Helena Arcoverde

Os vícios se perpetuam

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/09/2012

Conchavos e barganhas, em que pese mudanças ideológicas e partidárias,  se perpetuam. A política partidária não é um processo isolado, compartimentalizado  ao contrário, mantém estreita relação com o restante do modo de ser da Nação. Desse entrecruzamento renascem os vícios que , eternizados, se imiscuem em todos os processos do país, nas casas, escolas e organizações públicas e ou privadas, nas relações como um todo. Talvez isso justifique a aceitação, por muitos, das falcatruas e pactos não evidentes no momento das eleições. E, dessa teia, pouco escapa. Alguns preferem fechar os olhos para o poderio das culturas regionalizadas e enraizadas na sociedade, mas os cenários políticos do país mostram que são crescentes as negociações pouco recomendáveis e, para usar um termo mais adequado, escandalosas que grassam no país . Os ganhos de grupos que se mantêm no poder são significativos e em geral apenas algumas dessas vantagens chegam ao conhecimento da população – que desconhece a extensão dos privilégios e se conforma com o que vaza na imprensa e que, certamente, representa um índice tímido. Os do cenário internacional já entenderam isso e é cada vez menor o entusiasmo por qualquer mudança que se processe no Brasil. Falta aos do lado de cá fazerem o mesmo.

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Adeus ao ringue ingênuo

Posted in Crônica by helenarcoverde on 28/09/2012

O heroi pueril se calou. Morreu Ted Boy. Calou-se o ringue romantizado, o heroi que tinha como verdade vencer o mal. E quando o heroi se vai carrega com ele parte da infância, e mostra quem dá as cartas e eis a “morte, cartada definitiva da solidão, a roupa nova perdeu o sentido”. A sensação, nesta manhã fria é de solidão e os meninos e moços na década de 60 ficaram mais uma vez órfãos pois os herois pouco a pouco vão embora para  mostrar quão certo é o caminho de todos. Enquanto outros meninos de hoje buscam seus herois outros os perdem. É a lei infalível e recorrente que todos esquecem em prol de seus interesses. O ringue romantizado, de mentirinha e faz-de-conta nunca mais será o mesmo, foi embora com o heroi que os meninos e moços de décadas passadas aplaudiam. Infelizmente, para os meninos de Ted ainda existem muitos Verdugos a combater e estes, infelizmente, são de verdade.

Os vagões

Posted in Conto by helenarcoverde on 26/09/2012

Por Helena Arcoverde

Espremidos entre marcas urbanas, pareciam indesejáveis. Foi essa a impressão quando avistei, em meio aos ônibus e carros que se entrecruzavam nervosamente, aqueles vagões. Olhei seguidas vezes, incrédula, apesar de saber da possibilidade de encontrá-los. Cadência conformada, não pareciam incomodados com a rejeição da cidade. Nem com a do tempo. Que nem o passado, talvez fossem sabedores do inevitável reconhecimento ao final da linha. Em um dos vagões havia gente. Na medida em que a cidade se mostrava mais intensa, os vagões tornavam-se uma linha inoportuna e distante, até findarem em uma viela não identificada em meio às vias replicadas. Representavam um passado que, espremido pelos avanços, ficava cada vez mais distante. O espaço reservado a eles deslocara-se. Destoante na cidade dos homens, o trem fora  alijado do espaço de prestígio de uma centena de tempo. As grades o isolavam como a garantir que ele jamais reouvesse o que perdera. Como a solidarizar-se pelo aprisionamento, pequenas flores brancas cresciam em meio a uma grama ainda baixa. De conluio com o sol, flores arroxeadas cintilavam. Árvores nem sempre tão frondosas, quase temerosas, ladeavam suas encostas. Pudera eu, se tivesse coragem, ser daqueles vagões para sempre? Sem olhar para trás como Ló o fizera? Romperia o limite do cotidiano e iria encontrá-lo? O irremediável não combina com o amor. Por isso, eu jamais desceria daquele ônibus. Eles não deixariam. Aprisionavam-me com o amor. A cidade ali estava: pecadora e fascinante, impune e vulnerável. E eu era dela, mesmo que o negasse. Sempre fora. E ela me cobraria isso no momento da rebeldia. Quase sem serventia, ainda parecia me querer. E eu talvez ainda a amasse, mesmo que o desejo de estar entre aqueles passageiros permanecesse. O vagão nunca me levaria enquanto a coragem fosse ausente. Ele precisaria de mim para isso e eu, acostumada a tantos nãos, cansara abatida pelo tempo, subordinada à espera da felicidade que, sabedora de quem eu sou, nunca veio.

Obs.: Leia também  “O morador” já publicado neste blog  há alguns meses e produzido bem depois de “os vagões”. Este conto – “Os vagões” é quase uma despedida desse “gênero” com cara de confessional embora vez por outra eu possa continuar a produzir um ou outro similar.

 

O caminho fácil da ciência

Posted in Crônica by helenarcoverde on 21/09/2012

Por Helena Arcoverde

A ciência hoje, em boa parte dos casos, trabalha com o óbvio, com aquilo que é largamente certeza. Afirmei isso hoje na rede social ao ler uma notícia sobre uma pesquisa que nem deveria ser citada a não ser para ser criticada negativamente. E farei isso porque este é um tema de todos, não só de quem faz, mas de quem vivencia os momentos e contextos que envolvem essas investigações. Faltam a alguns jornais assuntos e a alguns cientistas coragem para enveredar por caminhos mais desafiadores. Mas isso é compreensível porque o Brasil hoje trabalha nesse âmbito com números e não com qualidade. É certo que existem no país pesquisadores renomados pela contribuição. Mas isso sempre existiu não se constitui caso recente. Alguns hospitais universitários e institutos estão por ai há anos e neles cientistas de grande valor. Esse investigar o óbvio se alastra. Basta ler algumas produções acadêmicas que, espremidas, contêm mais citação deles mesmos e de outros do que alguma produção mais significativa. Trabalhar com o óbvio é lucro, mas não deveria ser motivo de orgulho para nenhum pesquisador, a não ser para aqueles que costumam, juntamente com seus pares, jogarem confetes em si próprios.

O impasse, a renúncia, o amor e a política

Posted in Crônica by helenarcoverde on 19/09/2012

Por Helena Arcoverde

Eu, que prezo tanto a autonomia, vivi um impasse: meus filhos não querem que eu me envolva e nem publique textos sobre política (partidária). Eu não ia atender – claro –  mas notei que um deles ficaria imensamente triste se eu fizesse algum texto um pouco mais atrevido sobre esse tema. Mãe tem o coração tão frágil. Pois é, eu estou impossibilitada – em face do amor – de produzir textos sobre política para todo sempre – amém. Quando eu fiz essa concessão  não lembrança da eleição em São Paulo. Gente, quando começaram os debates eu fiquei arrependida da promessa (de campanha). Começava a redigir algumas linhas e, ao pensar na fotinha de infância, largava rápido o teclado. Concentrava-me em outros assuntos, fazia listas de compras, as contas de quanto devo emagrecer para caber em determinada calça comprida 100% algodão e assim passava o tempo até que eu lesse alguma outra notícia. Então começava tudo de novo até que eu achei um jeito mais fácil de enfrentar o problema: abri o álbum de fotografia deles em tenríssima idade e toda vez que a mão ia solitariamente para o teclado o olhar ia para o álbum. Bem, só estou relatando esse impasse para justificar meu silêncio secular sobre assuntos partidários e crônicas políticas em geral. Tenho que admitir: o sacrifício é tão grande quanto o amor. Mas eles eram tão lindinhos, melhor voltar para os contos e relatos de ficção, assim os filhotes ficarão mais felizes. Ah, esqueci de contar: eles são mais ajuizados do que eu.