Helena Arcoverde

A perguntadeira

Posted in Conto by helenarcoverde on 31/03/2013

Por Helena Arcoverde

 Indiferente às chacotas, Luzinete caminhava trôpega e faceira pelas ruas com um salto ínfimo, mas visível quando parte do figurino chamativo. Vivaz, não perambulava como os outros, passeava. As andanças soavam planejadas, mas eram interrompidas quadra a quadra. As risadinhas dos interlocutores não pareciam ofendê-la, antes suscitavam leve sorriso. Parava a cada chamado. Depois de alguns minutos de prosa, seguia com passos entortados. Foi assim que nos encontramos em uma dessas ruas do centro. Ela me interceptou com o olhar e eu entortei o corpo em direção à parede.

– Barra ai mulher!

Parei de supetão. Ela nunca havia se dirigido a mim, embora eu sempre a visse conversando com pessoas na rua. Atenta ao espevitamento dela, não a ouvia.  Imaginava o que a teria feito refém dos interlocutores. O diálogo a mantinha. Aprisionada nas ruas, ela me atropelava com perguntas. Cansada de não obter nenhuma respostas, ela se irritou:

-Tu é moca, mulher?

Sem conseguir me desvencilhar, me esforcei para responder. Ela gesticulava ao arrumar uma conversa ininterrupta e descontínua. Saltava de um tema a outro. Novamente fiquei confusa com as palavras que se amontoavam sobre a voz grave e destoante.

-Será que eu ainda caso?

Assenti com a cabeça. Luzinete continuava o discurso,  indiferente à resposta. A boca se mexia sem selecionar os dizeres. Os olhos ávidos pareceram momentaneamente admirar  meu colar, mas logo se desviaram e passaram a observar outras partes do meu corpo. Encolhi-me. Mas ela logo tornou a si. Em silêncio, fui me afastando com o rosto levemente virado para a lateral de meu corpo. Proferi baixinho alguma desculpa para o afastamento. Continuei a caminhar, agora célere, o que não impediu que ouvisse a última pergunta:

Tu é doida?

À noite senti-me ainda aprisionada por aquela eloquência solitária. A rua e Luzinete eram parceiras. A primeira enganada pelo tumulto do dia, fingia desconhecer a loucura da qual era parte; a segunda tinha como serventia mostrar a sanidade do outro. Ambas precisavam das gentes que não as escutavam. Para Luzinete a rua era o fim. A última que ouviria suas perguntas sem nada responder.

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