Helena Arcoverde

fotog final década 90

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 27/09/2013

luc e helenaphoto

A trama

Posted in Conto by helenarcoverde on 17/09/2013

julie

Crédito: J. Dudyk

Por Helena Sobral Arcoverde

Os pelos exibiam variações do marrom e se misturavam a um ar infantil que o acompanhara desde sempre. O seu afastamento fora previamente decidido. Seria deixado em uma espécie de feira agropecuária, distante do cimento fresco ao qual estava acostumado a descansar e de onde olhava, languida e alegremente, toda a família. Não nascera naquela casa, mas parecia dela toda vida ter feito parte. O olhar alongava-se a cada movimento. Talvez fosse feliz. Na manhã marcada todos se dirigiram ao carro. Ele não cabia em si. Fora o primeiro a entrar. Mas essa viagem não teria volta. Sabedor do plano, o menino engolia o choro. Até o momento final apostara que o animal não seria deixado no bairro de casas rareadas. Mas a infância às vezes não avalia bem até aonde os homens podem chegar. Ao retornarem, todos fizeram de conta não perceber que ele não entrara no carro. No meio do trajeto que os levaria para casa, voltaram. Era tarde. O assunto nunca mais fora comentado. A culpa os corroía. E era compartilhada também pelo menino. Certamente Tiquinho teria vagado seguidamente buscando os que amava, desejando estar derreado no piso aconchegante da sala, no cimento fresco e quente, onde ficavam as raras plantas que disputavam espaço com o esgoto. E o menino, quando pensa nele, ainda sente o aperto da traição. E vaga, com ele, nas ruelas desconhecidas. Estão famintos e incrédulos. Uma rufada quente tira-lhes o fôlego. Andam a esmo em um vão estreito entre a conquista e a perda. Cientes da dor, não olham mais o passado. As moscas se aproximam de Tiquinho. E este, resignado, anseia pelo fim.

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