Helena Arcoverde

O dia em que eu descobri Bebel

Posted in Crônica by helenarcoverde on 01/09/2011

Helena Arcoverde

Na sala eu ouvia contos lidos pelo avô, na copa, críticas e canções populares. Não era um ambiente erudito, a não ser pela literatura  e alusões, mesmo a contragosto, à ciência e academia, feitas por ele. Ele não conseguia negar de onde viera. Nem eu. Por isso, naquele momento eu transitava entre Nina Simone e Célia Cruz. Sem fone de ouvido. O filho, de mansinho, perguntou: mamãe, que tal ouvir Bebel Gilberto? Eu, aos moldes dele, adorava contrariar. Por isso, passei meses para aceitar a sugestão. Que nem ele, apanho da vida pela mania de ser avesso. E eu, que só permito a presença de adjetivos na informalidade, fui obrigada a recorrer a essa classe de palavra traiçoeira e, digamos, comprometedora, ao buscar os que mais se adequavam a essa voz translúcida, etérea e surpreendente. “Diga se você me quer ou não” dizia a canção e eu não sabia se negava ou apreciava, mais uma vez, Linda Flor, que eu já conhecia na voz de Araci Cortes. “Não quis gritar e nem correr” , ouvi dezenas de vezes como a voz única de João Gilberto costurava “tom sur tom” os versos cantados por Bebel. “Tanquilo”, pensei, assim permaneci, não embalada, mas alvoroçada com aquela voz enigmática não fora tão transparente. Mas Bebel terminou não sendo uma boa sugestão porque depois de ouvi-la passei dias para aceitar outra voz. Billie, estou viciada em Bebel

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