Helena Arcoverde

Entrevista Professor Pedro Demo

Posted in Entrevista by helenarcoverde on 28/03/2011

“… no  contexto neoliberal, não é viável uma sociedade mais justa e  igualitária, porque o neoliberalismo funda-se na desigualdade de  oportunidades”.

Autor consagrado, pesquisador, conferencista e professor, Pedro Demo transita em todos esses âmbitos com desenvoltura e se constitui hoje em um dos brasileiros mais conhecidos no cenário mundial científico e acadêmico. Entre sua extensa lista de livros estão: Aposta no Professor, lançado pela Mediação Editora; Avaliação Qualitativa, Autores Associados; Conhecimento e Aprendizagem na nova Mídia, Plano; Desafios Modernos da Educação, Vozes; Educação e Alfabetização Científica, Papirus; Educação Hoje, Atlas; Educar pela Pesquisa, Autores Associados; Éticas Multiculturais, Vozes; Habilidades e Competências no Século XXI, Mediação Editora.

Helena Arcoverde: A Revolução tecnológica que marcou o final do século XX alterou a sociedade, suas organizações e forma de pensar. Esse cenário beneficia o surgimento de uma maior socialização do saber?

Professor Pedro Demo: Teoricamente sim, pelo menos do ponto de vista das tecnologias, em particular da internet. Do ponto de vista social, pode não ser porque a questão do poder e dos privilégios vai contaminando esse mundo da comunicação. Existe a “digital divide”, tão discutida por aí. Mesmo assim, este abuso não tolhe o uso – há enormes potencialidades.

Helena Arcoverde: Em seu livro, “Desafios Modernos da Educação”, o senhor diz que o surgimento das oportunidades de desenvolvimento de uma sociedade está fortemente condicionado ao processo educativo, em todos os níveis. A saída para os numerosos desafios socioeconômicos e culturais dos países da América Latina perpassa pela emancipação educacional e cultural do seu povo?

Professor Pedro Demo:  Acredito que educação possui – sem panaceias – esta potencialidade (não é determinação): se fosse bem feita, favoreceria a formação de sujeitos históricos capazes de história própria, individual e coletiva, com resultados importantes também na esfera econômica que, aliás, depende, cada vez mais, da inteligência humana, nem que seja para explorar ainda mais.

Helena Arcoverde: O renomado professor Milton Santos acreditava na construção de um outro mundo mediante uma globalização mais humana, em oposição ao que ele denominava de globalização perversa. O senhor acredita  que esse processo de internacionalização comprometeu as conquistas   humanas no que se refere à construção de uma sociedade mais  emancipada e mais justa?

Professor Pedro Demo: De novo, esta nova economia detém  potencialidades quase todas devastadas pelo neoliberalismo –  globaliza-se a miséria, não a abundância. Tenho para mim que, no  contexto neoliberal, não é viável uma sociedade mais justa e  igualitária, porque o neoliberalismo funda-se na desigualdade de  oportunidades. O “pensamento único” vigente quer nos fazer crer  que não alternativa, mas isto não respeita a história que sempre  soube gestar alternativas, mais cedo ou mais tarde e educação  teria grande papel nisso.

Helena Arcoverde: No livro “Pobreza da pobreza”, o senhor afirma a existência de  uma     prática nacional que considera a pobreza como simples  carência material. Essa prática evitaria “o confronto”. O senhor observa  no      país uma tendência de fortalecimento dessa postura?

Professor Pedro Demo: Perdura na tecnocracia que estuda a pobreza o ponto de vista empirista,  tecnicista, precisamente porque isto favorece a uma política social neoliberal de acomodação dos pobres (bolsa-família faz  isso  exatamente, embora não só isso). O pobre entra na história apenas como beneficiário e objeto, tudo é decidido à sua revelia. Como a pobreza material é enorme, qualquer dinheirinho basta para       engambelar os pobres. Acredito que neste tipo de política social  há um componente duro de imbecilização popular.

Helena Arcoverde: Para Gutierrez e Prieto, a escola privilegia virtudes passivas: obediência, submissão, ordem, memória, pontualidade. Por outro lado, acrescentam os mesmos autores, castiga as virtudes ativas: criatividade, risco, crítica, imaginação, intuição. Segundo os autores, são as últimas que fazem a história. Para eles, trata-se de eleger entre uma pessoa submetida à história e uma pessoa que  faz a história. A educação brasileira contemporânea privilegia a formação de que tipo de pessoa?

 

Professor Pedro Demo: Já por conta da baixíssima aprendizagem, a educação no Brasil opera pela inoperância, e isto favorece o status quo. Os alunos chegam à 4ª  série sem saber  quase  nada; este tipo de educação é menos ideológico – não é sequer capaz disso – do que inoperante. Mas isto basta para deixar as coisas como estão.

Helena Arcoverde:   Como o senhor vê o mercado editorial brasileiro hoje?

Professor Pedro Demo:  Em crise, até porque, tendo aumentado a população estudantil universitária,      pouco mudou na venda de livros. Ler ainda não faz parte da aprendizagem. Bastam aulas. Aí está uma das origens da miséria escolar – não se pesquisa, elabora, lê; apenas escutam-se aulas       copiadas para copiar. Quando, em 1997, o ano letivo passou para 200 dias, ocorreu a maior baixa relativa na aprendizagem dos       alunos – aumentando as aulas, aumentamos a inoperância da escola…

Helena Arcoverde: No Brasil, a produção científica está restrita às universidades?

Professor Pedro Demo:  Não só, porque há uma rede de institutos de pesquisa no Brasil,  em  geral ligados ao CNPq. Há ainda alguns institutos particulares.  Na universidade pesquisa-se muito pouco, também por falta de apoio   público. No nosso sistema, ainda não fomos capazes de implantar a   ideia de que universidade só interessa à sociedade se for de  pesquisa. Se apenas “transmite” conhecimento, não faz nenhuma  falta, porquanto esta atividade está sendo subsumida pela mídia.

Helena Arcoverde: A articulação ensino/pesquisa/extensão é uma realidade nas   universidades brasileiras?

Professor Pedro Demo: Não é, nem é adequada. Extensão é       primo pobre, fica fora do currículo, como se cidadania fosse  “eventual”, “voluntária”. O termo mais fundamental é pesquisa, da   qual segue o ensino. Quem não pesquisa, não tem nada para ensinar.

Helena Arcoverde: Ao traçar um parâmetro entre suas publicações, como senhor avalia  sua trajetória como autor?

Professor Pedro Demo: Fui aprendendo sempre um pouco mais, o que me levou a rever muita coisa. Continuo pesquisando, para poder me renovar sempre. Minha causa maior é o apoio aos professores básicos, porque entendo que são os artífices centrais da democracia popular.

Observação:

Entrevista concedida em 2006 para o primeiro número de uma revista que tinha como linha editorial a educação, ciência e cultura e que, por razões diversas, não chegou a ser publicada. Perguntado se concordaria na reprodução da entrevista neste espaço, o professor Pedro Demo gentilmente autorizou-a.