Helena Arcoverde

Vida e morte: de protagonista a figurante

Posted in Reportagem by helenarcoverde on 29/10/2009

Helena Arcoverde

Seja encarada sob a égide do terror, da resignação, da inevitabilidade, a visão que os homens têm da morte foi alterada através dos tempos, porém, sentimentos tais como o medo continuam a acompanhar a espécie humana, refletindo, antes de tudo, o temor diante do desconhecido.

Cantada em prosa e verso, ora temida, ora respeitada. Outras vezes, um tema adiado, medo escondido atrás do riso ou do desdém. Esses são alguns dos efeitos produzidos por um processo comum a todos os homens: a morte. As explicações sobre a “indesejada das gentes ”, como diria o poeta Bandeira, divergem de acordo com as crenças religiosas, referenciais culturais e até em função da forma como se lida com o desconhecido. Assunto recorrente na literatura, ela foi a motivação da personagem Sherazade, uma contadora de história em As Mil e Uma Noites, para driblar a morte com suas intermináveis narrativas. Coletivamente, era um dos temas comuns aos escritores românticos que a viam como uma forma de escapar de um real do qual não queriam fazer parte. Seja vista como uma forma de igualar as pessoas, como querem alguns, um processo inevitável ou apenas uma passagem como defendem os seguidores de determinadas doutrinas, um ato erótico, como propõe Georges Bataille, em O Erotismo, o tema continua a fazer parte da vida da sociedade, dos discursos e estudos, das rodas de conversas, da história individual de cada um, afinal, é um processo inerente à vida humana. A morte é um problema para os vivos, diz Norbert Elias . Segundo ele, entre as criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema apenas para os seres humanos, capazes de prever o seu próprio fim, o que não ocorre com os animais, que não possuem a consciência da morte. Depois de Darwin, afirma Becker , o problema da morte como fato evolutivo ficou em evidência. Os estudiosos, segundo esse autor, “viram ser ela um grande problema psicológico para os homens”. Segundo esse autor, “de todas as coisas que impelem o homem, uma das principais é o seu terror da morte”.

Apenas figurantes
Para aqueles que sobrevivem aos seus, restará uma dificuldade em compartilhar códigos e relatos de vida em comum? Envelhecer, aproximar-se da morte, seria como viver em um mundo sem referenciais, sem identidade, apenas figurantes em um filme que não é seu? Para Raul Erhardt, contador, 79, a morte “é um alívio quando as pessoas com as quais passamos boa parte de nossas vidas desaparecem”. Para ele, “a morte é também uma forma de igualar as pessoas, de mostrar que ela vem para todos, sem as exceções que os homens fazem na Terra”. Para Delma Maskow, funcionária pública, morte é o término de uma vida na Terra. Depois dessa etapa, diz ela, “teremos que nos acertar com Deus, havendo uma continuação num outro patamar. A visão de morte muda muito, em face dos filhos, diz. “Eu tinha medo de morrer e deixá-los à deriva, achando que ainda precisariam muito de mim. Hoje, não penso mais dessa forma, e não tenho medo de morrer, pois acho que é algo natural, ocorre com qualquer um de nós. Para ela, “o dia da partida” já está previsto”.

A velhice: a sensação de proximidade com a morte
De personagem principal a figurante, muitos sentem perder a autonomia ao aproximar-se da velhice ou da morte. De protagonista de sua própria história a figurante na história alheia, alguns idosos admitem a solidão, mesmo aqueles que moram com a família. Essa questão tende a ter mais visibilidade na sociedade atual uma vez que o número de idosos aumenta tanto no país como em termos mundiais. Segundo dados do IBGE, a estimativa é de que o percentual de idosos no Brasil atinja 9,2 em 2010. Ainda de acordo com esse Instituto, a população idosa do Brasil poderá ultrapassar, nos próximos 20 anos, os 30 milhões de pessoas e dados que representarão 13% da população ao final deste período. Em 2050, projeta esse órgão, a população de idosos somará um quinto da população mundial.
Além do surgimento de algumas dificuldades físicas, diz Carmem Santos, funcionária pública, 46, a sensação é de que a morte está mais próxima. Para ela, a prevenção de doenças é um dos caminhos mais viáveis para se ter mais autonomia na velhice e até para temer menos a morte. “De nada adianta vivermos pensando na morte e nem na velhice, são processos sobre os quais os homens não têm controle. A velhice é uma aproximação com a morte, isso é inegável, é a lei natural da espécie humana e nada podemos fazer contra as coisas inevitáveis, é buscar viver com qualidade enquanto estivermos vivos”, diz ela.
Indesejada, inevitável, desconhecida, a morte está ligada ao irremediável. Quem sabe por isso, muitos evitem nomeá-la, dando preferência a suavizar seu impacto usando expressões mais leves, o chamado eufemismo. A cultura popular há muito descobriu nesse tema uma forma de espantar seus medos. “Eu juro com esses olhos que a terra há de comer”, diria o homem simples, referendo-se a ela de forma sutil, quase desapercebidamente, quem sabe para não ser lembrado. Diz a lenda que um homem, ao saber que a morte o procurava, resolveu raspar a cabeça. No dia e hora marcados, dirigiu-se a uma festa. A morte, como não encontrou a pessoa a quem procurava, resolveu levar outro no lugar. Vou levar qualquer um, pode ser aquele ali de cabeça raspada, disse a morte, apontando para o homem que raspara a cabeça para despistar a morte.

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