Helena Arcoverde

Crônica de natal

Posted in Crônica by helenarcoverde on 28/11/2014

bebe lulu natal1

Acervo pessoal

Por Helena Arcoverde

O vão de entrada era quase uma sala. Ao final uma árvore mediana, poucos dias antes do Natal. A montagem era anunciada e as crianças esperavam ansiosas pelo dia 19. A meia quadra, na outra casa, o anúncio era sempre com antecedência e ele reunia apenas duas crianças, embora as outras também o aguardassem. A árvore de natal das duas crianças era um prenúncio da felicidade incomum. A mãe ressurgia nas datas comemorativas. No Natal, no entanto, os preparativos eram especiais e assim os foram até o fim. O tempo-exceção findara a ausência e todos os dias ela chegava do trabalho com uma sacola cheia, trançada por fios vermelhos. Os enfeites eram quase grandes e a ponteira fincada no alto raramente era substituída  Papeis celofanes com pontas arrematadas com um laço guardavam castanhas açucaradas que às vezes se misturavam a outros doces, embora elas sempre predominassem. Depois os embrulhinhos eram distribuídos para as crianças das duas casas. Os presentes variavam de bonecas a caixotes de madeira contendo garrafas pequenas de refrigerante, naqueles idos raros. As meninas sabiam desde cedo da impossibilidade da existência do trazedor de presentes mas preferiam não pensar nesse fato, aproveitariam a felicidade plena. As outras mulheres da casa sairiam de cena, aquela era a época da mãe e, neste período, ela não admitia substituições. O rememorar desses dias provavelmente estarão entre os últimos a morrerem. Eu observava os enfeites das casas da rua qualquer enquanto relembrava esses idos. As ornamentações foram rareando com o tempo e , neste ano, não teria nenhuma na casa. Há uma década elas se resumiam a um adereço na porta talvez para não ser esta a única do prédio sem anúncio da festa. Observava em algumas das casas os enfeites reaproveitados. Em uma delas, uma árvore de copa arredondada, tronco ínfimo, faceira ante luzes também arredondadas com pinturas descascadas. A dona da casa esguichava água de uma velha mangueira nos filhos. Não viam quem passava na calçada, estavam concentrados na felicidade que antecede o natal. Eu quase parei não fora esse tipo de curiosidade um comportamento inapropriado. Assim mesmo entortava o corpo para trás quase por inteiro enquanto caminhava rumo à casa sem enfeite. Talvez eu preferisse ser mãe o ano inteiro, mas também nunca houvera sido. Reservara um arquivo com receitas para a comemoração, mas sabia que nunca as faria. O natal acabara e eu nem precisara anunciar. As crianças já sabiam. A esperança cessara e todos em casa resolveram negar essas datas. Continuei a observar a fachada das casas enquanto pensei que se eu pudesse alterar a sequência de fatos me vestiria de Noel para os filhos. Mas o tempo – sempre a advertir o arrependimento – me impediria. Ele impossibilita a reordenação e transfigura o que mais se ama. Se assim não fosse, correria contra ele, faria brigadeiros após uma árdua jornada, compraria os presentes ansiados e nunca dados, sanaria com beijos pequenos deslizes, exageraria mais ante uma flor trazida da escola, estenderia a felicidade e cuidaria para que não se quebrasse. Continuei a caminhar até não enxergar mais a mulher jorrando alegria. Dobrei a esquina. Parei em frente a uma venda e comprei um enfeite que nunca ornaria nenhuma porta. No natal eu esperaria os pacotinhos de castanhas açucaradas que eu nunca aprendi a fazer. O elo de pertencimento estaria – por momentos – reforçado. Ela arrumaria os saquinhos sobre a mesa e entre uma arrumação e outra me consultaria com o olhar. E, sem mais objeções, eu assentiria. E este seria o melhor natal de todos, aquele que até hoje eu não consigo aceitar que perdi.

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O mito está doente

Posted in Crônica by helenarcoverde on 28/11/2014

pele pinheiro

Crédito: Helena Arcoverde

Por Helena Arcoverde

O mito sucumbe à dor. Fraqueja em sua trajetória de herói. Abomina o sofrimento embora saiba que o herói – mesmo os mais destemidos – não estão imunes às vicissitudes. E nosso “gênio domado” está doente. Nem Campbell imaginaria tamanha façanha do destino: Sim, Pelé está doente. Talvez o gênio esteja triste. E eu que pensei que esta dor só se abrigasse no coração dos mortais. Estava enganada, pois as dores da alma perscrutam – ingratamente – o corpo que as abriga e depois se instalam. E, nem os deuses dão conta da dor. Ela se transfigura e “ao fim ela reacenderá destrutiva e amena como toda dor”.

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O auditório

Posted in Conto by helenarcoverde on 24/11/2014

flor e borboleta

Crédito: Helena Arcoverde

Por Helena Arcoverde

Os dois lados do decote findavam, no colo,  com um laço do mesmo tecido. A textura tinha fios prata, que desdizia o preto fosco do restante do tecido. O cabelo preso em um coque. Os grampos se escondiam. Na peça contigua, a outra moça usava uma saia franzida, com pregas presas por um cós endurecido pelo gorgorão. O perfume custara pouco. Na rua detrás duas bicicletas as esperavam. Deles só se sabia o nome dito sempre em meio à algazarra do após almoço.

Um dia duas bicicletas esperavam uma delas em esquinas diferentes. Confiante que um deles faltaria ao encontro, arriscou. A dona da casa se espantou com a presença dela em casa.

Elas nunca subiam na garupa. Viviam arrumadas demais para isso. Iam todos a pé e eles a empurrar as bicicletas lustradas possivelmente para os encontros. A maioria das ruas era forrada com paralelepípedos. Os saltos dos sapatos se desviavam das emendas entre as pedras. Os retângulos não luziam amofinados pela mistura das sombras e da iluminação tênue.

A noite não amedrontava naquelas épocas. O acompanhante as protegeria das cantadas, mas não dos olhares atrevidos. Algumas quadras depois, após guardarem os veículos, se enfileiravam na porta do auditório.

Estavam felizes. Lá dentro alguém traduziria sentimentos, o amor não correspondido, os desmandos que as tornavam frágeis lá fora. Não fumavam e a bebida era nenhuma. Só os homens – após escaparem para o banheiro- vinham com cheiro de álcool, logo dizimado pelas balas que traziam.

A abertura da porta principal fazia com que todos se voltassem. As cadeiras eram de madeira e os elogios do apresentador eram rápidos. O cantor adentrava e elas eram discretas ao suspirar. Enquanto ouviam os lamentos dos que amam sem serem correspondidos, elas lançavam olhadelas para os namorados. Em que pese o embevecimento, não eram românticas, mas apreciavam comparecer aqueles pequenos auditórios para, como diziam, “lavar a alma”.

Ao retornarem, elas vinham juntas e troçavam dos acompanhantes. Da esquina eles as protegiam com os olhares. A calçada dava sossego aos saltos. Ao dormirem sonhariam com as canções e parceiros que nem sempre eram os acompanhantes.

Moça da Sete (excerto)

Posted in Poesia, Uncategorized by helenarcoverde on 13/11/2014

[…]

Sou fuga e raro reencontro

Sou lampejo que se esvai

Sou da cidade dos sois

na qual perambulo

pelos rios sem dono

nas noites sem sono

Bem perto da Sete.

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Chute acanhado

Posted in Conto by helenarcoverde on 12/11/2014

ponte

Crédito: Helena Arcoverde

Por Helena Arcoverde

O garoto está sentado na segunda fila. Os pés ardem sobre a película fina do tênis. Para aliviar a ardência suspende sorrateiramente os calcanhares do solado. O lápis, borracha e livros doados estão sobre a mesa. Olha as capas e imagina-se naquela imagem lustrosa. Desliza os dedos sobre a lisura do papel.  A boca da professora se remexe. Concentra-se nesse movimento. Retorna ao derredor. Os colegas se desafiam às escondidas.  No intervalo, os olhos alcançam a movimentação no prédio em frente. Com dificuldade balbucia o letreiro. Entorta o pescoço, abismado. Observa novamente os dizeres da faixa. A bola rola até seus pés e é devolvida com um chute acanhado. Agacha-se e ajeita o calçado decomposto. Em seguida, acompanha a trajetória imprevisível da bola. Ao final do turno ele volta para casa. Retira o calçado. Intacto, o tecido que envolve o tornozelo contrasta com o restante da meia. Mostra aos pais os livros ganhos. Eles e o menino passam as páginas até desistirem.