Helena Arcoverde

A passagem

Posted in Conto by helenarcoverde on 31/10/2014

flor vermelha mior rosa linda atras da tela

Crédito: Helena Arcoverde

Por Helena Arcoverde

Caminhava tão lentamente. Da calçada, todos da casa esperavam sua passagem. Era faceira e discreta. A saia acinzentada ajustada ao corpo escondia-o. A blusa de seda se debatia morosamente contra o vento amornador. Além da rua, não desmanchara o sorriso, ciente do efeito que causara. Os passos amiudados vez por outra pareciam alongados. Um dia ela nunca mais desceu a rua. Não tinha todo o tempo que seu caminhar previra. Não naquelas bandas. Nunca soube se sentira falta dos olhares que a reverenciavam todas as tardes, do prescindir de palavras ante a solicitude que despertava. O instante a levara. Nem uma vez desceria novamente aquela rua. A brisa quente ainda espera se resvalar pelo seu corpo alvo e magro. Depois dela, todos se foram. Vez por outra a encontro num limiar impossível, em um ajuntamento sem território. Tampouco descerei a rua.

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Os versos

Posted in Conto by helenarcoverde on 31/10/2014

Por Helena Arcoverde

Ele recitou Eliot. Deixei-me levar pela frieza do ar. Não nos olhávamos. Os nós da  brisa insossa roçavam igualmente no banco e em nós. Aves ticavam o chão sem serem avistadas. A árvore borrifada de branco destoava do que havia em nós. Tudo ao redor se estranhava em mim. Pedi-lhe que recitasse novamente e ele acedeu. Temi que os versos findassem. Como se pudesse eternizá-los, recostei-me levemente como a armar um abraço impossível. Ele afastou-se, sem pesar. Esvaziara-se para continuar. Flores ainda brancas cobriam os desenhos do chão, desfigurando-os. Cismei com os vultos que surgiam. Riam da minha solitude e eu deles por não conseguirem escutar Eliot.

O movelzinho

Posted in Crônica by helenarcoverde on 31/10/2014

guarda roupa editado

Por Helena Arcoverde

Comprara-o com base na fotografia que me fora mostrada. Não achei que tivesse feito bom negócio. Havia um espelho que normalmente não apreciaria naquele tipo de móvel. Mas, mesmo assim, com a escassez de peças antigas, valeria o investimento e eu ainda poderia utilizá-lo para guardar roupas que se amontoavam encaixotadas. Quase arrependida, pedi que o marceneiro pusesse as peças desmontadas em um canto do quarto. Não me daria ao trabalho de perscrutar aquelas tábuas e encontrar uma das três portas feita espelho. O marceneiro ocupara-se de outra montagem e eu entrei no dormitório sem lembrar-me do intruso. Ao sair observei melhor uma das peças, era uma base feita de tábuas rústicas na forma de retângulo. Ao meio duas tábuas entrecruzavam-se e aprisionavam suas terminações no limite do retângulo de madeira. Parei e – acostumada a dialogar comigo mesma – tentei uma conversa surda e inquiridora com a peça. Esta, percebendo o desmerecimento, nada me disse. Saí novamente e esqueci por algumas horas desse encontro. Em uma casa não tão grande, é inevitável  uma disputa com o espaço. Certo entra e sai.  Peças e ferramentas acirraram  essa briga. Adentrei novamente na pequena peça. Do lado contrário ao retângulo avistei – em meio a madeiras foscas do avesso, uma das portas. Ela reluzia. E talvez não fosse tão nobre, embora não estivesse suscetível aos cupins. Intrigada, passei as folhas de madeira obedecendo a ordem em que estavam. Talvez ali estivesse algo mais interessante do que eu supusera. Depois dessa busca, eu permanecera quieta, sem quereres. Temia o desencanto. Não me atreveria a vistoriar mais peças, redistribuídas agora em três lugares para desentulhar o pequeno cômodo. Alguns minutos depois o marceneiro dirigiu-se ao local para, finalmente, montar o movelzinho. Temerosa, me acostei à porta para acompanhar a montagem. O levante de folhas desvelou o espelho. Não havia cantos e ele deixara à mostra – abaixo de si – uma pequena tábua. O verniz fresco misturava-se ao de outrora, que parecia ter se adaptado a esse transitar entre o presente e o pretérito. Um friso nas laterais do espelho impedia-o de manter contato com a madeira adouradada. Algumas áreas escurecidas – à direita – no alto tentavam em vão desmerecer a robustez de sua superfície. Aquele ensimesmamento interrompera-se pela voz do marceneiro que, apesar de não perceber meu embevecimento, ressaltou a definição do espelho e o pouco preço cobrado. Preocupada agora com a montagem, eu tentava evitar a parafusadeira que teimava em macular o movelzinho. Queria que todos saíssem dali, ou que pelo menos se livrassem daquelas ferramentas. Estava tão apreensiva que demorei a notar a maior preocupação antes de conhecer o móvel: os puxadores. Um losango feito de madeira confundia-se com o restante da porta. Com cuidado, puxei um deles e – depois – abri a porta que amostrava o espelho. Havia um cabideiro. Parecia tentar falar sobre o tempo, os antigos donos, as vestimentas todas que vira. Sobre ele, uma pequena tábua impedia-o de segredar. Afastei-me. Nos dias que seguiram, olhava-o de soslaio. Interrompia diálogos, fingia não ter descoberto mais um detalhe. Não o deixaria exibido. Tampouco notar que, quando uma nesga de sol se aventurava sobre ele, o movelzinho se irradiava, escondia o machucado em uma das portas, os riscos feitos pelo tempo. Dificilmente me aconchegaria a ele. Talvez por remorso. Quem sabe por que os antigos donos – enciumados- me impediriam de me encontrar no território sem gente. Eu, que só queria um lugar para guardar roupa, agora converso com o tempo que teima em intermediar ou, provavelmente, arruinar minha amizade. As roupas continuam encaixotadas. Assim, nada poderá atrapalhar meu namoro com o movelzinho ao passar pelo corredor. Por enquanto é só um flerte, mas nunca se sabe.

Fotog 2014

Posted in Fotografia by helenarcoverde on 26/10/2014

Helena bata 2

Helena terno 111

Sem título

Posted in Poesia by helenarcoverde on 23/10/2014

flor azul linda atras da tela

Crédito imagem e texto: Helena Arcoverde

Entreabri o portão
Um retângulo de vultos
Povoou meu ânimo
Esgotado de mim