Helena Arcoverde

NA TERRA DE SANTA CRUZ

Posted in Crônica by helenarcoverde on 23/01/2019

por Helena Sobral Arcoverde
A mulher trazia a criança- que teria , no máximo uns 3 anos, até o portão da escola. Do interior da instituição, a professora sorria e – de primeira, perguntou: – trouxe todas as tarefas? A cena não era irreal, todos a conhecem bem. Tão bem que já ouvi alguém argumentando: os pais querem que os filhos se ocupem e avancem mais rápido. Nesse contexto, não há muito o que dizer. O certo é que o palavreado “no papel” e nos sites educacionais públicos e privados (e em órgãos “reguladores”) é formoso “. Em alguns casos, “pra “inglês ver”. No entanto, estou certa de que: quando uma escola enche uma criança de jardim e primeira série de tarefas ela está negando todo processo de aprendizagem, negando o fato de que o desenvolvimento perpassa por uma série de aspectos incluindo o brincar, o convívio, o diálogo, as tentativas de relações com outras crianças e com adultos, as tentativas de diálogo, enfim. O conteúdo, com isto, torna-se a única via possível do aprender, do desenvolver, do crescer, uma via de mão única, esmagando todas as outras que fariam daquela criança um ser mais completo, mais integral, mais capaz de transformar o que está a sua volta.A culpa nem é somente do professor, mas de um contexto em que nada é mais significativo do que a quantidade (bom se transpusessem esse processo de priorização da quantidade para os ganhos na formação de preço, que tal?), do que o demonstrar, do que o imediatismo de respostas. “Bombaquim, bombaquim, deixa nóis passar…”. Normal por aqui na terra de Santa Cruz.

Anúncios

o natal que ninguém quer

Posted in Crônica by helenarcoverde on 04/12/2018

Por Helena Sobral Arcoverde

Noel passa de casa em casa e, em determinado tempo, ele pula uma delas. Depois – quando os moradores não estão mais lá, ele torna. Então, percebe um vizinho a três casas adiante e  salta a casa dele também, talvez porque a porta está sempre fechada e o jardim sem nenhuma flor. Nunca se sabe ao certo as razões dele, contrárias a tudo que o aniversariante pregou. Noel é teimoso, disso estou certa.

O natal trabalha com destroços, com os enganos das horas que o antecedem, com o mais ilusório dos sentimentos: a esperança. Que nem a felicidade, esta é o engano dos infelizes, dos que temem acordar e, mesmo depois de despertados, permanecem com os olhos cerrados, com medo do sol, das paredes com marcas próprias de quem as olha todos os dias. Temerosos dos mesmos ditos, dos mesmos fazeres e – principalmente- com medo do amanhã que nada mais é do que a esperança. Se esta desaparecesse, por um dia que fosse, aí sim, os que não querem acordar saberiam que a felicidade finalmente haveria chegado.

Há tempo pra tudo, antes do natal, porque ele , tal qual a esperança, é ilusão e, infelizmente, chega um momento em que não dá mais tempo de ser feliz e, portanto, não importa se o Noel pula sua casa, você também não o quer mais.

Até certo tempo, eu tive todos os natais possíveis. Eram coloridos e eu – como em geral o fazem as crianças, temia dormir esperando o Papai Noel. Ao final das contas, eu nunca acreditei nele, mas eu queria participar daqueles rituais. Minha mãe presenteava a mim e a minha irmã com todas as coisas desejadas pela meninas da época. Ela era a dona do natal. A dona das comemorações de aniversários. Ela as conhecia bem desde que nascera e – nesses dias de grande comemoração, ela era a tal. Quando fizera oito anos, as faixas caíam do alto e se enlaçavam ao enorme bolo. Depois, deslizavam toalha abaixo. À frente de uma das mesas preparadas para a festa ela vestia uma roupa inspirada na temática naval e sua postura era de vitória, uma surpresa para mim quando vi o registro. Os doces se assentavam sobre toalhas bordadas sobre o tule. Era a dona da ilusão mas, um dia, o natal acabou. Tem gente que não suporta mais um erro. E ela era assim. Novamente contrariara os pais, as pessoas que mais a amaram em vida. Ela não queria mais o natal. As festas de aniversários, contudo, permaneceram até o final de tudo. Continuou montando a árvore no período de sempre – antecipadamente, mas era um natal amargo, compatível com o dia em que a árvore deveria ser desarmada, dia 6 de janeiro. As bolas ainda eram cintilantes e de cores que eu passei anos buscando mas nunca as encontrara. A alguns metros, minha tia armava a árvore poucos dias antes do natal, dia 19, ela sabia que o natal não admite artifícios. Eu continuei vivendo o natal, a meu modo, sem árvores, sem enfeites. Desde cedo, eu me acostumara a imaginar um fim para tudo que fosse e que envolvesse a felicidade.

Ultrapassar o desprezo de Noel só é possível quando se aprende a lidar com o fragmentado, com os destroços. São estes que nos certificam que tudo finda e renasce e que Noel está certo ao ziguezaguear pela cidade, vielas, pelo mundo obscuro e particular de cada casa e, do nada, entrar numa casa e se safar de outra.

O Natal é o momento da comunhão com os desconhecidos. Com a finitude e o recomeço das relações. E não necessariamente com pessoas próximas que se vão quando você não é mais uma certeza de prosperidade. O natal é possível com qualquer vizinho da rua adiante. É o espaço em que o outro- dantes nunca aceito – entra “porta adentro”. É o espaço da compaixão, com tempo datado.

Nem quero mais passar o natal com meus filhos porque quero que eles aprendam que nada é para sempre, nenhum cargo, nenhum beijo, nenhuma relação, nenhum amor. Cabe a mim conduzir a separação. No entanto, para aonde eu for, os levarei comigo pois – mesmo Noel saltando minha casa, eu continuo tendo o maior presente que talvez nem merecesse_ meus filhos. E eles, mesmo sem árvores, sem bolas cintilantes, sem cocadinha de banana com chocolate, sem castanhas açucaradas que eu nunca aprendera a fazer, foram as formas que o aniversariante encontrou de – pelo menos uma vez na vida, me fazer acreditar em um amor que não tem fim. Antes que eu esqueça, Noel, quando eu me for, salte a casa deles também. Eles  não acreditam em você.

Neste ano, Noel, tem flores no meu jardim, se quiser, apareça. Nem precisa trazer presentes. Eu não os quero mais.

 

 

Tudo por causa de São Fransico

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/07/2018
por Helena Sobral Arcoverde
 
Eu venho de família que coleciona. De louçarada à peça de propaganda. Eu, vez por outra, invento alguma. Fazer o quê? A última tratava-se de imagem sacra. Nesse período, veio em casa um carpinteiro meu amigo e falou sobre um São Francisco que ele teria. Eu sou traumatizada com esse santo porque uma amiga tem um São Francisco lapidado na floresta e arrodeado por onça pintada. Essa amiga, claro, prefere o ar soturno do cemitério do que me doar ou vender essa imagem. E eu evito ir na casa dela para não me deparar com o tal santo. Para me consolar, ela me deu uma Nossa Senhora também da época em que esteve na referida mata, o que me curou de qualquer sequela, embora eu ainda não me sinto forte o suficiente para voltar a visitá-la. Bem, mas voltando à imagem ganha pelo meu amigo marceneiro. Antes, detalho que eu fui criada cercada de igreja, quase todas católicas, uma presbiteriana a meia quadra, então, eu – além do mal de família, amo os santos. A presbiteriana não tinha santo, mas ainda hoje me emociono quando passo na frente de uma delas. Foi assim que, outro dia, fui no bazar de uma delas perto de casa. Fiquei assim sensível, se bem que, quando avistei dois pratinhos feitos de um material que logo será colecionável, esqueci qualquer rastro da infância e corri a comprá-los. Quanto mais meu amigo descrevia o santo, mais eu me interessava. E propus: me venda. Ele, muito católico, me disse: é pecado vender santo. Eu pensei: e agora, estou no “mato sem cachorro”.Eu o convenci a pecar e comprei o santo. Mas, à noite, para me garantir, quando fui rezar, argumentei com Nossa Senhora : Minha mãe, eu tenho quatro gatinhos, preciso da imagem aqui. Veja, dois deles contam 17 anos, estão velhinhos, sem falar, Mãe do Céu, que se um deles se deparar com a porta aberta, correrá perigo. Bem, do pecado senti que me livrei, mas vez por outra olho de banda a imagem do santo e desvio o olhar bem rápido. Não posso recair, não tenho mais quem me livre. Isso porque uma vizinha me alertou: -não fique pedindo muita coisa a Nossa Senhora porque todos temos uma cota. Eu, que tenho vários pedidos em andamento com Maria, fiquei temerosa. Nossa Senhora rogai por nós mas, principalmente, por mim porque ferrada é pouco.

“costume de casa vai à praça”

Posted in Crônica by helenarcoverde on 30/06/2018

por helena sobral arcoverde

Não se surpreenda de nada vindo das pessoas ou das organizações, me dizia sempre uma amiga. E eu sigo à risca o conselho, embora tenha demorado a me certificar de que ele combina muito com as relações entre as pessoas e destas com as entidades. Erros, acertos, disputas, barganhas estão presentes nos organismos públicos e privados porque são parte dessa vidinha cotidiana com a qual nos embolamos pelo resto da vida e alguns – ou muitos- se atrevem a glorificá-la como exemplar, afinal, o glamour nunca esteve tão na moda. Conchavos, vinganças,”panelinhas”, vaidades e, como não poderia faltar, raras éticas porque “ninguém é de ferro”. O que se faz em casa, na vizinhança, nos grupos de amigos, nos chazinhos ou chopes de final de expediente, se faz no trabalho, nas instituições de ensino, nos asilos, nas empresas sejam elas de que âmbito forem. E, nestas horas, os regimentos internos que se adequem ao submerso, porque a intensidade dos vícios dessas relações é mais forte. “Costume de casa vai à praça”, sendo assim, nada do que foi posto aqui resulta novidade, mas sim da certeza de que aonde se vai, seja presencialmente, virtualmente, na casa do vizinho ou no trabalho, se leva esse arsenal de condutas pouco louváveis. Condutas adequadas e éticas há em todas essas relações mas, recorrentemente, se perdem nessa teia que há séculos está perpetrada no país. Talvez seja por isso que – com mais idade- se prefira conversar com as flores ou, quem sabe, com o mar.

nação em ruína

Posted in Crônica by helenarcoverde on 20/05/2017

Por helena sobral arcoverde
A Nação chora. Esperou pelo seu povo e ele falhou. Desiludida, lastima a esperança naqueles que se atêm à pequenês dos dias, à ganância de grupos, à insensatez. As crianças – perplexas, esperam do país o que seus homens não deixaram que fizesse. Os desvalidos almejam além das migalhas e imploram que seus “nomes não sejam usados em vão”. Eu deixaria os rios, as cachoeiras a cair desconsoladas. Eu deixaria todas as ruas que amei aqui e acolá.Os sorrisos fáceis no ponto de ônibus. As conversas sobre o inverno. As ruas de asfalto remendado e até as flores que teimam em nascer nas frestas das calçadas cimentadas. Eu deixaria minha rua que as folhagens tornam – do alto- um fio. Eu deixaria tudo que amo nos dias amenos ou frios. Que nem meu país, estou desiludida.
Gostaria de dizer-lhe que para ser grande não precisa de tutelas, só de liberdade pois só a autonomia faria seu povo prosperar. Mas seriam palavras vãs. O mais triste é saber que levaria daqui a ideia de que “O mundo é um lodaçal perdido/Cujo sol (quem me dera) é o dinheiro…”. A ruína se instaurou. E pouco resta, a não ser chorar.