Helena Arcoverde

A portinhola

Posted in Conto by helenarcoverde on 20/05/2014

Helena Arcoverde

 Ao longe avistou uma nesga da parede. As passadas amiudaram. O corpo enrijecido pela chegada. Não tinha pressa, assim mesmo a casa se desnudava. O telhado encardido contrastava com as paredes recém-pintadas escondedoras do passado. Parou a uma quadra. Recostara-se a um muro e ali fincou o pensamento. As imagens se avolumavam, impositivas. Depois girou o corpo e sobre o muro avistou a goiabeira que tantas vezes ousara subir, sorrateiramente, sob os olhares desafiadores de outros pequenos. Andou o olhar mais um pouco e avistou o pé de manga, o tronco áspero e escurecido pelos anos possuía recortes, as folhas encompridadas e familiares, os frutos, verdes e pequenos. Partidos ainda tenros, eram embranquecidos e inutilizavam a carne doce e amarela de mais alguns meses. Deu as costas novamente para o muro e caminhou em direção à casa. Passadas conformadas e regulares logo acederam à porta.

Entrou e voltou o olhar na direção do pequeno retângulo florido. Lá estava ela. Com movimentos desinteressados, olhou mecanicamente em direção ao vulto que se aproximava. Terno, o visitante agachou-se e recolheu as mãos enrugadas envolvendo-as nas suas. Ela sorriu gentil. Outro muro vedara o amor, guardara-o em um canto que nenhuma história revolveria. O olhar penetrante se confrontava com o da estranheza. As poucas palavras trocadas pareciam novas não fora um eco ensurdecido pelas longas horas pretéritas de amor. Erguendo o corpo o visitante recostou-se nos seios não mais fartos. Fechou os olhos ante a impessoalidade do corpo. Sorridente, ela parecia curiosa ante a inesperada intimidade. Incomodado, ele levantou-se e sentou-se na cadeira ao lado. Olhava-a. Ela, ainda sorridente, surpreendia-se ante os afagos aos fios ralos presos por um coque arrematado por um prendedor que, simulando os dentes de um pente, se moldava à cabeça. Ele fixou os olhos naquele coque desavolumado e enxergou cabelos fartos e ondulados. A expressão vaga fora trocada por outra singular, ralhadora e amorosa; faceira e cuidadosa; febril e terna. Ele sorriu, momentaneamente satisfeito. Admirada, ela ergueu a face novamente ensimesmada com o visitante. Aos poucos, a expressão segura dele foi substituída novamente pelo desalento. Olhou em volta. Gritaria de crianças se intercalava ao silêncio. Vozes enérgicas quebravam a mansidão da manhã.

A portinhola sem mais utilidade aferrolhava o passado, impedindo-o de se reconstruir. Ela tomava um chá e ele, também alheio, continuava a transpor o momento. Matutava a alternância entre o passado e o presente; entre o amor interrompido e a orfandade; entre o riso e a indiferença ; entre o esquecimento e as lembranças. Assim, roçou a mão sobre os fios brancos e saiu, cabisbaixo. Lá fora, os passos eram uniformes e sombrios. Com as mãos nos bolsos, olhava, displicente, o bico do sapato. De longe, desviou-se do velho muro. Atravessou a rua . Meninos transpunham o paredão, ávidos. Um deles olhou o interior do quintal e, sob a advertência enérgica da mãe, volveu as pernas sobre o muro descendo-o apreensivo.

O transeunte, do outro lado da rua, continuava a olhar a cena agora com passadas temerosas. O menino, seguro pelo pulso, caminhava aborrecido, em direção à nesga de parede à mostra. O transeunte parou e voltou lentamente o corpo na direção contrária até que o menino, ainda seguro pela mão, entrasse na casa de telhado e pintura novas. A portinhola, aferrolhada, os esperaria com um castigo que o impediria, por algumas horas, de adentrar ao jardim zoadento.

Sentaria antes dela, e se recostaria por inteiro na parede. Dali enxergaria retângulos esverdeados. Uma flor quase inteira se interpunha aos cortes alongados e coloria a clausura de amor. Pernas ágeis se cruzavam movimentado os retângulos da pequena portinhola. Emburrado, esperaria ansioso pelo sinal de consentimento. Quando isso ocorresse saltaria sobre a pequena porta, a desaferrolharia em busca do jardim.

Continuou a caminhar na direção contrária à casa. Por alguns dias a esqueceria, até que o retorno fosse imprescindível. Relutante, voltaria para reacender histórias silenciadas. Sofreria com o olhar de surpresa. E, entre a perda e a resignação, buscaria, inutilmente, quem o impedisse de transpor o muro.

Anúncios
Tagged with: , ,

fotog Helena 2014

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 16/05/2014

eu 2photo

Fotog década 80

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 01/05/2014

mamae hilena