Helena Arcoverde

Os estranhos

Posted in Conto by helenarcoverde on 30/11/2013

Por Helena Arcoverde

Naquela manhã não aterrara os pés assustado com um possível atraso. Abrira os olhos com vagar, degustando uma estranheza . Correu o olhar pelo quarto. Ficaria ali para sempre tamanha era a sensação inusitada. Deteve-se no vidro de remédio sobre a mesinha de cabeceira. Não conseguia lembrar-se de tê-lo tomado. Ficou por instantes ensimesmado com esse esquecimento, mas logo voltou a correr a vista pelo aposento, quase eufórico. Tomara um banho como era usual nas manhãs antes do trabalho e descera, serelepe,  as escadas. Estranhou que todos tivessem saído. Entrou na cozinha e estancou ao abrir a geladeira. Nada o apetecia, comeria depois. Foi até a garagem. Estarrecido, deu por falta do carro.

 Dirigiu-se, agora apressado, ao ponto de ônibus próximo. Tivera sorte com a pontualidade do coletivo. Desceria a duas quadras. Assim o fez. Ao alcançar a portaria do prédio em que trabalhara nos últimos anos, sentiu um desanimo tão forte que estancara, mesmo sem o querer. Saiu rapidamente do prédio. Caminhou a esmo. Depois alcançou as calçadas de um parque das imediações. Raramente o frequentava, mas sempre o apreciara. Faltaria ao trabalho naquele dia e satisfaria um desejo acalentado nos últimos anos: sentar em um daqueles bancos. Um vento tênue e desconhecido parecia uni-lo àquele espaço. Sentou-se em um dos bancos e lhe pareceu difícil determinar por quanto tempo ali permanecera. Seu estado era de contemplação.

Quando acordou desse entorpecimento, reparou que nos bancos ao redor do seu havia várias pessoas sentadas. Todos o encaravam como se detivessem mais informações do que ele sobre algo que ele não atinava o que seria. Ou seria uma prestação de contas? Por alguns instantes a sensação era de terror. Logo se recompôs. Deu umas olhadelas para cima, depois fixou uma planta minúscula, isolada em meio à grama. Retornou o olhar para os companheiros de bancada e notou que não havia nenhuma alteração no comportamento dos vizinhos. Pensou em ir embora, mas logo desistiu: poderia ser mais perigoso se fosse cercado pelos estranhos. Ali permaneceu, simulando conformação. As horas se passaram, não conseguia mais enxergar com nitidez a flor que divisara antes. Com exceção de alguns locais mais iluminados o parque era um breu. Estranhou que os seguranças não viessem incomodá-los, isso o teria livrado do castigo de ficar sentado esse tempo todo, sem mencionar o terror que se alternava com certa resignação. Perdeu a conta de quantas horas dormira. Ninguém o espreitava naquela manhã. Animado, levantara-se depressa. Tivera um sonho, certamente. Dirigiu-se com passadas rápidas à saída. Estava na rua e isso nunca fora tão bom. Ligou pra a esposa para avisar onde estava, mas ela não o atendeu. Nada a fazer naquele momento do que ir até a casa, poderiam estar a sua procura. Entrou  esbaforido. A casa vazia parecia ainda mais aterrorizante do que o ocorrido no parque. Amparou seu medo no corrimão da escada, lentamente, subiu degrau por degrau. Aquela sensação desafiadora da manhã dera lugar a uma certeza de irremediabilidade.

Não sabia se estava aterrorizado ou condenado. Sonho não poderia ser, estava bem acordado. Quando segurou o trinco sentiu novamente a mesma estranheza da manhã. Segurou-o firme e abriu a porta. Sentados na cama e em cima de todos os moveis do quarto os estranhos o aguardavam. Atrás de si uma porta fora fechada e ele nem se deu ao trabalho de ver quem era. Recostou-se na parede e se entregou aos olhares seculares dos visitantes.

 

 

Fotog Helena Arcoverde década 80

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 13/11/2013

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