Helena Arcoverde

nação em ruína

Posted in Crônica by helenarcoverde on 20/05/2017

Por helena sobral arcoverde
A Nação chora. Esperou pelo seu povo e ele falhou. Desiludida, lastima a esperança naqueles que se atêm à pequenês dos dias, à ganância de grupos, à insensatez. As crianças – perplexas, esperam do país o que seus homens não deixaram que fizesse. Os desvalidos almejam além das migalhas e imploram que seus “nomes não sejam usados em vão”. Eu deixaria os rios, as cachoeiras a cair desconsoladas. Eu deixaria todas as ruas que amei aqui e acolá.Os sorrisos fáceis no ponto de ônibus. As conversas sobre o inverno. As ruas de asfalto remendado e até as flores que teimam em nascer nas frestas das calçadas cimentadas. Eu deixaria minha rua que as folhagens tornam – do alto- um fio. Eu deixaria tudo que amo nos dias amenos ou frios. Que nem meu país, estou desiludida.
Gostaria de dizer-lhe que para ser grande não precisa de tutelas, só de liberdade pois só a autonomia faria seu povo prosperar. Mas seriam palavras vãs. O mais triste é saber que levaria daqui a ideia de que “O mundo é um lodaçal perdido/Cujo sol (quem me dera) é o dinheiro…”. A ruína se instaurou. E pouco resta, a não ser chorar.

the bus

Posted in Crônica by helenarcoverde on 30/04/2017
Dourado desfazendo 3
Posted by helenarcoverde on 16/10/2013
image and text helena arcverde

The busshook, but she didn’t seem to feel it. Nothing shook in her lean body. The objects inside the bus jiggled, butwent right back to their places. Sitting in the second row, she was amazed at how lucky she was that nobody sat beside her. The driver seemed to understand much more than the momentrequired. Time and again he looked through the rearview mirror as if he could read not only the passengers’ thoughts, but also to know more than they did about the lives that didn’tbelonged to them. Elzastarted to become annoyed by what she saw aspetulance. She tried notto look in the driver’s direction, although knowing she would,once in a while. And when it was inevitable, he would look at her with sarcasm. On the other side, a woman tried to fit into the seat. Fearing to be noticed, Elza turned her face in another direction, but she suddenly looked back when she noticed that the woman’s right arm seemed to be wounded. Dirty gauzes seemed to become a little looserat every jolt. Elza was wondering about the strangeness of the whole situation, when the driver announced a stop. The bus pulled over and the woman, after moving around for a few minutes, stood up from the seat. Her dress was loose and torn on one side. Staggering,she managed to get off the bus that had stopped in front of a house. The woman went in. The passengers seemed resigned to wait. Elza noticed that the driver still had that same contemptuous air about him and was tapping the tip of his fingers on the dark circle of the steering wheel.She could not tell for how long they stayed in that unusual concession. At last, she saw the woman. She was crying.

There was movement inside the house, but nobody accompanied her to the door. She got on the bus in the same way she had gotten off –staggering. She was even more crestfallen and forlorn then before. The trip resumed. Between maneuvers, the driver still tapped his fingers. Elzadozed off and when she woke up she realized that the bus had stopped in front of another house. She looked out of the window and this time the details were more visible. The house seemed abandoned. Crossed boards had been nailed over the entrance door and the one window. A man was standing in front of it, staring at the building. He stayed like that for a few minutes. She observed the scene with increasing uneasiness. She had taken that trip to meet some friends and she would certainly miss herappointment if that went on for too long. The man finally came back. Circumspect, he took a seat behind her. The ride had gone on for some immeasurable time, when the bus started to slow down as it neared an accident that had probably happened a few days ago. A bus and a passenger car comprisedthe scene.There was lots of debris, some candles and flowers. All faces turned simultaneously. Only Elza’s remained on the other passengers’. They looked at each other.

After all theinterruptions, the ride seemed to have returned to normal. Elza felt dizzy, but noticed that someone seemed to be poking her. Frightened, with eyes wide open, she composed herself. Now, everybody was looking at her. The driver, standing in front of her, tried to squeezehis body in the space between the front rowsmaking room for Elza to pass. She stood up and walked just like the others had done it, to the exit. She went down, reluctantly, the two steps and only then she realized that the bus had stopped in front of her house. She looked inquisitively at the driver,who now with a compassionate air about him moved his head signaling her to go on. The young lady went on walking toward the house. At the entrance, she met neighbors, who did not greet her. Intrigued, she entered the house. Nobody greeted her. They must be mad about her trip. She walked to her mother’s room and saw her lying down, crying. She hugged her,but she didn’t even notice it. Elza stayed there until her mother fell asleep. Then, she got out without anyone noticing her. She got on the bus again, and left.

ARCOVERDE, Helena Sobral. The bus. In: blog Helena Arcoverde. Translation: SCHLEMM, Martha. Curitiba, 2013.

natal sem mãe

Posted in Crônica by helenarcoverde on 21/11/2016

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crédito texto: Helena Arcoverde /imagem:acervo pessoal

O natal remete ao irremediável. Enquanto ele atraiçoa ao conclamar o amor, o tempo atraiçoa ao impedir a reunião de todos os que amamos. Eles jamais arrumarão novamente a árvore. Não nos levarão a ver o presépio na ruazinha vizinha. Nunca mais buscarão esconderijo para os presentes comprados antecipadamente. Não poderão nos perdoar pelos deslizes. A mãe não porá açúcar nas castanhas. O amor agora é unilateral. Amamos o que se foi. Os vultos. E a cada natal o amor se torna maior e mais longínquo. Sim, o natal é traiçoeiro. Deixa a morte levar até as mães. E natal sem mãe não é a mesma coisa. E a minha nunca mais se preocupará em comprar outra ponteira. Em renovar aos pouquinhos os enfeites que luziam como nenhum outro. E isso é um mistério. Mãe, aonde foram parar as bolas cintilantes? E o enfeite da porta que todo ano – já gasto – parecia renovado? Devolva as cocadinhas de banana, os bolos mergulhados na calda de chocolate, o merengue a emergir do caramelo . Volte só mais um natal. Não precisa comprar nada.  Só mais uma vez e prometo deixar você ir embora. O natal tem disso, obriga a gente a amar mas não devolve nada do que gostamos. Noel, estou de mal com você. Na véspera, talvez eu faça as pazes. 

a cópia, a vulgarização e a negação do outro

Posted in Crônica by helenarcoverde on 13/10/2016

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Por Helena Arcoverde

A vulgarização é somente um dos problemas da cópia. Os talentosos se inspiram, não copiam. Os não talentosos – que se aventuram em copiar – vulgarizam a produção do outro, impondo-se como sujeito. A autoria -mesmo em um contexto de produção e colaboração coletiva, deve ser respeitada. Ela pode conter vaidades, ambições financeiras e de reconhecimento,  mas retrata – acima de tudo, as singularidades do sujeito-autor, a forma de se expor, de lidar com as vivências, as andanças em meio a um contexto de múltiplas ordens, a experimentação e tentativas de se manifestar artística e literariamente. Retrata os embates perante a existência, as dúvidas, os arrependimentos, as dores todas, os preenchimentos de lacunas. Ela encarna a própria vida que, apesar dos vieses coletivos, é única. Encarna a morte, o medo, a (des)crença na eternidade. Representa os vários eus que desenvolve-se ao longo da vida. A forma de ver a arte, de projetar nela a si e ao outro, o espaço e tempo. Por isso tudo, não deve ser negada. Já a cópia vulgariza, danifica, se aproveita, reduz os traços individuais, adultera. Sua essência é a negação. A internet não é responsável por esse processo pois através dos tempos essas investidas sempre ocorreram, mas ela é “uma mão na roda” para aqueles que, incapazes de se manifestar artisticamente, silenciam a voz do outro e dela se aproveitam para perpetuar a sua própria. A cópia abafa o desejo do outro para impor o seu.  Fragmenta a história contada,  negando o sujeito dessas narrativas. O novo autor – assim – é alçado a essa condição destronando, punindo o outro pela produção que não fora capaz de. O autor é abatido, destronado, perde a  identidade. Abomináveis oportunistas que, similares a todos os outros, são incapazes de armar as próprias estratégias, ficando à espreita para o bote, para consolidar o esfacelamento da história alheia. E ninguém deve se sentir privilegiado por ser a vítima nesse processo. Afinal, o papel de vítima até pode render, mas será sempre entrecruzado com o de perdedor. Se – ao argumentar tudo isso, vou em sentido contrário a Roland Barthes isso não me fará perder o sono, certamente. Nesse momento  me sinto enganada ao ser negada, roubada. Ainda preciso de minhas histórias. Perder a voz para a escrita é louvável, mas perder para um processo transgressor e vulgarizador é inaceitável. Por isso, hoje, resolvi ficar triste e guardar – para sempre – os “poeminhas” na “gaveta”. 

a geleia

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/09/2016

Imagem e texto: helena arcoverde

geleia

Ele colocara o vidro de geleia sobre a mesa. O pink luzia. Lembrei de – quando criança – usava máscaras – no carnaval- em que a lente era de papel  celofane vermelho. Depois de enaltecidas as qualidades e origem da iguaria, eu fui a primeira a experimentar. Ora, para quem só come a parte externa do sonho de valsa e prefere os emes marrons aquela essência não era tão católica assim. Maravilhosa, arrisquei. Levemente amarga, mas isso não impede que a apreciemos. Para me vingar do olhar de escárnio de um dos filhos, eu sentenciei: agora é sua vez, filho. Foi presente de seu irmão. Relutante, ele segurou uma bolachinha e minguou sobre ela meia colher de café da famosa geleia. Que saudável… Coma mais, disse eu. E ele, não, obrigada, estou de regime. Mesmo? Começou quando? Não fosse o apego a mim eu acharia que ele me odiava. O presenteador – desconfiado com a troca de olhares, disse: vou pegar uma torrada e experimentar. Sabor inigualável. Eu disse que era boa. Se eu acreditei? certeza. Para quem – cedinho – havia tomado prazerosamente chá de gengibre, aquilo era um pavê. Não sei pra quem esse menino puxou!