Helena Arcoverde

Adeus, doctor

Posted in Crônica by helenarcoverde on 23/07/2016

Por Helena Arcoverde

Há pessoas que, quando desaparecem, levam parte de nossa história. Deixam os bancos das praças, as casas, as ruas, mas levam os trechos que – apesar de únicos – são de todos. Ninguém se impõe na história. Ela reconhece quem fomenta  as narrativas da cidade. Essas pessoas são um pouco guardadoras desses pedacinhos de vida ao se dispuserem a ver no outro um pouco de si. Eu poderia citar, na cidade em que nasci, Teresina, algumas delas. Aqui – rapidamente – lembro do médico Noronha Filho e do cartunista Albert Carvalho, que garantiram aos outros presença nos espaços que fomentaram culturalmente na cidade. O espaço do chamamento para a arte, do desprendimento, do fascínio em ajuntar para o fazer cultural,  sem esperar respostas relacionadas a ganhos pessoais. O médico Noronha Filho se foi para sempre da cidade pela qual tanto fez. Eu mantive com ele uma relação cordial, não próxima, embora eu tivesse frequentado algumas das festas que ele, há algumas décadas – realizava e tivesse feito parte por um curto período – já que eu não tinha disponibilidade de tempo, de sua equipe de assessoria de imprensa enquanto secretário de Estado, função que – posteriormente agradeci e me desliguei. Noronha Filho se foi, sim, e levou também um trecho de minha história. Adeus, Dr. Noronha, siga em paz e, aonde estiver, construa histórias que, não fossem pessoas como você, poderiam ter outro final.

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A bordadeira

Posted in Conto by helenarcoverde on 08/12/2012

Cinco filhos, um rio e mais de meio século de trabalho. Esse era o saldo que selara sua vida. Debruçada sobre o bastidor, entrelaçava os pontos. Minúsculos sapatos eram ligados ao quimono da personagem. O coque achureado, a boca vermelha que ela nunca se atrevera a desenhar em si própria, as mãos brancas e envelhecidas movimentavam milimetricamente uma composição de cores e pontos. Nunca se soube se havia indignação naquele bordar. Apesar do ganho minguado, orgulhava-se da aproximação que fazia entre as cores. É arte, dizia sempre.

A cadeira na qual exercia o ofício era de couro, larga, reforçada. O assento possuía sinuosos traços que indicavam o tempo e a secura do material. Mas já se acostumara a ela. Moldara naquela cadeira seu cheiro, o formato do seu corpo, suas lamúrias. No encosto, uma madeira lisa e ainda viçosa amparava seu corpo largo. Tachas enegrecidas arrematavam o encontro entre o couro e a madeira do assento.

Os óculos se movimentavam ante a presença do suor. E, continuamente, ela os elevava, em um movimento eterno e conformado. Apesar de reclamar desse desassossego, na maioria das vezes parecia nem mais notá-lo. Pingos de suor caiam no paninho de prato com motivos orientais e ela encostava o lenço levemente no rosto, temendo machucar os inúmeros sinais contraídos em face da incidência do sol na pele.

Na safra do caju, aceitava menos encomendas e dedicava-se a fabricar cajuínas. Mas, nessa lida, permanecia durante todo o processo, irritada, principalmente quando alguém se aventurava a colocar um caneco entre a gamela e o saco que filtrava o líquido reiteradas vezes. Não que fosse avarenta, mas não lhe sobrara, com o passar do tempo, muita paciência.

No dia de sua morte, estendido na rede de varandas largas não havia somente um corpo inerte, mas o encerramento de uma vida de luta e amor; de reflexão sobre sua própria existência e poesia; de escolhas e arrependimentos; de brigas e ternura. Deixara uma existência para a qual não fora preparada, mas enfrentara.

Os que por aquela calçada passassem nunca mais veriam aquele corpo debruçado sobre o bastidor, as unhas a ajeitarem os pedacinhos de tecidos que formavam sapatos, quimonos, braços e sombrinha. As janelas nunca mais foram abertas. Não pelo luto, embora ele existisse, mas porque os moradores da casa não se expunham à rua, como ela.

O rio caudaloso, a rua de casarões antigos e a memória do que foi hoje povoam sua nova existência. Nela, cantaria o poeta de sua terra e diria que, apesar de tudo, deixou um rastro de trabalho e amor que poderá compensar a existência que, inadvertidamente, suportou. E, nesse retorno, a serra toma de conta do rio, e este das canoas. Perto dali, as orações se intensificam quando o sol se acoberta. E ela, se não reza, ouve as lamúrias dos que trabalham e quase nada ganham. Sem máquina e nem suor, daria um sorriso ao se lembrar do bastidor, da cadeira e dos tecidos a bordar. Deixou um legado, de certa forma, foi feliz.

Obs.: esse conto foi publicado, em primeira edição, por Histórias de Trabalho, antologia,  Editora da Cidade, Porto Alegre.

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