Helena Arcoverde

o natal que ninguém quer

Posted in Crônica by helenarcoverde on 04/12/2018

Por Helena Sobral Arcoverde

Noel passa de casa em casa e, em determinado tempo, ele pula uma delas. Depois – quando os moradores não estão mais lá, ele torna. Então, percebe um vizinho a três casas adiante e  salta a casa dele também, talvez porque a porta está sempre fechada e o jardim sem nenhuma flor. Nunca se sabe ao certo as razões dele, contrárias a tudo que o aniversariante pregou. Noel é teimoso, disso estou certa.

O natal trabalha com destroços, com os enganos das horas que o antecedem, com o mais ilusório dos sentimentos: a esperança. Que nem a felicidade, esta é o engano dos infelizes, dos que temem acordar e, mesmo depois de despertados, permanecem com os olhos cerrados, com medo do sol, das paredes com marcas próprias de quem as olha todos os dias. Temerosos dos mesmos ditos, dos mesmos fazeres e – principalmente- com medo do amanhã que nada mais é do que a esperança. Se esta desaparecesse, por um dia que fosse, aí sim, os que não querem acordar saberiam que a felicidade finalmente haveria chegado.

Há tempo pra tudo, antes do natal, porque ele , tal qual a esperança, é ilusão e, infelizmente, chega um momento em que não dá mais tempo de ser feliz e, portanto, não importa se o Noel pula sua casa, você também não o quer mais.

Até certo tempo, eu tive todos os natais possíveis. Eram coloridos e eu – como em geral o fazem as crianças, temia dormir esperando o Papai Noel. Ao final das contas, eu nunca acreditei nele, mas eu queria participar daqueles rituais. Minha mãe presenteava a mim e a minha irmã com todas as coisas desejadas pela meninas da época. Ela era a dona do natal. A dona das comemorações de aniversários. Ela as conhecia bem desde que nascera e – nesses dias de grande comemoração, ela era a tal. Quando fizera oito anos, as faixas caíam do alto e se enlaçavam ao enorme bolo. Depois, deslizavam toalha abaixo. À frente de uma das mesas preparadas para a festa ela vestia uma roupa inspirada na temática naval e sua postura era de vitória, uma surpresa para mim quando vi o registro. Os doces se assentavam sobre toalhas bordadas sobre o tule. Era a dona da ilusão mas, um dia, o natal acabou. Tem gente que não suporta mais um erro. E ela era assim. Novamente contrariara os pais, as pessoas que mais a amaram em vida. Ela não queria mais o natal. As festas de aniversários, contudo, permaneceram até o final de tudo. Continuou montando a árvore no período de sempre – antecipadamente, mas era um natal amargo, compatível com o dia em que a árvore deveria ser desarmada, dia 6 de janeiro. As bolas ainda eram cintilantes e de cores que eu passei anos buscando mas nunca as encontrara. A alguns metros, minha tia armava a árvore poucos dias antes do natal, dia 19, ela sabia que o natal não admite artifícios. Eu continuei vivendo o natal, a meu modo, sem árvores, sem enfeites. Desde cedo, eu me acostumara a imaginar um fim para tudo que fosse e que envolvesse a felicidade.

Ultrapassar o desprezo de Noel só é possível quando se aprende a lidar com o fragmentado, com os destroços. São estes que nos certificam que tudo finda e renasce e que Noel está certo ao ziguezaguear pela cidade, vielas, pelo mundo obscuro e particular de cada casa e, do nada, entrar numa casa e se safar de outra.

O Natal é o momento da comunhão com os desconhecidos. Com a finitude e o recomeço das relações. E não necessariamente com pessoas próximas que se vão quando você não é mais uma certeza de prosperidade. O natal é possível com qualquer vizinho da rua adiante. É o espaço em que o outro- dantes nunca aceito – entra “porta adentro”. É o espaço da compaixão, com tempo datado.

Nem quero mais passar o natal com meus filhos porque quero que eles aprendam que nada é para sempre, nenhum cargo, nenhum beijo, nenhuma relação, nenhum amor. Cabe a mim conduzir a separação. No entanto, para aonde eu for, os levarei comigo pois – mesmo Noel saltando minha casa, eu continuo tendo o maior presente que talvez nem merecesse_ meus filhos. E eles, mesmo sem árvores, sem bolas cintilantes, sem cocadinha de banana com chocolate, sem castanhas açucaradas que eu nunca aprendera a fazer, foram as formas que o aniversariante encontrou de – pelo menos uma vez na vida, me fazer acreditar em um amor que não tem fim. Antes que eu esqueça, Noel, quando eu me for, salte a casa deles também. Eles  não acreditam em você.

Neste ano, Noel, tem flores no meu jardim, se quiser, apareça. Nem precisa trazer presentes. Eu não os quero mais.

 

 

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Tudo por causa de São Fransico

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/07/2018
por Helena Sobral Arcoverde
 
Eu venho de família que coleciona. De louçarada à peça de propaganda. Eu, vez por outra, invento alguma. Fazer o quê? A última tratava-se de imagem sacra. Nesse período, veio em casa um carpinteiro meu amigo e falou sobre um São Francisco que ele teria. Eu sou traumatizada com esse santo porque uma amiga tem um São Francisco lapidado na floresta e arrodeado por onça pintada. Essa amiga, claro, prefere o ar soturno do cemitério do que me doar ou vender essa imagem. E eu evito ir na casa dela para não me deparar com o tal santo. Para me consolar, ela me deu uma Nossa Senhora também da época em que esteve na referida mata, o que me curou de qualquer sequela, embora eu ainda não me sinto forte o suficiente para voltar a visitá-la. Bem, mas voltando à imagem ganha pelo meu amigo marceneiro. Antes, detalho que eu fui criada cercada de igreja, quase todas católicas, uma presbiteriana a meia quadra, então, eu – além do mal de família, amo os santos. A presbiteriana não tinha santo, mas ainda hoje me emociono quando passo na frente de uma delas. Foi assim que, outro dia, fui no bazar de uma delas perto de casa. Fiquei assim sensível, se bem que, quando avistei dois pratinhos feitos de um material que logo será colecionável, esqueci qualquer rastro da infância e corri a comprá-los. Quanto mais meu amigo descrevia o santo, mais eu me interessava. E propus: me venda. Ele, muito católico, me disse: é pecado vender santo. Eu pensei: e agora, estou no “mato sem cachorro”.Eu o convenci a pecar e comprei o santo. Mas, à noite, para me garantir, quando fui rezar, argumentei com Nossa Senhora : Minha mãe, eu tenho quatro gatinhos, preciso da imagem aqui. Veja, dois deles contam 17 anos, estão velhinhos, sem falar, Mãe do Céu, que se um deles se deparar com a porta aberta, correrá perigo. Bem, do pecado senti que me livrei, mas vez por outra olho de banda a imagem do santo e desvio o olhar bem rápido. Não posso recair, não tenho mais quem me livre. Isso porque uma vizinha me alertou: -não fique pedindo muita coisa a Nossa Senhora porque todos temos uma cota. Eu, que tenho vários pedidos em andamento com Maria, fiquei temerosa. Nossa Senhora rogai por nós mas, principalmente, por mim porque ferrada é pouco.

“costume de casa vai à praça”

Posted in Crônica by helenarcoverde on 30/06/2018

por helena sobral arcoverde

Não se surpreenda de nada vindo das pessoas ou das organizações, me dizia sempre uma amiga. E eu sigo à risca o conselho, embora tenha demorado a me certificar de que ele combina muito com as relações entre as pessoas e destas com as entidades. Erros, acertos, disputas, barganhas estão presentes nos organismos públicos e privados porque são parte dessa vidinha cotidiana com a qual nos embolamos pelo resto da vida e alguns – ou muitos- se atrevem a glorificá-la como exemplar, afinal, o glamour nunca esteve tão na moda. Conchavos, vinganças,”panelinhas”, vaidades e, como não poderia faltar, raras éticas porque “ninguém é de ferro”. O que se faz em casa, na vizinhança, nos grupos de amigos, nos chazinhos ou chopes de final de expediente, se faz no trabalho, nas instituições de ensino, nos asilos, nas empresas sejam elas de que âmbito forem. E, nestas horas, os regimentos internos que se adequem ao submerso, porque a intensidade dos vícios dessas relações é mais forte. “Costume de casa vai à praça”, sendo assim, nada do que foi posto aqui resulta novidade, mas sim da certeza de que aonde se vai, seja presencialmente, virtualmente, na casa do vizinho ou no trabalho, se leva esse arsenal de condutas pouco louváveis. Condutas adequadas e éticas há em todas essas relações mas, recorrentemente, se perdem nessa teia que há séculos está perpetrada no país. Talvez seja por isso que – com mais idade- se prefira conversar com as flores ou, quem sabe, com o mar.

nação em ruína

Posted in Crônica by helenarcoverde on 20/05/2017

Por helena sobral arcoverde
A Nação chora. Esperou pelo seu povo e ele falhou. Desiludida, lastima a esperança naqueles que se atêm à pequenês dos dias, à ganância de grupos, à insensatez. As crianças – perplexas, esperam do país o que seus homens não deixaram que fizesse. Os desvalidos almejam além das migalhas e imploram que seus “nomes não sejam usados em vão”. Eu deixaria os rios, as cachoeiras a cair desconsoladas. Eu deixaria todas as ruas que amei aqui e acolá.Os sorrisos fáceis no ponto de ônibus. As conversas sobre o inverno. As ruas de asfalto remendado e até as flores que teimam em nascer nas frestas das calçadas cimentadas. Eu deixaria minha rua que as folhagens tornam – do alto- um fio. Eu deixaria tudo que amo nos dias amenos ou frios. Que nem meu país, estou desiludida.
Gostaria de dizer-lhe que para ser grande não precisa de tutelas, só de liberdade pois só a autonomia faria seu povo prosperar. Mas seriam palavras vãs. O mais triste é saber que levaria daqui a ideia de que “O mundo é um lodaçal perdido/Cujo sol (quem me dera) é o dinheiro…”. A ruína se instaurou. E pouco resta, a não ser chorar.

the bus

Posted in Crônica by helenarcoverde on 30/04/2017
Dourado desfazendo 3
Posted by helenarcoverde on 16/10/2013
image and text helena arcverde

The busshook, but she didn’t seem to feel it. Nothing shook in her lean body. The objects inside the bus jiggled, butwent right back to their places. Sitting in the second row, she was amazed at how lucky she was that nobody sat beside her. The driver seemed to understand much more than the momentrequired. Time and again he looked through the rearview mirror as if he could read not only the passengers’ thoughts, but also to know more than they did about the lives that didn’tbelonged to them. Elzastarted to become annoyed by what she saw aspetulance. She tried notto look in the driver’s direction, although knowing she would,once in a while. And when it was inevitable, he would look at her with sarcasm. On the other side, a woman tried to fit into the seat. Fearing to be noticed, Elza turned her face in another direction, but she suddenly looked back when she noticed that the woman’s right arm seemed to be wounded. Dirty gauzes seemed to become a little looserat every jolt. Elza was wondering about the strangeness of the whole situation, when the driver announced a stop. The bus pulled over and the woman, after moving around for a few minutes, stood up from the seat. Her dress was loose and torn on one side. Staggering,she managed to get off the bus that had stopped in front of a house. The woman went in. The passengers seemed resigned to wait. Elza noticed that the driver still had that same contemptuous air about him and was tapping the tip of his fingers on the dark circle of the steering wheel.She could not tell for how long they stayed in that unusual concession. At last, she saw the woman. She was crying.

There was movement inside the house, but nobody accompanied her to the door. She got on the bus in the same way she had gotten off –staggering. She was even more crestfallen and forlorn then before. The trip resumed. Between maneuvers, the driver still tapped his fingers. Elzadozed off and when she woke up she realized that the bus had stopped in front of another house. She looked out of the window and this time the details were more visible. The house seemed abandoned. Crossed boards had been nailed over the entrance door and the one window. A man was standing in front of it, staring at the building. He stayed like that for a few minutes. She observed the scene with increasing uneasiness. She had taken that trip to meet some friends and she would certainly miss herappointment if that went on for too long. The man finally came back. Circumspect, he took a seat behind her. The ride had gone on for some immeasurable time, when the bus started to slow down as it neared an accident that had probably happened a few days ago. A bus and a passenger car comprisedthe scene.There was lots of debris, some candles and flowers. All faces turned simultaneously. Only Elza’s remained on the other passengers’. They looked at each other.

After all theinterruptions, the ride seemed to have returned to normal. Elza felt dizzy, but noticed that someone seemed to be poking her. Frightened, with eyes wide open, she composed herself. Now, everybody was looking at her. The driver, standing in front of her, tried to squeezehis body in the space between the front rowsmaking room for Elza to pass. She stood up and walked just like the others had done it, to the exit. She went down, reluctantly, the two steps and only then she realized that the bus had stopped in front of her house. She looked inquisitively at the driver,who now with a compassionate air about him moved his head signaling her to go on. The young lady went on walking toward the house. At the entrance, she met neighbors, who did not greet her. Intrigued, she entered the house. Nobody greeted her. They must be mad about her trip. She walked to her mother’s room and saw her lying down, crying. She hugged her,but she didn’t even notice it. Elza stayed there until her mother fell asleep. Then, she got out without anyone noticing her. She got on the bus again, and left.

ARCOVERDE, Helena Sobral. The bus. In: blog Helena Arcoverde. Translation: SCHLEMM, Martha. Curitiba, 2013.