Helena Arcoverde

A exterminadora

Posted in Crônica by helenarcoverde on 25/01/2015

Por Helena Arcoverde

A pequena ala era frequentada apenas quando o filho recebia os amigos que conhecera ainda na infância e com os quais vez por outra jogava videogame e assistia filmes. Logo depois de limpa era novamente fechada. Mas, naquele dia, o garoto dissera ter visto uma barata e, nos dias que se seguiram fora lá para verificar se surgiram outros insetos e de onde se originavam. É uma só e ela vem todas as noites, informara ele. Ficamos preocupados e, posteriormente, verificamos que havia um cano quebrado, de onde provavelmente ela viera. Na iminência de chegarem os amigos, para lá me dirigi para a limpeza. Era noitinha e aproveitei para verificar a presença da visitante noturna. Lá estava ela, robusta, eu até diria viçosa, ‘ancha‘ de seu território. Depressa, agarrei o chinelo e a esfacelei. Agi sob impulso, confesso, e não imaginaria que aquele ato me colocaria na posição do mais terrível algoz.

Chamei meu filho e, com disfarçado ar de vitória, me vangloriei da façanha. Ele, que vinha apressado diante de meus gritos, logo vislumbrou o ocorrido. O piso claro realçava o esfacelamento do inseto. Uma das asas se deslocara do corpo e este parecia grudado ao piso. Aos poucos – ante o olhar de compaixão do filho – fui sentindo que aquele que presumi ser um ato heróico se transformara em algo a ser desvendado, esmiuçado. Por que você a matou, mãe? Porque simplesmente não a expulsou? era somente uma, não precisava fazer isso. Eu agora me sentia a mais terrível das mães. Desumana e, por que não dizer, devastadora de lares. Com uma pá, retirei a barata com asa e tudo e pus-me a limpar o chão. O menino subiu as escadas contrariado e – quando o encontrei ele me olhara desconfiado. Mais do que uma exterminadora de insetos, eu – naquele momento – era má. Torci para que ele dormisse e esquecesse o episódio. Naquele momento, eu era apenas alguém para quem os insetos são sempre nocivos, e o menino alguém muito melhor do que eu, que aprendera sozinho que há espaço para todos quando se respeita a vida, mesmo que seja a de um simples inseto.

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Pó parar

Posted in Crônica by helenarcoverde on 05/01/2015

A extensão da mudança é mesmo difícil de ser avaliada antecipadamente. Projeta-se uma coisa e ela sai do controle. E não estou me referindo somente aos avanços, novas ordens e tudo mais. E, sim, a processos caseiros, aqueles que de tão específicos e estritamente domésticos presume-se serem controláveis. Pois não é que nem esse âmbito – o do escondido – podemos medir com precisão? O caso é sério. Quando minha mãe faleceu eu pensei: opa, fui esquecida. Surpresa, verifiquei que as irmãs começaram a fazer o jogo da mama e, tudo que eu dizia, rendia. E o que rendia era tão insignificante que esse é o aspecto intrigante da história. Minha avó também – esta por puro mimo – reproduzia as tiradinhas (eu era tão meiga) seguidamente. Então, agora que os anos passaram, comecei a ficar preocupada com essa espécie de glamour doméstico pois as interpretações poderão não ser tão inofensivas a depender da soma das eras. Como ser absolutamente comum aos sessenta? Isso deve ser “mamão com açucar”. Receita de bolo, horta na lateral do terreno, crochê. Nao tão simples quando o bolo sola e não se sabe manusear as agulhas do tricô. Humm, há urgência na resolucão dessa questão. O jeito é ser boazinha como no tempo da vovó. Sem contradição, o sossego rende. Gente, o processo se complica, “pó parar”.