Helena Arcoverde

aniversário

Posted in Poesia by helenarcoverde on 17/09/2016

 

by helena arcoverde

quero um aniversário e tanto

que me jogue no meio da rua

a banhar de roupa e tudo

nos dias torrenciais

me provoque gargalhadas

a correr desembestada

cantarolando bobagens

quero apagar somente uma vela

e ordenar ao tempo: se aquiete, seu moço

chega de fazer besteira

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Posted in Poesia by helenarcoverde on 24/05/2016

nan ilust

Crédito fotografia: Nane

Crédito texto: Helena Arcoverde

ando pirilampeando
no asfalto remendado
não sou ninguém
na rua qualquer
nela, toda flor é rosa
toda dor é morta

A esmo

Posted in Poesia by helenarcoverde on 24/05/2016

albi

Imagem: desenho (editado) Albert Carvalho

Fotografia: Helena Arcoverde

ando a esmo

o poema pulala

e eu o detenho

até o final da rua

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o asfalto

Posted in Poesia by helenarcoverde on 20/03/2016

Por Helena Arcoverde

 

o asfalto chegara

a rua exultava
temerosa dos raspões
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Já publicado: O casamento

Posted in Conto by helenarcoverde on 22/05/2015

Foto1079

Fotografia: acervo pessoal

Por Helena Arcoverde

O tailleur era azul claro. Mas havia naquela composição um tom sepulcral que até hoje é difícil definir. É como se beirasse ao marinho, embora não fosse. O sapato era sóbrio, fechado e o salto era mais discreto do que os que ela normalmente usaria. As pernas levemente roliças estavam envoltas em uma meia em que a costura dividia a batata da perna ao meio. Ela não olhou as meninas. Agia como se as evitasse.  Respirava pesarosa. Depois ela caminhara para o hotelzinho. E lá ficaria até arranchar-se em uma casa. Levaria de início uma vida mais simples. Sem o conforto a que se acostumara, mas que nunca a conquistara. Ela só queria o conto, embora tivesse sido criada para dele escapar. Quanto mais era estimulada a fugir dele, mas ficara fascinada pelo que nunca vira em casa. Tão bem criada tão malfadada, dizia a mãe quando se certificara de que a filha se afastaria do ensinado. O hotelzinho era próximo, iria caminhando mesmo. Dera as costas para a casa e não se voltou nem uma vez. Sempre apreciara contrastes. E desta feita conseguira. Os vultos, agora mais distantes –  eram pequenos. Os tons azulados eram quase violeta. Os sapatos marrons não mais se distinguiam e nem mais as pernas quase cobertas pelo linho violeta. A tarde se fora e os sinos da igreja bradavam, indiferentes àquele desfecho para as meninas cada vez mais singular. Não cabiam naquele episódio. Contemplavam o impacto. A roupa acinzentada se aproximava da calçada alisada com cuidado. As meninas se aproximaram do meio-fio. Ela se distanciava em diagonal. Não houve despedida. Ela dobrara a esquina, não poderiam mais vê-la. Não se voltara nem na dobra. Mas elas poderiam sentir o amargor da hóspede. Em um dos dias que se seguiram elas passaram nas imediações, não entraram. Havia algo de pecado naquele espaço.  Na frente, um pátio. Elas o olharam sem se deter. Passaram por acaso, acompanhadas por um dos adultos da casa. Ela deixara as sessões de leitura, as reflexões sobre as narrativas lidas em voz alta por outra ordem em que não haveria nenhum comentário sobre as sutilezas dos tons, sobre o reordenamento das nuvens. Por algum tempo ela conservara a roupa do casamento. Criada entre os símbolos aprendera a se desfazer de todos. Quando saíra do hotelzinho fora para uma casa com um quarto. Lá também havia um pátio, sem árvore. O interior da casa era sombrio e a engomadeira mal podia se mexer no espaço que antecedia o quintal. Uma caixa de água servia a duas casas e nesse espaço havia mais conversas sobre o cotidiano pelo qual optara. Décadas e as meninas ainda não conseguem saber com precisão como um tom de azul se transformara em violeta. O cabelo era preso com grampos grandes escondidos sob o cabelo. Os braços finos. Um bracelete de ouro pinçado de desenhos azuis os ornava. Uma aliança também de ouro fazia par com outra com uma carreira de pérolas. As unhas sem pintura. Um pequeno colar de mais pérolas enfileiradas enfeitava o pescoço magro e encompridado. O rosto sem maçãs salientes não ria. Uma carteira se mexia frouxa entre o braço e a lateral do corpo vestido de azul natier. Ela se fora pela calçada oposta a casa. E as meninas na calçada de cá olhavam a mãe na calçada de lá. Até que ela desapareceu ao entardecer. Os sinos ainda tocavam. Mas elas não o atenderam. O tailleur possuía um broche preso por alfinete escondido por baixo da gola. A blusa sob o casaco era de seda e aperolada. Um único botão prendia a abertura da blusa, nas costas. O casaco do tailleur findava pouco depois do cós da saia. Uma brisa quente tentava, inutilmente, movimentar a saia ajustada ao corpo que desaparecia entre as manchas da noite. Os sapatos das meninas se equilibravam na borda afiada do meio fio.