Helena Arcoverde

O ônibus

Posted in Conto by helenarcoverde on 27/06/2013

O ônibus

O ônibus trepidava, mas ela parecia não sentir. Nada balançava no corpo magro. Os objetos se sacudiam e tornavam a se acomodar. Na segunda fila, ela admirava-se da sorte de ninguém ter tomado o assento ao lado. O motorista parecia compreender mais do que o momento exigia. Vez por outra olhava pelo retrovisor como se pudesse ler não somente os pensamentos dos passageiros como saber mais do que eles sobre as vidas que não lhe pertenciam. Elza começou a se incomodar com aquilo que considerou petulância. Procurou não olhar mais na direção do motorista, embora soubesse que vez por outra o faria. E quando isso era inevitável ele respondia ao olhar com sarcasmo. Ao lado uma mulher  procurava ajustar-se à largura do banco. Temendo ser vista, Elza mudou a direção do rosto, mas voltou-o repentinamente após observar que o braço direito dela parecia machucado. Gases sujas pareciam soltar-se por conta dos solavancos. Elza pensava em toda a estranheza da situação quando o motorista anunciou uma interrupção na viagem. O ônibus acostou e a mulher, depois de retorcer-se por alguns minutos levantou-se do banco. O vestido era folgado, tinha rasgos em uma das laterais. Cambaleante conseguiu sair do ônibus que parara em uma casa. A mulher entrou. Os passageiros pareciam conformados com a espera. Elza observou que o motorista conservava o mesmo ar debochador e batucava com a ponta dos dedos no círculo escuro da direção. Ela não soube precisar o tempo que permaneceram naquela concessão incomum.  Finalmente avistou a mulher. Ela chorava. Havia movimento na casa, mas ninguém veio acompanhá-la até a porta. Da mesma forma que ela saiu, entrou. Trôpega  ela estava cabisbaixa e mais abatida do que antes. A viagem recomeçou. Entre uma manobrada e outra o motorista ainda batucava. Elza dormira e quando se deu conta o ônibus estava novamente parado na frente de mais uma casa. Ela observou pela janela e desta vez os detalhes eram mais visíveis. A casa parecia abandonada. Tábuas entrecruzadas foram fixadas na porta de entrada e na única janela. Um homem  estava parado na frente observando o imóvel. Assim ficou por alguns minutos. Ela observava a cena cada vez mais constrangida. Fizera aquela viagem para encontrar com alguns  amigos e certamente perderia o encontro se aquela situação perdurasse. O homem, finalmente voltou. Circunspecto, dirigiu-se a algum assento depois do dela. A viagem continuou por um tempo não contável. Até que o ônibus diminuiu a velocidade ao aproximar-se de um acidente que provavelmente ocorrera  há alguns dias. Um ônibus e um carro de passeio compunham o cenário. Muito entulho, algumas velas e flores. Todos os rostos se viraram a um só tempo. Apenas o de Elza ateve-se aos demais passageiros. Todos se entreolharam. Depois das interrupções, o ritmo da viagem parecia normalizado. Elza sentia-se torpe e , quando se deu conta, alguém pareceu cutucá-la. Assustada, arregalou os olhos e compôs-se. Agora todos a olhavam. O motorista, de pé, em sua frente, apertou-se entre no espaço do banco da primeira fila como a dar passagem a Elza. Ela levantou-se e caminhou como o fizeram os outros, até a saída. Desceu, relutante, os dois degraus da escada e só então percebeu que o ônibus estacionara em frente a sua casa. Olhou para trás interrogativamente e o motorista, agora com ar de compaixão, assentiu com a cabeça para que continuasse. A moça continuou a caminhar em direção a casa. Logo na entrada encontrou os moradores que não a cumprimentaram. Intrigada, ela seguiu para o interior da casa. Ninguém a cumprimentava. Certamente estavam zangados pela viagem. Dirigiu-se até o quarto da mãe e a encontrou deitada, chorando. Abraçou-a e ela nem ao menos a olhou. Demorou ali até que a mãe adormecesse. Depois voltou sem que ninguém a percebesse. Tomou novamente o ônibus e partiu.

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Carlota

Posted in Conto by helenarcoverde on 04/02/2013

A viagem se aproximara e ela a temia. Desalento pelo não vivido se interpunha entre ela e o acabado. A chuva perdera o fascínio, as compras pareciam despropositadas e o diálogo  inoportuno. Escondera-se do tempo, mas ele a achara. […] Carlota chorava o tempo que se esgotara impedindo-a de festejar, como os demais, as graças da nova estação. Não arregalaria mais os olhos ante as compotas de doce, o dinheiro ganho e não previsto. Estava imune ao desejo e aos mimos que se fazia em nome dele. Não comprara – como seus antepassados – a mortalha.Nem a lilás. Pouco importavam os panos que a cobririam. Eles sobreviveriam a suas carnes desalentadas. O dia não tardou nadinha. Sobre ela choraram os arrependidos, os devedores e até os que se regozijaram ante seu corpo sem reservas. Sem mais quereres, jazia, entre flores sem odores e frases ordinárias. Odiaria lê-las, mas isso também já não importava. Amor e desamor se misturavam às poucas rezas recebidas. Os que a amavam não proferiram nenhum pedaço do terço. Ela não os ensinara. Lá fora os pássaros saltitavam nos galhos apodrecidos. Bicavam migalhas enquanto ticavam, sem sossego, aqui e ali. Olhavam uns aos outros sem se enxergarem e cantarolavam a alma vã de Carlota que, se pudesse vê-los teria na cena seu único consolo. Depois voaram, desalentados com mais uma que se fora sem degustar as bicadas doces do caquizeiro.

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