Helena Arcoverde

Crônica de natal

Posted in Crônica by helenarcoverde on 15/12/2012

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Por Helena Arcoverde

Aos leitores desse espaço

O vão de entrada era quase uma sala. Ao final uma árvore mediana, poucos dias antes do Natal. A montagem era anunciada e as crianças esperavam ansiosas pelo dia 19. A meia quadra, na outra casa, o anúncio era sempre com antecedência e ele reunia apenas duas crianças, embora as outras também o aguardassem. A árvore de natal das duas crianças era um prenúncio da felicidade incomum. A mãe ressurgia nas datas comemorativas. No Natal, no entanto, os preparativos eram especiais e assim os foram até o fim. O tempo-exceção findara a ausência e todos os dias ela chegava do trabalho com uma sacola cheia, trançada por fios vermelhos. Os enfeites eram quase grandes e a ponteira fincada no alto raramente era substituída  Papeis celofanes com pontas arrematadas com um laço guardavam castanhas açucaradas que às vezes se misturavam a outros doces, embora elas sempre predominassem. Depois os embrulhinhos eram distribuídos para as crianças das duas casas. Os presentes variavam de bonecas a caixotes de madeira contendo garrafas pequenas de refrigerante, naqueles idos raros. As meninas sabiam desde cedo da impossibilidade da existência do trazedor de presentes mas preferiam não pensar nesse fato, aproveitariam a felicidade plena. As outras mulheres da casa sairiam de cena, aquela era a época da mãe e, neste período, ela não admitia substituições. O rememorar desses dias provavelmente estarão entre os últimos a morrerem. Eu observava os enfeites das casas da rua qualquer enquanto relembrava esses idos. As ornamentações foram rareando com o tempo e , neste ano, não teria nenhuma na casa. Há uma década elas se resumiam a um adereço na porta talvez para não ser esta a única do prédio sem anúncio da festa. Observava em algumas das casas os enfeites reaproveitados. Em uma delas, uma árvore de copa arredondada, tronco ínfimo, faceira ante luzes também arredondadas com pinturas descascadas. A dona da casa esguichava água de uma velha mangueira nos filhos. Não viam quem passava na calçada, estavam concentrados na felicidade que antecede o natal. Eu quase parei não fora esse tipo de curiosidade um comportamento inapropriado. Assim mesmo entortava o corpo para trás quase por inteiro enquanto caminhava rumo à casa sem enfeite. Talvez eu preferisse ser mãe o ano inteiro, mas também nunca houvera sido. Reservara um arquivo com receitas para a comemoração, mas sabia que nunca as faria. O natal acabara e eu nem precisara anunciar. As crianças já sabiam. A esperança cessara e todos em casa resolveram negar essas datas. Continuei a observar a fachada das casas enquanto pensei que se eu pudesse alterar a sequência de fatos me vestiria de Noel para os filhos. Mas o tempo – sempre a advertir o arrependimento – me impediria. Ele impossibilita a reordenação e transfigura o que mais se ama. Se assim não fosse, correria contra ele, faria brigadeiros após uma árdua jornada, compraria os presentes ansiados e nunca dados, sanaria com beijos pequenos deslizes, exageraria mais ante uma flor trazida da escola, estenderia a felicidade e cuidaria para que não se quebrasse. Continuei a caminhar até não enxergar mais a mulher jorrando alegria. Dobrei a esquina. Parei em frente a uma venda e comprei um enfeite que nunca ornaria nenhuma porta. No natal eu esperaria os pacotinhos de castanhas açucaradas que eu nunca aprendi a fazer. O elo de pertencimento estaria – por momentos – reforçado. Ela arrumaria os saquinhos sobre a mesa e entre uma arrumação e outra me consultaria com o olhar. E, sem mais objeções, eu assentiria. E este seria o melhor natal de todos, aquele que até hoje eu não consigo aceitar que perdi.

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A bordadeira

Posted in Conto by helenarcoverde on 08/12/2012

Cinco filhos, um rio e mais de meio século de trabalho. Esse era o saldo que selara sua vida. Debruçada sobre o bastidor, entrelaçava os pontos. Minúsculos sapatos eram ligados ao quimono da personagem. O coque achureado, a boca vermelha que ela nunca se atrevera a desenhar em si própria, as mãos brancas e envelhecidas movimentavam milimetricamente uma composição de cores e pontos. Nunca se soube se havia indignação naquele bordar. Apesar do ganho minguado, orgulhava-se da aproximação que fazia entre as cores. É arte, dizia sempre.

A cadeira na qual exercia o ofício era de couro, larga, reforçada. O assento possuía sinuosos traços que indicavam o tempo e a secura do material. Mas já se acostumara a ela. Moldara naquela cadeira seu cheiro, o formato do seu corpo, suas lamúrias. No encosto, uma madeira lisa e ainda viçosa amparava seu corpo largo. Tachas enegrecidas arrematavam o encontro entre o couro e a madeira do assento.

Os óculos se movimentavam ante a presença do suor. E, continuamente, ela os elevava, em um movimento eterno e conformado. Apesar de reclamar desse desassossego, na maioria das vezes parecia nem mais notá-lo. Pingos de suor caiam no paninho de prato com motivos orientais e ela encostava o lenço levemente no rosto, temendo machucar os inúmeros sinais contraídos em face da incidência do sol na pele.

Na safra do caju, aceitava menos encomendas e dedicava-se a fabricar cajuínas. Mas, nessa lida, permanecia durante todo o processo, irritada, principalmente quando alguém se aventurava a colocar um caneco entre a gamela e o saco que filtrava o líquido reiteradas vezes. Não que fosse avarenta, mas não lhe sobrara, com o passar do tempo, muita paciência.

No dia de sua morte, estendido na rede de varandas largas não havia somente um corpo inerte, mas o encerramento de uma vida de luta e amor; de reflexão sobre sua própria existência e poesia; de escolhas e arrependimentos; de brigas e ternura. Deixara uma existência para a qual não fora preparada, mas enfrentara.

Os que por aquela calçada passassem nunca mais veriam aquele corpo debruçado sobre o bastidor, as unhas a ajeitarem os pedacinhos de tecidos que formavam sapatos, quimonos, braços e sombrinha. As janelas nunca mais foram abertas. Não pelo luto, embora ele existisse, mas porque os moradores da casa não se expunham à rua, como ela.

O rio caudaloso, a rua de casarões antigos e a memória do que foi hoje povoam sua nova existência. Nela, cantaria o poeta de sua terra e diria que, apesar de tudo, deixou um rastro de trabalho e amor que poderá compensar a existência que, inadvertidamente, suportou. E, nesse retorno, a serra toma de conta do rio, e este das canoas. Perto dali, as orações se intensificam quando o sol se acoberta. E ela, se não reza, ouve as lamúrias dos que trabalham e quase nada ganham. Sem máquina e nem suor, daria um sorriso ao se lembrar do bastidor, da cadeira e dos tecidos a bordar. Deixou um legado, de certa forma, foi feliz.

Obs.: esse conto foi publicado, em primeira edição, por Histórias de Trabalho, antologia,  Editora da Cidade, Porto Alegre.

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A quebradora de coco

Posted in Conto by helenarcoverde on 07/12/2012

A chaleira fumega no fogareiro. Ao lado, o bule inutilmente areado. Outras trempes se sobrepõem ao carvão e a restos de tocos que disputam, com as primeiras luzes, o clarear da cozinha ainda escura, pareada com a minúscula sala de adobe com ripas a mostra. O homem espia o bule. Ávido, faz o mesmo com o bolo frito. A mulher, ao perceber o interesse, avisa: um pra cada. Ele, meticuloso, escolhe o que presume ser o maior. As crianças fazem o mesmo. Todos de pé, medem com o olhar a diminuição do bolo. A mulher os olha, mão no quadril, impaciente com a demora. Põe o café no copo florido e olha conformada a pequena bacia engordurada e vazia. As goladas são rápidas. Alcança a porta e põe-se, sozinha, na trilha empoeirada e seca. O marido logo a alcança. Não se falam. Alguns quilômetros adiante, cada um, sem despedidas, segue direções diferentes. Ele vai embora, facão embrulhado em restos de tecidos amarelados; ela, apenas uma rodilha e uma bacia que faísca ante a incidência dos raios. Atravessada ao corpo, uma sacola de embira com uma pedra e uma pequena machadinha. Sem o revestimento, o cabo é envolto em tiras sobrepostas. A mulher afasta do caminho um galho viçoso. Diferentes matizes de verde se misturam a algumas folhas amarronzadas que,  com o gesto, caem, leves. Mais adiante, abaixa-se e ajeita o cabresto do chinelo já sem parte do suporte do calcanhar. O gesto é mecânico. Mais passos e ela para, ciosa da chegada. Derreia os objetos ao chão, em meio a folhas e cocos caídos. Começa, então, a juntar os mais próximos até formarem um monte amarronzado. Senta-se perto dos utensílios trazidos. Quase agachada, junta as laterais da saia e as arruma entre as pernas. Acocora-se. Perto de si, a pedra. Arruma sobre ela, agilmente, cada um dos frutos. Eles são quase ovais, alongados, findam pontudos. Com a machadinha, parte-os quase ao meio. Com a mão, termina o processo. Uma textura feita de fibras alongadas esconde o fruto. Extraído, guarda-o na bacia. A casca violada é jogada ao lado. Cansada da posição, a mulher agora se senta e a abertura das pernas forma um ângulo que abriga a pedra e os utensílios. Quando o sol se vai, a bacia cheia é coberta com um pano. O monte amarronzado muda de lado e a casca resvala em meio a outras derreadas na terra seca. A mulher arruma a rodilha sob a bacia e prepara o retorno. Os passos são rápidos e cuidadosos. Em casa, acenderá novamente o fogo. Assoprará as fagulhas e pedirá à criança que o abane. Fará cada prato, conforme o tamanho da fome e do homem, até que o cantar do galo a lembre de mais uma jornada.

Obs.: esse conto foi publicado, em primeira edição, por Histórias de Trabalho, antologia,  Editora da Cidade, Porto Alegre.

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