Helena Arcoverde

Os convidados

Posted in Conto by helenarcoverde on 22/03/2013

 Por Helena Arcoverde, em homenagem ao filho mais novo – Lucas – que, na ocasião dessa produção- há uns três  anos – estava em plena adolescência. 

Um papagaio, cinco amigos e um sítio emprestado.  Os rapazes estavam na sala. Jogavam cartas e ouviam música. Nada incomum para um grupo de jovens. Um deles, Jorge, observou que havia um papagaio no ombro de Zeca. Olhou novamente para certificar-se. As cartas distribuídas em uma das mãos se mantiveram suspensas em meio à frase entrecortada. Ao se recompor da surpresa, ele quis saber de onde viera aquele papagaio.

-Que papagaio? O único que tive morreu há alguns meses.

-Esse que está bem ai em seu ombro.

As jogadas suspensas. Dizem que o riso é reflexo do medo e, neste caso, parece ser verdadeira a afirmativa.   Após o impacto inicial eles se entreolharam e não contiveram o riso. O foco passou a ser histórias mal assombradas, como preferiram chamá-las. A cada uma delas sobrevinham risadas não contidas. Até que um deles instigou Jorge, perguntando:

-Como é, cara, viu mais alguém por aqui?

-Sim, bem perto de ti. Está vendo a gente através da vidraça da janela.

As risadas aumentaram. E Manuel desafiou:

-E então amigos, venham aqui, vamos jogar.

Seguiram-se mais risos. Jorge, ao contrário, não desviou o olhar da janela. Manuel, então, propôs que fossem todos para os arredores da casa procurar mais fantasmas. Jorge, reticente, decidiu ir também, pois ficar ali sozinho não parecia uma boa estratégia. E nem tampouco acompanhar os amigos, mas terminou se decidindo pela aceitação do convite.

O grupo caminhava. Um deles, braços abertos, a abarcar a brisa fria da madrugada. Os outros quatro conversavam e gargalhavam. As árvores altas teimavam com o vento que as entortava para um lado e para o outro. Depois o embate diminuía e o vento era apenas a brisa leve que vivificava as rendas verdes do campo. Sob a luz tímida da noite enluarada, elas mostravam matizes e nuances que variavam conforme a incidência e a imaginação.

Os garotos, menos eufóricos, pareciam aproveitar a caminhada. O vento roçava os rostos e alguns deles por instantes fechavam os olhos para aproveitar mais as rufadas da natureza. Lá adiante uma porteira despertou a atenção dos garotos. Dividia um espaço mais amplo de outro mais doméstico. Para lá se dirigiram despreocupadamente. Conversavam não mais sobre narrativas de assombração que tanto os divertiram, mas sobre assuntos diversos.

Alguns passos mais atrás, Jorge estanca tão fortemente que os amigos esperaram-no para seguirem juntos. De frente para a porteira, Jorge tem os olhos arregalados, a boca entreaberta, os braços rentes ao corpo e as mãos agarradas no tecido compacto da calça. Os amigos com os corpos entortados para trás voltaram-se novamente para frente e, depois, para Jorge, sem entenderem tanta perplexidade.

Jorge ensaia algumas passadas para trás e continua com o olhar fixo na a sua dianteira. Passados alguns instantes um deles percebeu que ele vira algo que o assustara. Um deles, mais próximo de Jorge, indagou: outro papagaio? Jorge, com os músculos da face retesados respondeu, sem olhar para o interlocutor, descreve a cena com voz minúscula e movimento de lábios quase imperceptíveis:

-alguns metros antes da porteira dezenas de criaturas, todas de preto, dirigem-se vagarosamente para nós, como se nos enfrentassem. Estão todos impassíveis, e os olham sem se fixar exatamente em nenhum ponto. Os passos não parecem ter pressa, sincronizados e decididos. Não parecem interessados em nenhum de nós em especial, mas em todos ou, melhor, na entrada.

Jorge caminhava entre outros dois. A proximidade era tanta que os braços dos amigos pareciam imprensar os seus.  Ele baixa ainda mais o tom da voz e somente os garotos mais próximos conseguem ouvir o que passa a dizer:

-eles são muitos e parecem ter esperado há séculos por esse momento – um convite.

Os garotos, após alguns instantes sob impacto, logo desdenharam:

-cara, vamos lá, não dê atenção a eles, passamos e pronto, são guardiãs da floresta, é tudo imaginação. Vamos, cara, senão voltará sozinho, ai é pior.

Jorge caminha na direção dos espectros, como eram chamados pelos garotos, como se marchasse em direção ao precipício. Faria de conta que nem percebera a presença deles. Quando estavam mais próximos da porteira, surge outro, de branco, destoando dos demais, este os encarava e Jorge, sem saber o motivo, o temeu. Então segurou bruscamente no braço dos amigos que caminhavam em suas laterais e gritou para o amigo que, destemido, ia à frente:

-fecha a porteira, rápido.

O amigo assim o fez e todos voltaram céleres na direção da casa. Já perto, pararam e viraram-se, temendo que tivessem companhia. Os cinco deram as costas para o caminho que os levaria a casa e olharam ansiosos, em direção a porteira, agora um pouco mais longe. A luz do luar invadia todos os recantos do sítio, prateando-os com medo e coragem. Foi então que Jorge contou para os colegas o que via mais adiante:

-Estão todos ordenados, no meio, à frente, está o de branco. Ao trancar o portão interrompemos o convite que vocês haviam feito a eles. Sairemos amanhã pelo atalho, eles ainda estarão na outra entrada, esperando a abertura novamente da porteira ou uma nova permissão.

Entraram na casa. Exaustos com o enfrentamento, eles se jogaram nos acolchoados da sala. Dormiriam ali mesmo, era mais seguro de que o próprio dormitório. Pelo menos na sala já sabiam o que esperar. Jorge se acomodara em uma cadeira confortável, preferia estar assim de sobreaviso. O ambiente pareceu estar sossegado. Todos dormiam. Jorge, mais calmo, passou o olhar detidamente pela sala como se fizesse um memorial do que ocorrera nas últimas horas quando seu corpo mudou de posição como se abruptamente endireitasse a coluna anteriormente entortada. A expressão cerrara-se, olhava para o piso marmóreo: bichos se esgueiravam pela sala em todas as direções, indiferentes aos que ali estivesses. Jorge recostou-se novamente e cerrou os olhos com força, aos poucos relaxou as pálpebras quando o sono foi mais forte que o medo.

Dia seguinte um dos empregados do sítio veio conduzir os garotos pelo atalho. Já lá adiante, ainda poderiam avistar a porteira. Eles, silenciosos, se entreolharam. Jorge, então sinalizou levemente com a mão e de forma imperceptível para o guia que ainda estavam todos lá, à espera.

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