Helena Arcoverde

Temor

Posted in Conto by helenarcoverde on 21/02/2013

Era um céu com todas as estrelas possíveis. A impressão era de proximidade com o infinito. O desejo o levara até ali.  Mas não era só isso.  Temi querer ficar. Neguei o que antevi. O buquê nas datas especiais. A mesma cama. As flores do campo. As bodas. A colheita quando as estrelas se apagassem. O sol cintila o campo e lembra que poderia ter sido diferente. E de como a resposta teria sido a mesma.

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Imobilidade

Posted in Conto by helenarcoverde on 17/02/2013

Por Helena Arcoverde

Ele preferia andar na contramão mesmo que lá na frente tivesse que voltar. O retorno era a cama na qual fincara as pernas. Do corredor, diálogos se alternavam. Não sobrava nenhum para si. A imobilidade se apoderara dele e a alma toda pulsava. O corpo quase morto, indiferente ao correr desenfreado, ao sol sobre as pipas, ao tracejado urbano, pesava. A cama atraia suas carnes sem desejo. O desfalecer delas o fizeram desistir de apreciar o renascer das ruas – as esquinas, de construir diálogos únicos e anônimos, de desvendar o indizível da cidade. Em vão, olhava a entrada. Sentiu sede, alcançou um copo. Molhou a ponta dos dedos com os veios que escorriam. Tragou apenas um gole do líquido morno. Depois roçou a ponta dos dedos uns nos outros. Alcançou um jornal desalinhado. Ligou o rádio um tanto alto pela crescente surdez. Ante as reclamações, baixou o volume até não conseguir mais ouvir quase nenhum som. Segurou-se na cabeceira da cama e mudou morosamente de posição, aninhando-se às cobertas. Dormiu ao som das palavras entrecortadas do radio.

Carlota

Posted in Conto by helenarcoverde on 04/02/2013

A viagem se aproximara e ela a temia. Desalento pelo não vivido se interpunha entre ela e o acabado. A chuva perdera o fascínio, as compras pareciam despropositadas e o diálogo  inoportuno. Escondera-se do tempo, mas ele a achara. […] Carlota chorava o tempo que se esgotara impedindo-a de festejar, como os demais, as graças da nova estação. Não arregalaria mais os olhos ante as compotas de doce, o dinheiro ganho e não previsto. Estava imune ao desejo e aos mimos que se fazia em nome dele. Não comprara – como seus antepassados – a mortalha.Nem a lilás. Pouco importavam os panos que a cobririam. Eles sobreviveriam a suas carnes desalentadas. O dia não tardou nadinha. Sobre ela choraram os arrependidos, os devedores e até os que se regozijaram ante seu corpo sem reservas. Sem mais quereres, jazia, entre flores sem odores e frases ordinárias. Odiaria lê-las, mas isso também já não importava. Amor e desamor se misturavam às poucas rezas recebidas. Os que a amavam não proferiram nenhum pedaço do terço. Ela não os ensinara. Lá fora os pássaros saltitavam nos galhos apodrecidos. Bicavam migalhas enquanto ticavam, sem sossego, aqui e ali. Olhavam uns aos outros sem se enxergarem e cantarolavam a alma vã de Carlota que, se pudesse vê-los teria na cena seu único consolo. Depois voaram, desalentados com mais uma que se fora sem degustar as bicadas doces do caquizeiro.

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