Helena Arcoverde

Os vultos

Posted in Conto by helenarcoverde on 31/10/2009

Helena Arcoverde
Os vultos surgem impunes. Eles não falam. Mas são conhecidos. Passeiam entre as velhas ruas de paralelepípedo e calçadas quebradas. Ali está a avó, roupa larga, sem nenhuma alusão a qualquer curva, pequena pala que esconde os seios brancos e caídos. No terraço, ela gesticula, olhar acima dos óculos, comanda seu mundo de alguns metros quadrados e um quintal, com galinheiro sem galinhas. Os poleiros as esperam, mas elas estão mortas, uma a uma. Na outra área, os jabotis que nada sabem, estão lá, perto do tanque que, antes, era grande. Ao lado, o “quartinho” ainda mantém os mesmos raios que penetravam por três círculos postos no alto; a iluminação que vem do telhado sem laje ainda persiste. Os biscoitos, na lata de querosene, ainda são de goma. E, inatingíveis. Do outro lado, um rego exposto divide um imprensado jardim do corredor que dá acesso à segunda saída. Nele, as janelas alquebradas permitem uma outra visão do interior da casa. Fecho os olhos, mas os vultos não desaparecem. Os cenários estão intactos. Na grande copa, sacos limpos e encardidos coam a cajuína. Coloco, sorrateiramente, o copo, roubando, da gamela, um pouco do líquido. A avó, que nada perde, lança um olhar de reprovação. Saio. Lá fora, as latas deitadas e tampos cortados, cozinham garrafas enfileiradas. Estão sob um potente, e rústico, fogareiro. Dentro das garrafas, o líquido transparente muda de cor e eu espero, em vão, a garrafa ser aberta. O avô, como de costume, lê no terraço. Está sem camisa e o pijama é sempre azul. Ele a ama, apesar das cobranças. Ele ama a beleza que ela esconde, sua intensidade; ama o que não se permite dizer, o que não se permite ser. Eu passo, em silêncio, no estreito jardim. Vejo-os através dos desenhos em concreto que separam meu jardim do terraço. Saio rápido. Certamente dias depois voltarei. Também sou um deles. Sou um vulto, prisioneiro dessa cidade sem falas. Uma cidade feita de imagens que me aprisionam. Ou são aprisionadas, quem sabe. Uma cidade, intacta, que não envelheceu. Um dia, ela desaparecerá, quando eu também me for. Então, serei vulto em outra cidade aprisionada na memória dos que me amam.

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A lavadeira, a menina e o rio

Posted in Conto by helenarcoverde on 30/10/2009

Helena Arcoverde
O sabão gasto e fosco. Agachadas, saias entre as pernas, elas lavavam os molambos como se fossem novos. Depois os esfregavam na pedra esbranquiçada, alternando esse gesto com pequenas molhadelas, nas pontas, ora de um lado, ora de outro do tecido. A alguns metros, panos ensaboados e esfregados esperavam pelos raios para se tornarem mais brancos. Mergulhados na água, as peças desafiavam, majestosas e dançantes, a correnteza. As mulheres pareciam não pensar, repetiam o movimento com automatismo e zelo. Depois do ritual, os panos eram torcidos. Se grandes, tais como redes ou lençóis, a tarefa era coletiva; se pequenos ou íntimos, a labuta era individual. Depois, eram torcidos e arrumados cuidadosamente na bacia de alumínio. Uma a uma, elas faziam coques no cabelo e sobre este punham uma rodilha para amenizar o peso da bacia e acomodá-la melhor na cabeça. Algumas delas, antes desse ritual, tomavam um rápido banho, outras, davam as costas para a água pondo suas mãos franzidas e foscas para auxiliar na subida de seus utensílios areados e reluzentes. Poucas voltavam seus olhos para a água. Amanhã estariam de volta com outros trapos tão gastos como os de hoje. A menina aprendiz olha a cena. Logo seria uma daquelas muitas mulheres e então contaria ao rio, sem ser ouvida, suas mágoas, e, nesse meio tempo, também não o veria mais. Agora, ela ainda o via com interesse. Por isso, voltou sua cabeça, pelo menos uma vez, para se despedir de suas águas volúveis. Sua pele ainda não estava curtida de sol e seus olhos ainda fixavam o outro com interesse, ainda se movimentavam em busca do mundo. As mulheres, indiferentes ao rio e à menina, caminhavam em direção a suas vidas. Os semblantes eram fechados e nunca olhavam para os lados. Iam, conformadas, cumprir seu ritual de marasmo e amargura. Esperariam seus maridos taciturnos, que não lhes lançariam nenhum olhar, nem para amar, nem para cobrar. Em casa, acenderiam os fogareiros, a chaleira para o café. Os homens continuariam a picar o fumo. À noite, quem sabe, se importariam um pouco com elas, enquanto durasse o desejo. Amanhã, elas estariam novamente no rio, a alvejar os panos cerzidos, mas úteis. Continuariam, assim, seu embate, sem palavras, com as águas e com a vida.

Vida e morte: de protagonista a figurante

Posted in Reportagem by helenarcoverde on 29/10/2009

Helena Arcoverde

Seja encarada sob a égide do terror, da resignação, da inevitabilidade, a visão que os homens têm da morte foi alterada através dos tempos, porém, sentimentos tais como o medo continuam a acompanhar a espécie humana, refletindo, antes de tudo, o temor diante do desconhecido.

Cantada em prosa e verso, ora temida, ora respeitada. Outras vezes, um tema adiado, medo escondido atrás do riso ou do desdém. Esses são alguns dos efeitos produzidos por um processo comum a todos os homens: a morte. As explicações sobre a “indesejada das gentes ”, como diria o poeta Bandeira, divergem de acordo com as crenças religiosas, referenciais culturais e até em função da forma como se lida com o desconhecido. Assunto recorrente na literatura, ela foi a motivação da personagem Sherazade, uma contadora de história em As Mil e Uma Noites, para driblar a morte com suas intermináveis narrativas. Coletivamente, era um dos temas comuns aos escritores românticos que a viam como uma forma de escapar de um real do qual não queriam fazer parte. Seja vista como uma forma de igualar as pessoas, como querem alguns, um processo inevitável ou apenas uma passagem como defendem os seguidores de determinadas doutrinas, um ato erótico, como propõe Georges Bataille, em O Erotismo, o tema continua a fazer parte da vida da sociedade, dos discursos e estudos, das rodas de conversas, da história individual de cada um, afinal, é um processo inerente à vida humana. A morte é um problema para os vivos, diz Norbert Elias . Segundo ele, entre as criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema apenas para os seres humanos, capazes de prever o seu próprio fim, o que não ocorre com os animais, que não possuem a consciência da morte. Depois de Darwin, afirma Becker , o problema da morte como fato evolutivo ficou em evidência. Os estudiosos, segundo esse autor, “viram ser ela um grande problema psicológico para os homens”. Segundo esse autor, “de todas as coisas que impelem o homem, uma das principais é o seu terror da morte”.

Apenas figurantes
Para aqueles que sobrevivem aos seus, restará uma dificuldade em compartilhar códigos e relatos de vida em comum? Envelhecer, aproximar-se da morte, seria como viver em um mundo sem referenciais, sem identidade, apenas figurantes em um filme que não é seu? Para Raul Erhardt, contador, 79, a morte “é um alívio quando as pessoas com as quais passamos boa parte de nossas vidas desaparecem”. Para ele, “a morte é também uma forma de igualar as pessoas, de mostrar que ela vem para todos, sem as exceções que os homens fazem na Terra”. Para Delma Maskow, funcionária pública, morte é o término de uma vida na Terra. Depois dessa etapa, diz ela, “teremos que nos acertar com Deus, havendo uma continuação num outro patamar. A visão de morte muda muito, em face dos filhos, diz. “Eu tinha medo de morrer e deixá-los à deriva, achando que ainda precisariam muito de mim. Hoje, não penso mais dessa forma, e não tenho medo de morrer, pois acho que é algo natural, ocorre com qualquer um de nós. Para ela, “o dia da partida” já está previsto”.

A velhice: a sensação de proximidade com a morte
De personagem principal a figurante, muitos sentem perder a autonomia ao aproximar-se da velhice ou da morte. De protagonista de sua própria história a figurante na história alheia, alguns idosos admitem a solidão, mesmo aqueles que moram com a família. Essa questão tende a ter mais visibilidade na sociedade atual uma vez que o número de idosos aumenta tanto no país como em termos mundiais. Segundo dados do IBGE, a estimativa é de que o percentual de idosos no Brasil atinja 9,2 em 2010. Ainda de acordo com esse Instituto, a população idosa do Brasil poderá ultrapassar, nos próximos 20 anos, os 30 milhões de pessoas e dados que representarão 13% da população ao final deste período. Em 2050, projeta esse órgão, a população de idosos somará um quinto da população mundial.
Além do surgimento de algumas dificuldades físicas, diz Carmem Santos, funcionária pública, 46, a sensação é de que a morte está mais próxima. Para ela, a prevenção de doenças é um dos caminhos mais viáveis para se ter mais autonomia na velhice e até para temer menos a morte. “De nada adianta vivermos pensando na morte e nem na velhice, são processos sobre os quais os homens não têm controle. A velhice é uma aproximação com a morte, isso é inegável, é a lei natural da espécie humana e nada podemos fazer contra as coisas inevitáveis, é buscar viver com qualidade enquanto estivermos vivos”, diz ela.
Indesejada, inevitável, desconhecida, a morte está ligada ao irremediável. Quem sabe por isso, muitos evitem nomeá-la, dando preferência a suavizar seu impacto usando expressões mais leves, o chamado eufemismo. A cultura popular há muito descobriu nesse tema uma forma de espantar seus medos. “Eu juro com esses olhos que a terra há de comer”, diria o homem simples, referendo-se a ela de forma sutil, quase desapercebidamente, quem sabe para não ser lembrado. Diz a lenda que um homem, ao saber que a morte o procurava, resolveu raspar a cabeça. No dia e hora marcados, dirigiu-se a uma festa. A morte, como não encontrou a pessoa a quem procurava, resolveu levar outro no lugar. Vou levar qualquer um, pode ser aquele ali de cabeça raspada, disse a morte, apontando para o homem que raspara a cabeça para despistar a morte.

Flor morta

Posted in Conto by helenarcoverde on 15/10/2009

Não se mede o amor. Nunca se sabe o tamanho dele, até que ele se instale e, só então, mostre-se por inteiro. Assim foi com ela. Sinto saudade do inaceitável, do olhar cheio de adjetivos mesmo que a ele não coubesse nenhum deles, do cheiro que eu não conseguia sentir. Ainda choro por ela, em que pese o tempo. Nunca soube se me amava, mas que importa isso? O amor é construído pelo que as pessoas despertam em nós. Ele não habitava nela, mas em mim. O simbólico o nutre? Ou, quem sabe, o papel que ela representa culturalmente? Nenhuma resposta me separaria desse sentimento de impossibilidade. Ela é isso. E sou feita disso. Não importa do que esse amor é formado, se conseguiu chegar tão perto de mim é porque é além do eu supunha. O doar é incompatível com a obrigatoriedade. Eu me vejo nela, quando falho. E, então, vejo quem sou. Hoje eu a compreendo, mas ainda não a aceito. Mas a amo. Sem justificativa. Ela se foi, mas os impasses ficaram. Dentro e fora de mim. Nas relações que se formaram a partir das tessituras inacabadas. Os fios ficaram soltos, nenhum sentimento os juntou. Estes se perderam, é tarde demais para reuni-los, embora em alguns deles ainda possa haver uma emoção ou outra. Mas elas não são suficientes para reconstruir o que nunca existiu. Aceito esse amor que ela, talvez sem o querer, me deu. Ou, quem sabe, apenas me deixou ficar porque ninguém mais o queria.