Helena Arcoverde

A frase de Francisco

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/07/2013

Muitos agem como se no dia a dia estivessem em um tribunal. As formas como as pessoas se relacionam afetiva e sexualmente não cabe intromissão, nem julgamento. Os que julgam veem em si direitos que não têm sobre o outro. Nem seria preciso tanta discussão sobre a questão do homossexualismo se não houvesse tantos equívocos envolvendo o assunto. Se consensual as pessoas amam como querem e ou é possível. Prazer, amor, relacionamentos interpessoais são perpassados pelo âmbito subjetivo, também e principalmente. A frase do papa Francisco acerca de não ter direito de julgar os gays repercutiu em que pese a simplicidade das palavras porque pontua um posicionamento necessário da Igreja Católica. Perde-se tempo julgando, taxando, discriminando. Antes a reflexão. O papa encanta porque age simplesmente como um bom padre, daqueles que todos sentem falta, o do tempo dos avôs. O mundo se volta para Francisco porque necessita desse pastor que não julga, não impõe, não ordena, não pune. Francisco simplesmente ama, sem discussão exacerbada e eleitoreira. Francisco ama e prega afinal o exemplo vale mais do que os discursinhos esgotados dos palanques.

Cama, mesa ou banco?

Posted in Crônica by helenarcoverde on 27/07/2013

Cama, mesa, banco. Qual seria o responsável pela desfiguração do outro em um relacionamento? Nesse processo de desfiguração um deles é por vezes levado a se desfazer de suas memórias, dos pequenos episódios, da infância, amigos e família. Esse processo de submissão é aterrorizador e nele são desfeitos:  identidade,  amor próprio,  desenvolvimento pessoal. Restam autômatos: um porque teve como o único objetivo o de submeter e o outro por se deixar escravizar, por deixar-se transformar em alguém que nada tem de si. Muitos relacionamentos são marcados pela dominação: com amigos impostos pelo casamento as pessoas nada são do que alguém sem nome, sem mar, sem passado. Apenas peças de uma engrenagem muito própria de algumas sociedades que vê no poder a única forma de ser feliz.

Fotog infância fam década 50

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 18/07/2013

vivi copia

Ao fundo, a mãe – Verbena Angélica e  Dindi com Helena nos braços. À frente Vivi, 1 ano e cinco meses. Helena 3 meses.

viviane 1 ano e meio

Vivi sequencia photo 4

Fotog Helena aprox 2004/06

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 17/07/2013

Helena at work

 

Hel aprox 2006

última jornada – conto postado em 2009

Posted in Conto by helenarcoverde on 15/07/2013

Helena Arcoverde
Ela dera seu último telefonema e deitara. Tudo que pulsou naquelas sete décadas se esvaia. Suas falas perderam qualquer vestígio de poder, suas ascendências ruíram, sem as ressiginificações dadas por ela ao longo dos anos. Nada mais restava da fortaleza que um dia desdenhou do destino, enfrentando suas próprias escolhas, desfazendo tanto do que amara, relegando o amor ao último dos planos, embora ele sempre estivesse ali, perto dela, admirando-a, sem tocá-la. Tudo por terra, numa lápide sem nobreza, mas com tudo o que ela mais amou: o próprio nome. Quando o vento colide com o calor do asfalto e sobe o ar quente da tarde, lá surge ela, ora afugentando as ondas transparentes, ora se confundindo com elas. Intensa, cheia de adjetivos, externando amor e ódio como se fosse possível imprimir a eles a mesma marca. Que jornadas ainda pretenderia fazer? Apostara todas suas cartas. O prazo expirara. Azar no jogo, sorte no amor? Nem tanto, pensaria ela. Qual teria sido seu último pensamento? O jogo perdido, o dinheiro não ganho, quem sabe as festas não frequentadas? Voltaria pé ante pé ao casarão de azulejos portugueses, deitaria na rede a zombar do armador e, de mansinho, buscaria a mãe que nunca teve, recomeçaria, nobremente. E, certamente, não olharia para os que desprezavam a matéria. Faria jus a tudo que era e que perdera dia a dia no transitar entre a labuta e a mansidão enfadonha dos poucos lugares que conhecera. E, então, pediria desculpa a ele por não querê-lo outra vez. E ele, mansamente, concordaria. Compassivo, ele sorriria e, mais uma vez, amaria aquelas contradições que marcavam o seu avesso. A serra azulou o horizonte e lá ficou ela, a refletir sobre a eterna luta entre o amor e a razão. Fechou os olhos, o armador rangeu e ela ficou à espera do vizinho rabugento com a latinha de azeite numa mão e a lamparina na outra na direção do som incômodo da madrugada.

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