Helena Arcoverde

Uma noite insone e o percentual devastador

Posted in Crônica by helenarcoverde on 19/06/2012

Estou ensimesmada com o fato de todas as mães de minhas amigas terem sido  diagnosticadas com o Mal de Alzheimer. Esse pensamento me ocorreu tarde da noite, coisas de quem não tem marido? “Isso aqui está bom demais”. Que associação mais sem sentido. Mas isso é um percentual alto. Eu, que corro dos cálculos,  uso-os razoavelmente bem quando quero e quando não quero também, comecei a pensar em alternativas para este impasse. Melhor computar os inimigos. Ou seriam melhor me ater neles mesmos, afinal, sou quase sessentona. Esse termo está certo? Bem , deixa pra lá. Mas o maior deles não tem mãe. Anote-se que o gênero remete ao feminino, mas deixa tudo no masculino mesmo, enquanto não mudam a regra. Vamos lá. Quem são os outros que me desejam mal? Nossa, se levar em conta o mercado de trabalho, do qual sai correndo, esse índice se eleva vertiginosamente. Além do mais, eu não sei sobre a mãe de nenhum deles. E ai, aliviadamente por me desfazer dos inimigos, entenda-se bem, nessa contagem, comecei a pensar no diálogo com minhas amigas: mas como sua mãe age? Ela repete as frases. Um frio atravessou meu corpo  pra não dizer inteiro e ficar mal na fita. Mas eu repito algumas frases o dia todo, em especial as que se referem aos filhos. Ah, no mercadinho ao lado também faço isso com relação aos preços e estado das verduras. Ainda bem que meus filhos já se acostumaram. Se aparecer uma nora desavisada estarei em uma situação pouco auspiciosa.O que mais ela faz de diferente? Perguntei eu, muito interessada, a outra amiga: ah, ela fala em sexo em horas inapropriadas. Nossa, dessa eu escapei, quase ilesa. Estou indo bem. Relembrei então do diálogo com uma conhecida. Ela troca o nome dos filhos. Novo calafrio. Eu só acerto o nome na terceira tentativa. Deixo claro que só tenho três e que, agora, arrisco mais uma: o nome do irmão. Jesus me salve, senão morro inteira no fogo do inf… nem morta direi esse nome muito menos o escreverei. Comecei, então, a pensar nos argumentos restantes. Já era madrugada e eu continuava, assim, desassossegada com meu futuro. Se é que assim poderia chamá-lo. Filho, está levando os documentos? Mãe você já perguntou isso umas dez vezes hoje, vou lhe internar. Essas brincadeirinhas, ante tão iminente destino, não pegam bem. E os esquecimentos de fatos recentes? Essa por inteiro eu me dei mal. Bem, eu não dirijo, escapei de esquecer a chave do carro ou de deixá-la dentro e ter que chamar o chaveiro. Mas não conseguia deixar de pensar na mãe dos desafetos. Minha mãe não conhece mais dinheiro, ouvi um deles contar certa vez. Se bem que ela há anos não pega no dinheiro da pensão e nem faz compras. E assim eu amanheci o dia, ciosa da necessidade de me cuidar ante percentual tão devastador. Eu ainda não falo sozinha, embora ache que isso é interessante. Mas essas coisas a gente não conta!

Anúncios

UM MERGULHO NA POESIA DE “O CARTEIRO E O POETA”

Posted in Ensaio by helenarcoverde on 15/06/2012

Por  Helena Arcoverde

Resumo

Breves considerações acerca de alguns elementos da narrativa no filme O carteiro e o poeta. Ainda a verdade do herói e como a poesia emerge em um contexto de silêncio e não alteração dos costumes, contexto vivenciado pelo personagem Mário R. Linearidade e mudança marcam tempo e espaço em uma narrativa sem pressa de ser contada.

Palavras-chave

Romantização, mudança, palavra, poesia.

Rumo à metáfora

A árdua caminhada em direção ao dizer poético – a redenção – ao bilhete para abandonar o silêncio em que estivera mergulhado no espaço doméstico por toda uma existência, para escapar da solidão sem palavras do pai, para se reportar ao amor.  A poesia traria isso tudo ao personagem de Massimo Troisi em O carteiro e o poeta.  Depois da subida íngreme em direção à casa do poeta Neruda, a imensidão agora metaforizada oferecia novos discursos. E o personagem de poucas palavras pede a ajuda da poesia para reafirmar o direito de  ouvir o cantar do mar, das palavras e do amor. A jornada em direção ao mundo das metáforas é interrompida  pela dor que sobreveio à transformação.

A verdade do herói

A poesia sem nome, sem refinamento, sem interlocutores, mas que estava disposta a desabrochar de forma tão veemente que brotou do mar, da terra, do coração do personagem que ali esteve sempre à espera que ela batesse a sua porta. Mas ela não veio e ele foi buscá-la montanha acima – no seu próprio local de criação. E o tilintar de talheres e panelas passaram a ter a companhia dos sons da vida que são parte do dizer poético; e o personagem não falará ante  um interlocutor silenciado pelos dias – como ocorre na cena em que constrói um diálogo sem respostas com o pai durante a refeição; não terá dias tão previsíveis. Refutará o silêncio impiedoso que não nomeia, não conversa, não incita. Mário encantará as palavras até que elas se rendam ao seu fascínio e nomeará os diferentes sons que fazem da vida igual e particular; ilusória e consistente; plural e uno – o som do mar, do filho, da natureza bravia ou terna.

O silêncio não é anulado somente pela busca da palavra por parte do herói, ele é perpetuado ao denotar as palavras não ditas, o esquecimento a que é submetida aquela comunidade, o sofrimento imposto aos que não fazem uso social (e diversificado) da língua, em que pese dela necessitem para viver, para se comunicar, para dizer sim ao amor, não à injustiça.

Em Vidas Secas, o poder toma de Fabiano a mercadoria a ser vendida, a que saciaria momentaneamente a fome dos filhos, mas ele não conseguia fazer uso da língua, protestar contra aquele ato que levaria sua família a se aproximar ainda mais da fome. Mas enquanto o herói de Graciliano matutava contra as injustiças e buscava uma forma de enfrentar as adversidades da terra e dos homens, o herói italiano buscava superar o silêncio e ser agraciado pela palavra.

A verdade desse herói é sair do mundo sem nome, escapar da zona sem palavras e, de posse da descoberta, enlaçar o amor improvável. O amor sempre fora susceptível às palavras e Mário Ruoppolo, o personagem carteiro, sabia disso. É esse guerreiro das composições, o entregador de mensagens que será o sujeito do fazer poético, o agraciado pelos deuses em manter um contato sagrado com um poeta maior – Neruda, representado pelo ator Philippe Noiret. Assim, constitui-se em um ser privilegiado, um intermediário entre o poeta e a nova morada, aquele que, de posse do fazer metafórico, o conquistará.

E é o carteiro que refaz os trajetos para levar ao poeta a informação – as cartas, a correspondência que o ligarão ao seu mundo. Em troca, o poeta retribui-lhe, mostrando-lhe aonde se esconde  o dizer que encanta os homens através dos séculos – o dizer singular de confronto do homem com o mar, do feito com a natureza, da representação com o objeto, da conversa singular e ilusória do poeta com o mundo.

O espaço e o tempo entre o mar e a montanha

O espaço do filme dirigido por Michael Radford transita entre a palavra e o silêncio, entre a solidão e a conquista, entre a montanha e o mar, entre o canto e o ruído. Mas está centrada, também, na alma, na transformação advinda do dizer metafórico, da linguagem particular dos versos, porque ” Y el verso cae al alma como al pasto el rocio[i] “.

Espaço e tempo são voltados à mudança, à transformação, ao poder do homem em face da palavra. O silêncio é derrotado, mesmo sendo ele parte da reflexão que ronda todo o filme. O espaço é o do exílio, das mudanças construídas no confronto com a diferença.

O espaço é o do exílio romantizado, de privilégios, de clausura consentida. O elemento externo como desarticulador, como agente de mudança. Uma colonização também romantizada, mas desagregadora dos valores regionais, instauradora do que está além da terra e do mar dos moradores,  fomentadora de uma cultura do outro, apesar de “consentida” e até ansiada. Não invasora. A presença do poeta tece novos valores que não se impõem, mas se instalam em terreno que já ansiava por mudança.

O tempo é linear e transcorre ao sabor das românticas peripécias desse herói que faz das palavras sua arma – uma novidade no mundo marcado pelo silenciar. A subida que dá acesso à casa do poeta, a velha bicicleta, o mar, tudo compõe um tempo e espaço romantizados. O amor move o carteiro, mas o que alimenta a narrativa é o poder de transformar pelo saber, pelo conhecimento, pela percepção e observação da realidade. A poesia, ao final, permeia todo o espaço e o tempo, a visão de mundo única que só ela consegue assegurar e perpetuar.

O espaço em que vive o herói é de certa forma deslocado em mais de uma ocasião: quando ele consegue o emprego e, com isso, se desloca do mar para o alto do morro  para levar as correspondências ao morador famoso. Sai da comunidade pesqueira para a montanha; do silêncio doméstico para aquisição de outros saberes; quando ele, dessa experiência, passa a interagir de forma mais atuante tanto em sua comunidade quanto no âmbito mais pessoal – nesse último caso, o espaço é o mesmo, mas o deslocamento se dá em virtude de sua transformação.

As palavras, para o carteiro, estavam apenas submersas, a espera de serem alçadas, invocadas para o amor, para a conquista, para o levante, para ampliarem sua atuação como sujeito capaz de, suscetível a. A poesia já pulsava dentro de si a espera de ser exortada a refletir sobre o mar e a terra de maneira particular.

Os poetizares de Mário estiveram à espera de sua hora, de serem livres do esquecimento e do anonimato para se mostrarem, para desdizerem e aflorarem. E o personagem que representa o poeta chileno nada mais fez do que iluminar esse canto obscuro e esquecido em que eles sempre estiveram dentro de Ruoppolo.

Considerações  finais

Foi exortado pela palavra, pela força invasiva e discreta da poesia. Com esta deslocou-se da solidão para o amor; do silêncio para o levante; do mar para o morro. Conheceu a dor, argumentou, poetizou . Metaforizou e sonhou. Reagiu ao silêncio. Transformou ruídos em sons. Reviu a imensidão do mar. Perscrutou a dança possível mesmo no exílio. Refez sua própria existência. Essas descrições bem poderiam representar Mario Ruoppolo em O carteiro e o poeta com a certeza de que o homem não vive sem as palavras – sobrevive – e vice-versa.

A busca pela poesia em um mundo sem poesia, em que pese os cenários, poderia dar a dimensão do filme que, se pretendia centrar no poeta chileno, acabou por alçar o carteiro não a um aspirante ou aprendiz, mas a um iniciado seduzido pela paixão que a palavra tem exercido sobre o homem através dos tempos.

Nesse filme o expectador experimenta uma narrativa sem pressa rumo à contemplação do mar, da montanha, do silêncio e da transformação. Degusta a poesia que impregna uma narrativa romantizada em que, mais uma vez, o elemento externo impõe mais mudanças ao outro do que a si. Ainda assim, a poesia prevalece, pois ela, ao final, é quem traz a mudança.

Referências

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.  Rio de Janeiro: Record, 2007.

XAVIER, Ismail. A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

O CARTEIRO E POETA. Direção de Michael Radford. Itália, 1994. (109 min).

[i]  Verso de Poema 20, Pablo Neruda.

Próximo post

Posted in Sem categoria by helenarcoverde on 14/06/2012

Próximo post um breve ensaio sobre o filme O Carteiro e o Poeta.

Fotografia (final década 90)

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 09/06/2012

Crédito: Albert (na época ainda não fotógrafo) fez esse registro da mama.

Sem título

Posted in Poesia by helenarcoverde on 08/06/2012

Não prolongo vínculos

A não ser os que dei vida