Helena Arcoverde

Orlando Silva: o intérprete

Posted in Crônica by helenarcoverde on 22/08/2014

Por Helena Arcoverde

Nem minha mãe havia nascido. No ano que isso aconteceu, ele gravava  a canção que ainda hoje mexe com gente como eu. Romântica? Nada disso, talvez sensível à arte mesmo que o tempo teime em mantê-la escondida. Lábios que beijei assegura que seu intérprete se utilizava de todos os órgãos do corpo para se fazer ouvir. Orlando Silva vivia a canção, visceralmente. Ao ouvi-lo fico atônita com a singularidade dessa voz que agora ecoa tão longe. Lembra-me o quanto a efemeridade está presente, mesmo que – em muitos momentos – seja propositadamente esquecida. É que o esquecimento é um descanso para que os fatos sejam retomados com ousadia. Um consolo, se inverdade. Ele transitara da multidão ao esquecimento? Recordara quais fatos “carpindo a dor sozinho”? Como se portaria hoje quando visse pessoas como eu acessando suas canções via you tube? Difícil precisar, mas uma coisa é certa: o talento é indiferente à quantidade. Minha mãe – caso tivesse prestado mais atenção em Orlando Silva teria me feito admirar bem antes esse gênio dos lamentos. Mãe, como posso perdoar esse deslize? Está bem, dessa vez eu desculpo.

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Terapia da decoração

Posted in Crônica by helenarcoverde on 17/08/2014

faixa conto da mamae

Por Helena Arcoverde

Talvez busque apenas uma desculpa para continuar o regime. Esse negócio de entrar na calça jeans já não resulta em benefícios. Assim é que decidi enfrentar o dilema com uma nova desculpa: limpar os objetos da sala, ou melhor, a sala inteira, que, deixe-se claro: não é tão grande. Não fosse a questão do emagrecimento eu poderia denominar essa necessidade urgente de transitar, limpar e reposicionar objetos de Terapia da Decoração. Gostei do termo. Mas, como não posso ouvir mais a palavra terapia desde que meu nome e sobrenome ficaram  corriqueiros no terapeuta de meu filho, eu resolvi deixar de lado esse negócio e enfrentar o problema de frente: emagrecer. Ou seria limpar a sala? O minimalismo passou longe e eu bem perto de quebrar os bibelôs da mamãe. Mas e agora que está tudo entulhado o que fazer? Passei à salinha minúscula do lado.  Os moradores logo avisaram: não chegue perto do meu quarto. E o corredor? Posso? Bem, o escritório em que redijo esse desabafo também não aguenta mais tantas simulações. Por conhecer minhas manias de perto, ele esta por um triz com tanta inquietude. Será que essa dupla de bandeja é “decorável”? São de plástico! Por outro lado, são pintadas a mão. Mas que desenho é esse do pratinho que, sob a luz, se intrometeu? Bem, quando decidir o que farei, aviso. Dilema é coisa de gente que pensa muito e eu, por enquanto, só quero fazer uma coisa: limpar a sala.

A poça d’água

Posted in Conto by helenarcoverde on 04/08/2014

Ele caminhava pela calçada larga. A chuva afinara e ele parecia apreciar o fato.  A roupa era de meia estação embora fizesse frio. Ao caminhar observava as poças d’agua que se acomodavam nas reentrâncias das calçadas. Em uma delas deteve-se e mergulhou os pés em toda a sua rasa profundidade. Os calcanhares maltratados  ali se alternavam. Em seguida, satisfeito, o homem foi embora, a alma limpa e os pés nem tanto.

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