica by helenarcoverde on 20/05/2011

O envelhecimento não é encarado naturalmente por boa parte das pessoas. Um dos indicativos dessa afirmativa é o caráter infantilizado marcantes nas matérias jornalísticas sobre idosos veiculadas na imprensa do país. Participações em atividades físicas, entretenimento, projetos educacionais e até sociais podem se constituir em uma pauta em que o tom de curiosidade perpassa toda a matéria, como se praticar atividade física, por exemplo, fosse algo tão inusitado nessa faixa etária que mereça recorrentes matérias jornalísticas, quase sempre sob o pretexto de se constituir em um modelo de busca da qualidade de vida. Quando se trata, então, de namoros, casamentos, bloco de idosos e coisas do tipo o tom carnavalizado é fortalecido. A impressão que dá, diante de fatos como esse, é que a velhice é incomum e não uma etapa normal do ciclo de vida, sem a qual a espécie humana, provavelmente, sequer continuaria a existir.

Falta de assunto, de criatividade e até uma certa dose de ignorância povoam matérias desse tipo, além de dificultarem a aceitação da tão propalada e pouco praticada diversidade. O que falta, além de leitura e bom senso, é olhar para si próprio, para os seus e fazer uma autocrítica: eu gostaria que meu pai ou que eu próprio fossemos tratados assim? Fossemos vistos com o olhar quem sabe do colonizador quando aqui chegou ou quando retratava os povos que aqui já existiam? O procedimento é o mesmo: olhar para o outro com superioridade, com  arrogância, com estranhamento. Isso tudo só tem um nome: ignorância ou, quem sabe, prepotência.

O tom dos depoimentos que marcam essas matérias então é um delírio: o entrevistado é tratado como alguém que já perdeu sua capacidade de raciocinar, sem o menor traço de inteligência. O que tem por trás disso tudo é um sério preconceito social e econômico, uma vez que jamais se verá um arquiteto renomado ou um artista famoso ser tratado dessa forma.

Essa atitude é recorrente também em convívios familiares em que o idoso é simplesmente ignorado. É sempre a terceira pessoa, nunca a primeira ou segunda. Fala-se dele, na presença dele, sem ouvi-lo, sem que ele interfira no diálogo. Como se vê, o mal está disseminando, chega a parecer natural. Mas não é.

Para envelhecer, no Brasil, é preciso conversar primeiro com os animais. O tratamento recebido, com as adaptações necessárias a cada uma das espécies, é o mesmo. São todos vistos como bibelôs, adereços de um mundo que não aprendeu a “amar ao próximo como a si mesmo”. Procedimentos deste tipo não refletem somente as ordens sociais, culturais, educacionais e econômicas de uma sociedade, indicam, sim, os motivos pelos quais os problemas seculares que minam o convívio nunca cessaram.

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