Helena Arcoverde

Os bancos

Posted in Poesia by helenarcoverde on 20/03/2016
 Por Helena Arcoverde
os bancos eram compridos

mas nao cabiam a dor
nem as dúvidas do rezador

 

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Os estranhos

Posted in Conto by helenarcoverde on 30/11/2013

Por Helena Arcoverde

Naquela manhã não aterrara os pés assustado com um possível atraso. Abrira os olhos com vagar, degustando uma estranheza . Correu o olhar pelo quarto. Ficaria ali para sempre tamanha era a sensação inusitada. Deteve-se no vidro de remédio sobre a mesinha de cabeceira. Não conseguia lembrar-se de tê-lo tomado. Ficou por instantes ensimesmado com esse esquecimento, mas logo voltou a correr a vista pelo aposento, quase eufórico. Tomara um banho como era usual nas manhãs antes do trabalho e descera, serelepe,  as escadas. Estranhou que todos tivessem saído. Entrou na cozinha e estancou ao abrir a geladeira. Nada o apetecia, comeria depois. Foi até a garagem. Estarrecido, deu por falta do carro.

 Dirigiu-se, agora apressado, ao ponto de ônibus próximo. Tivera sorte com a pontualidade do coletivo. Desceria a duas quadras. Assim o fez. Ao alcançar a portaria do prédio em que trabalhara nos últimos anos, sentiu um desanimo tão forte que estancara, mesmo sem o querer. Saiu rapidamente do prédio. Caminhou a esmo. Depois alcançou as calçadas de um parque das imediações. Raramente o frequentava, mas sempre o apreciara. Faltaria ao trabalho naquele dia e satisfaria um desejo acalentado nos últimos anos: sentar em um daqueles bancos. Um vento tênue e desconhecido parecia uni-lo àquele espaço. Sentou-se em um dos bancos e lhe pareceu difícil determinar por quanto tempo ali permanecera. Seu estado era de contemplação.

Quando acordou desse entorpecimento, reparou que nos bancos ao redor do seu havia várias pessoas sentadas. Todos o encaravam como se detivessem mais informações do que ele sobre algo que ele não atinava o que seria. Ou seria uma prestação de contas? Por alguns instantes a sensação era de terror. Logo se recompôs. Deu umas olhadelas para cima, depois fixou uma planta minúscula, isolada em meio à grama. Retornou o olhar para os companheiros de bancada e notou que não havia nenhuma alteração no comportamento dos vizinhos. Pensou em ir embora, mas logo desistiu: poderia ser mais perigoso se fosse cercado pelos estranhos. Ali permaneceu, simulando conformação. As horas se passaram, não conseguia mais enxergar com nitidez a flor que divisara antes. Com exceção de alguns locais mais iluminados o parque era um breu. Estranhou que os seguranças não viessem incomodá-los, isso o teria livrado do castigo de ficar sentado esse tempo todo, sem mencionar o terror que se alternava com certa resignação. Perdeu a conta de quantas horas dormira. Ninguém o espreitava naquela manhã. Animado, levantara-se depressa. Tivera um sonho, certamente. Dirigiu-se com passadas rápidas à saída. Estava na rua e isso nunca fora tão bom. Ligou pra a esposa para avisar onde estava, mas ela não o atendeu. Nada a fazer naquele momento do que ir até a casa, poderiam estar a sua procura. Entrou  esbaforido. A casa vazia parecia ainda mais aterrorizante do que o ocorrido no parque. Amparou seu medo no corrimão da escada, lentamente, subiu degrau por degrau. Aquela sensação desafiadora da manhã dera lugar a uma certeza de irremediabilidade.

Não sabia se estava aterrorizado ou condenado. Sonho não poderia ser, estava bem acordado. Quando segurou o trinco sentiu novamente a mesma estranheza da manhã. Segurou-o firme e abriu a porta. Sentados na cama e em cima de todos os moveis do quarto os estranhos o aguardavam. Atrás de si uma porta fora fechada e ele nem se deu ao trabalho de ver quem era. Recostou-se na parede e se entregou aos olhares seculares dos visitantes.

 

 

O ônibus

Posted in Conto by helenarcoverde on 27/06/2013

O ônibus

O ônibus trepidava, mas ela parecia não sentir. Nada balançava no corpo magro. Os objetos se sacudiam e tornavam a se acomodar. Na segunda fila, ela admirava-se da sorte de ninguém ter tomado o assento ao lado. O motorista parecia compreender mais do que o momento exigia. Vez por outra olhava pelo retrovisor como se pudesse ler não somente os pensamentos dos passageiros como saber mais do que eles sobre as vidas que não lhe pertenciam. Elza começou a se incomodar com aquilo que considerou petulância. Procurou não olhar mais na direção do motorista, embora soubesse que vez por outra o faria. E quando isso era inevitável ele respondia ao olhar com sarcasmo. Ao lado uma mulher  procurava ajustar-se à largura do banco. Temendo ser vista, Elza mudou a direção do rosto, mas voltou-o repentinamente após observar que o braço direito dela parecia machucado. Gases sujas pareciam soltar-se por conta dos solavancos. Elza pensava em toda a estranheza da situação quando o motorista anunciou uma interrupção na viagem. O ônibus acostou e a mulher, depois de retorcer-se por alguns minutos levantou-se do banco. O vestido era folgado, tinha rasgos em uma das laterais. Cambaleante conseguiu sair do ônibus que parara em uma casa. A mulher entrou. Os passageiros pareciam conformados com a espera. Elza observou que o motorista conservava o mesmo ar debochador e batucava com a ponta dos dedos no círculo escuro da direção. Ela não soube precisar o tempo que permaneceram naquela concessão incomum.  Finalmente avistou a mulher. Ela chorava. Havia movimento na casa, mas ninguém veio acompanhá-la até a porta. Da mesma forma que ela saiu, entrou. Trôpega  ela estava cabisbaixa e mais abatida do que antes. A viagem recomeçou. Entre uma manobrada e outra o motorista ainda batucava. Elza dormira e quando se deu conta o ônibus estava novamente parado na frente de mais uma casa. Ela observou pela janela e desta vez os detalhes eram mais visíveis. A casa parecia abandonada. Tábuas entrecruzadas foram fixadas na porta de entrada e na única janela. Um homem  estava parado na frente observando o imóvel. Assim ficou por alguns minutos. Ela observava a cena cada vez mais constrangida. Fizera aquela viagem para encontrar com alguns  amigos e certamente perderia o encontro se aquela situação perdurasse. O homem, finalmente voltou. Circunspecto, dirigiu-se a algum assento depois do dela. A viagem continuou por um tempo não contável. Até que o ônibus diminuiu a velocidade ao aproximar-se de um acidente que provavelmente ocorrera  há alguns dias. Um ônibus e um carro de passeio compunham o cenário. Muito entulho, algumas velas e flores. Todos os rostos se viraram a um só tempo. Apenas o de Elza ateve-se aos demais passageiros. Todos se entreolharam. Depois das interrupções, o ritmo da viagem parecia normalizado. Elza sentia-se torpe e , quando se deu conta, alguém pareceu cutucá-la. Assustada, arregalou os olhos e compôs-se. Agora todos a olhavam. O motorista, de pé, em sua frente, apertou-se entre no espaço do banco da primeira fila como a dar passagem a Elza. Ela levantou-se e caminhou como o fizeram os outros, até a saída. Desceu, relutante, os dois degraus da escada e só então percebeu que o ônibus estacionara em frente a sua casa. Olhou para trás interrogativamente e o motorista, agora com ar de compaixão, assentiu com a cabeça para que continuasse. A moça continuou a caminhar em direção a casa. Logo na entrada encontrou os moradores que não a cumprimentaram. Intrigada, ela seguiu para o interior da casa. Ninguém a cumprimentava. Certamente estavam zangados pela viagem. Dirigiu-se até o quarto da mãe e a encontrou deitada, chorando. Abraçou-a e ela nem ao menos a olhou. Demorou ali até que a mãe adormecesse. Depois voltou sem que ninguém a percebesse. Tomou novamente o ônibus e partiu.

O acerto

Posted in Conto by helenarcoverde on 24/01/2013

O banco  – que não ficava defronte ao rio Charles – em tudo combinava com a praça que ninguém mais queria. Alguns pombos, desassossegados, caçavam inutilmente resíduos trazidos pelo vento. Duas esculturas representadas por leões seguravam o peso dos raros visitantes. O cimento embranquecido do banco misturava-se com veios sinuosos formados por pequenas rachaduras que deixaram entranhar os restos do tempo. À frente, um velho tanque que antes pulavam meninos afoitos aproveitando-se do frescor trazido pelas sombras. Restos do cotidiano esvoaçavam outros se aprisionavam na grama amarelada. As árvores de raízes alargadas se esvaiam a mercê do desamparo. Mais adiante, moradores que ali pernoitam se amontoavam sob cobertas acinzentadas. A brisa desconsolada rasgava a esperança dos que ali perpetuavam suas mágoas.

Sentadas em um desses bancos  duas mulheres, postas uma ao lado da outra, não se olhavam. O silêncio entrecortava o ar, a espera que alguma palavra o salvasse da exaustão do nada. Vez por outra elas faziam menção de quebrar esse ensurdecido diálogo, mas desistiam. Passaram uma eternidade juntas uma à espera que a outra a fizesse feliz. Uma delas, ainda menina, finalmente indagou:

-O que você fez comigo?

As duas se olharam. Os olhares – inquiridor e conformado – pareceram sem fim. Não saberiam dizer quanto tempo passaram assim, matutando sobre o que as duas fizeram suceder uma à outra. Até que a menina levantou as duas mãos como a reafirmar a pergunta que fizera. A outra se virou novamente para a frente e assim ficou por um tempo. Parecia procurar amenizar a resposta que daria. Então, sem se virar para sua interlocutora, disse:

-Eu perdi o caminho de volta, não conseguia mais te encontrar. Não pude perguntar o que você queria que eu fizesse por nós.

A menina, abaixando as mãos, disse, desalentada:

-Eu sempre estive aqui, esperando ser chamada, entre a espera e o medo.

A outra rebateu:

-Nunca confie no futuro, ele nega tudo que prometeu, castiga quem o sobrecarrega. Nós devíamos ter iniciado uma caminhada sem amanhãs e sem pretérito. Queríamos o conto de fadas, mas ele não existe. Dissimulado, sempre diz ser a felicidade  mas ele é arredio e sempre foge. Precioso, sempre pensa ser mais que nós. E não é, o conto só existe se a gente ao invés de contar, viver; ao invés de esperar, fazer urgir. E você esperou por mim. E eu sou apenas o conto a espera da vida.

A menina cabisbaixa deixou-se derrear no encosto frio da noite. Só conseguia ver a poeira  que teimava em desarranjar a vegetação já morta do chão. A outra a olhou de relance. Também se sentia impassível diante do irremediável. Agora as duas estavam com as mãos postas sobre as pernas. Espalmadas  as mãos  enrijecidas se deixaram ficar. Os corpos agora cada vez mais próximos se protegiam do frio. A noite alongara-se.

Pela manhã, o vento aquietara-se e as folhas iludidas pela umidade da noite jaziam na relva clareada pelas luzes, ainda complacentes, daquela manhã. Os pombos, indiferentes, iam e vinham, com passos desconsolados. Perto do banco um pequeno ajuntamento. Curiosos olhavam uma mulher de meia idade sobre o banco, o corpo enrijecido pela morte. Enquanto algumas desistiam da cena, outras se achegavam, depois tornavam a se afastar da morte. Algumas folhas secas trazidas pela noite haviam assentado sobre a saia da mulher. Os sapatos pendiam dependurados apenas pelos dedos. Os leões impassíveis olhavam os calcanhares arroxeados e frouxos. Os olhos enegrecidos da estátua pareciam se vangloriar da vida. Depois tornavam a si, temerosos de perderem o amigo mais fiel que tiverem nesse longo tempo, o esquecimento.

 

 

 

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