Helena Arcoverde

natal sem mãe

Posted in Crônica by helenarcoverde on 21/11/2016

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crédito texto: Helena Arcoverde /imagem:acervo pessoal

O natal remete ao irremediável. Enquanto ele atraiçoa ao conclamar o amor, o tempo atraiçoa ao impedir a reunião de todos os que amamos. Eles jamais arrumarão novamente a árvore. Não nos levarão a ver o presépio na ruazinha vizinha. Nunca mais buscarão esconderijo para os presentes comprados antecipadamente. Não poderão nos perdoar pelos deslizes. A mãe não porá açúcar nas castanhas. O amor agora é unilateral. Amamos o que se foi. Os vultos. E a cada natal o amor se torna maior e mais longínquo. Sim, o natal é traiçoeiro. Deixa a morte levar até as mães. E natal sem mãe não é a mesma coisa. E a minha nunca mais se preocupará em comprar outra ponteira. Em renovar aos pouquinhos os enfeites que luziam como nenhum outro. E isso é um mistério. Mãe, aonde foram parar as bolas cintilantes? E o enfeite da porta que todo ano – já gasto – parecia renovado? Devolva as cocadinhas de banana, os bolos mergulhados na calda de chocolate, o merengue a emergir do caramelo . Volte só mais um natal. Não precisa comprar nada.  Só mais uma vez e prometo deixar você ir embora. O natal tem disso, obriga a gente a amar mas não devolve nada do que gostamos. Noel, estou de mal com você. Na véspera, talvez eu faça as pazes. 

a cópia, a vulgarização e a negação do outro

Posted in Crônica by helenarcoverde on 13/10/2016

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Por Helena Arcoverde

A vulgarização é somente um dos problemas da cópia. Os talentosos se inspiram, não copiam. Os não talentosos – que se aventuram em copiar – vulgarizam a produção do outro, impondo-se como sujeito. A autoria -mesmo em um contexto de produção e colaboração coletiva, deve ser respeitada. Ela pode conter vaidades, ambições financeiras e de reconhecimento,  mas retrata – acima de tudo, as singularidades do sujeito-autor, a forma de se expor, de lidar com as vivências, as andanças em meio a um contexto de múltiplas ordens, a experimentação e tentativas de se manifestar artística e literariamente. Retrata os embates perante a existência, as dúvidas, os arrependimentos, as dores todas, os preenchimentos de lacunas. Ela encarna a própria vida que, apesar dos vieses coletivos, é única. Encarna a morte, o medo, a (des)crença na eternidade. Representa os vários eus que desenvolve-se ao longo da vida. A forma de ver a arte, de projetar nela a si e ao outro, o espaço e tempo. Por isso tudo, não deve ser negada. Já a cópia vulgariza, danifica, se aproveita, reduz os traços individuais, adultera. Sua essência é a negação. A internet não é responsável por esse processo pois através dos tempos essas investidas sempre ocorreram, mas ela é “uma mão na roda” para aqueles que, incapazes de se manifestar artisticamente, silenciam a voz do outro e dela se aproveitam para perpetuar a sua própria. A cópia abafa o desejo do outro para impor o seu.  Fragmenta a história contada,  negando o sujeito dessas narrativas. O novo autor – assim – é alçado a essa condição destronando, punindo o outro pela produção que não fora capaz de. O autor é abatido, destronado, perde a  identidade. Abomináveis oportunistas que, similares a todos os outros, são incapazes de armar as próprias estratégias, ficando à espreita para o bote, para consolidar o esfacelamento da história alheia. E ninguém deve se sentir privilegiado por ser a vítima nesse processo. Afinal, o papel de vítima até pode render, mas será sempre entrecruzado com o de perdedor. Se – ao argumentar tudo isso, vou em sentido contrário a Roland Barthes isso não me fará perder o sono, certamente. Nesse momento  me sinto enganada ao ser negada, roubada. Ainda preciso de minhas histórias. Perder a voz para a escrita é louvável, mas perder para um processo transgressor e vulgarizador é inaceitável. Por isso, hoje, resolvi ficar triste e guardar – para sempre – os “poeminhas” na “gaveta”. 

a geleia

Posted in Crônica by helenarcoverde on 29/09/2016

Imagem e texto: helena arcoverde

geleia

Ele colocara o vidro de geleia sobre a mesa. O pink luzia. Lembrei de – quando criança – usava máscaras – no carnaval- em que a lente era de papel  celofane vermelho. Depois de enaltecidas as qualidades e origem da iguaria, eu fui a primeira a experimentar. Ora, para quem só come a parte externa do sonho de valsa e prefere os emes marrons aquela essência não era tão católica assim. Maravilhosa, arrisquei. Levemente amarga, mas isso não impede que a apreciemos. Para me vingar do olhar de escárnio de um dos filhos, eu sentenciei: agora é sua vez, filho. Foi presente de seu irmão. Relutante, ele segurou uma bolachinha e minguou sobre ela meia colher de café da famosa geleia. Que saudável… Coma mais, disse eu. E ele, não, obrigada, estou de regime. Mesmo? Começou quando? Não fosse o apego a mim eu acharia que ele me odiava. O presenteador – desconfiado com a troca de olhares, disse: vou pegar uma torrada e experimentar. Sabor inigualável. Eu disse que era boa. Se eu acreditei? certeza. Para quem – cedinho – havia tomado prazerosamente chá de gengibre, aquilo era um pavê. Não sei pra quem esse menino puxou!

 

A arrumação

Posted in Crônica by helenarcoverde on 19/08/2016

text by helena arcoverde

Eu sempre passava por aquela casa quando me dirigia ao centro da cidade procurando antique. A dona da casa contava uns setenta e poucos anos, mas a  aparência garantia-lhe muito mais do que isso. A juventude sobrevivera apenas nos olhos de intensidade incomum. Naquela tarde ela me convidara para entrar. Eu já havia estado lá. Nessas ocasiões – circulava um pouco no pequeno pátio e – ao não encontrar nada que me interessasse, saía. Ela e o marido costumavam comprar objetos aparentemente sem serventia e os revendiam. O marido, alguns anos mais velho, era impressionantemente jovem e de aparência fogosa, não somente no sentido usual da palavra, mas como um todo. Ela sempre se queixava dele e este certa vez “confidenciara” ter uma namorada, já que a esposa não queria “mais nada com ele”. Os dois sempre discutiam a relação abertamente na presença das visitas. Nessas ocasiões, brigavam e o duelo era – apesar da situação, engraçado. Naquela tarde ela me levou até três pequenas salas e eu pude ter certeza de que a decoração reflete o interior de cada um, aquilo que se expõe ou se esconde, que se rasga ou conserva, que se imita ou cria. Até para pasteurizar o ambiente precisa-se de marcas. Quando isso não acontece, a decoração não traz nada , é somente uma sequência de objetos que – mais do que outra coisa qualquer, esconde a identidade do dono. Serve a outro e não a si. Não conta nenhuma história de seus habitantes, não fala de seus costumes, de sua forma de enxergar o mundo. A decoração daquela senhora era inusitada. Aquela mulher, praticamente deixada de lado, pulsava, queria viver, explodia em cores, jogava naquele espaço tudo que a vida lhe negara. Ela vivia, não vegetava como a aparência insinuava. E ela queria, sim, o amor. Ainda não desistira. Seu corpo mostrava-se – com unidade, naquela arrumação. Cada canto a denunciava, expunha seus desejos. Depois de conversarmos sobre os espaços, me dirigi `a saída. O marido interrompera os afazeres e – como de costume – tagarelava, parecia verter vida. Ela não olhava na direção dele, parecia tão morta quanto aqueles objetos que ali estavam no pequeno pátio porque ninguém mais os queria. Atravessei o portão e matutei até a entrada da minha casa o quanto a vida se mostra pelos meandros, pelas frestas que na maioria das vezes não se  enxerga, mas elas existem.

Pokémon, run

Posted in Crônica by helenarcoverde on 07/08/2016
by helena arcoverde

Dormir cedo tem suas vantagens. Madrugar também. Nem sempre quando chega um visitante inconveniente. Desta feita, o já quase fora de moda Pokémon Go. Eu estava na cozinha – e me recuso a mencionar o horário para não impactar os adeptos da vida saudável – quando meu filho entra com o celular na mão perscrutando o esconderijo do Pokémon. E eu, aborrecida com a relação entre os metros quadrados da cozinha e o bicho, protestei. Meu filho disse: mãe, ele pode nem estar aqui, pode estar a cem metros. E eu argumentei que só faltava termos que abrir a porta, rolar escada abaixo procurando esse desavergonhado no quintal em plena madrugada. Pior é se ele resolver pular a cerca, ai o caldo engrossa. Ora, mais que bicho mais folgado, daqui a dez minutos vai querer se esconder debaixo do meu sofá. Tome tento, seu louco. Meu filho , claro, não deu muito ouvido a meu protesto. Jantou, esperando o próximo passo do bicho. Foi quando eu tive a ideia de – mediante as aulas iniciais ouvidas e vistas sobre esse desocupado, escrever algo sobre o jogo e postar. Meu filho, depressa, falou: mãe, nem faça isso que você vai passar vergonha! você não entende nada de jogo. E eu retruquei, mas eu escrevo sobre tecnologia, e ele disse, mas não entende nada. Pessoal, esses meninos de hoje em dia são terríveis, bem que o ex sempre diz: esses meninos precisam te ver profissionalmente e não como dona de casa. Mas, deixe estar, ex, que eu logo retruqucarei: eu sou uma desavergonhada digital, assegurei ao filho. E ele, pare quieta, véia! Ai, gente, fiquei assim tão má afamada comigo mesmo, entendem? claro que sei que minha má fama já passou da porta da rua, mas é dose ouvir isso do pirralho. Boa noite, vou tomar o remedinho da vovó e dormir. Obrigada, vovó, tanto tempo longe de mim e você ainda me salva. Quanto a você, inadvertido: run.