Helena Arcoverde

O castigo

Posted in Conto by helenarcoverde on 13/04/2014

Por Helena Arcoverde

Antes de conhecê-los já tinha conhecimento das peraltices a eles atribuídas. Nunca entenderia, com o passar do tempo, esse estigma. Eram dóceis e conformados – pareciam não se importar com a forma como eram tratados. Mesmo atenta, nunca os vira dizer nenhum impropério que justificasse tal fama.

Os maus tratos também ficaram famosos, mas tudo aquilo parecia irreal, nunca houvera presenciado nada que confirmasse a suspeita de todos. O casal que os criava era amável embora apresentasse um semblante mais reservado quando os meninos eram o centro das conversas. A mulher – Marilda – era  magra, cabelos levemente ondulados e os olhos impregnados de muito mistério; o homem de pouca estatura, cabelos mantidos pouco abaixo das orelhas, nunca encarava seu interlocutor, mesmo que este fosse uma das crianças que frequentavam sua casa.

Era comum ver os meninos encerando a casa, um arrastando o outro sobre o pano para lustrar o velho taco de madeira alterado pelo tempo. Nessas ocasiões eles riam muito e pareciam acostumados a transformar a aridez do trabalho em lazer. Os dois davam olhadelas aborrecidas embora a isso seguisse uma risadinha forçada sob medida para não espantar as visitas.

Vez por outra ia na casa deles acompanhada de um dos adultos que tinham pelo casal grande apreço. Em um desses dias fomos a casa, seria uma visita rápida para pedir o endereço de uma costureira. Não éramos esperados naquele momento. Entramos na sala e no espaço seguinte – uma espécie de copa geralmente usada como uma segunda sala – havia dois armadores, no lugar das redes duas pequenas cadeiras penduradas e em cima delas os dois meninos, as cabeças achatadas contra o teto.

Eles não sorriam mais. Os rostos molhados mais pela vergonha menos pelo maus tratos rotineiros. Com uma desculpa saímos rapidamente. Também estávamos envergonhados de não conseguir evitar aquela cena. Ali ficariam o dia todo, segundo relatos.

Rareamos as visitas até cessarem de vez. Um dia vi um deles – o mais velho – com o mesmo riso escondedor. Eu fiz de conta que acreditei na larguidão do sorriso. Nunca mais o vi. Vez por outra, em dias de rememoração, os vejo ziguezagueando em cima dos panos bem alvos pela sala escura e lustrosa. Retribuo o sorriso dos meninos que aprenderam a simular a alegria mesmo sem nunca a terem encontrado.

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