Helena Arcoverde

Entrevista Professor Pedro Demo

Posted in Entrevista by helenarcoverde on 28/03/2011

“… no  contexto neoliberal, não é viável uma sociedade mais justa e  igualitária, porque o neoliberalismo funda-se na desigualdade de  oportunidades”.

Autor consagrado, pesquisador, conferencista e professor, Pedro Demo transita em todos esses âmbitos com desenvoltura e se constitui hoje em um dos brasileiros mais conhecidos no cenário mundial científico e acadêmico. Entre sua extensa lista de livros estão: Aposta no Professor, lançado pela Mediação Editora; Avaliação Qualitativa, Autores Associados; Conhecimento e Aprendizagem na nova Mídia, Plano; Desafios Modernos da Educação, Vozes; Educação e Alfabetização Científica, Papirus; Educação Hoje, Atlas; Educar pela Pesquisa, Autores Associados; Éticas Multiculturais, Vozes; Habilidades e Competências no Século XXI, Mediação Editora.

Helena Arcoverde: A Revolução tecnológica que marcou o final do século XX alterou a sociedade, suas organizações e forma de pensar. Esse cenário beneficia o surgimento de uma maior socialização do saber?

Professor Pedro Demo: Teoricamente sim, pelo menos do ponto de vista das tecnologias, em particular da internet. Do ponto de vista social, pode não ser porque a questão do poder e dos privilégios vai contaminando esse mundo da comunicação. Existe a “digital divide”, tão discutida por aí. Mesmo assim, este abuso não tolhe o uso – há enormes potencialidades.

Helena Arcoverde: Em seu livro, “Desafios Modernos da Educação”, o senhor diz que o surgimento das oportunidades de desenvolvimento de uma sociedade está fortemente condicionado ao processo educativo, em todos os níveis. A saída para os numerosos desafios socioeconômicos e culturais dos países da América Latina perpassa pela emancipação educacional e cultural do seu povo?

Professor Pedro Demo:  Acredito que educação possui – sem panaceias – esta potencialidade (não é determinação): se fosse bem feita, favoreceria a formação de sujeitos históricos capazes de história própria, individual e coletiva, com resultados importantes também na esfera econômica que, aliás, depende, cada vez mais, da inteligência humana, nem que seja para explorar ainda mais.

Helena Arcoverde: O renomado professor Milton Santos acreditava na construção de um outro mundo mediante uma globalização mais humana, em oposição ao que ele denominava de globalização perversa. O senhor acredita  que esse processo de internacionalização comprometeu as conquistas   humanas no que se refere à construção de uma sociedade mais  emancipada e mais justa?

Professor Pedro Demo: De novo, esta nova economia detém  potencialidades quase todas devastadas pelo neoliberalismo –  globaliza-se a miséria, não a abundância. Tenho para mim que, no  contexto neoliberal, não é viável uma sociedade mais justa e  igualitária, porque o neoliberalismo funda-se na desigualdade de  oportunidades. O “pensamento único” vigente quer nos fazer crer  que não alternativa, mas isto não respeita a história que sempre  soube gestar alternativas, mais cedo ou mais tarde e educação  teria grande papel nisso.

Helena Arcoverde: No livro “Pobreza da pobreza”, o senhor afirma a existência de  uma     prática nacional que considera a pobreza como simples  carência material. Essa prática evitaria “o confronto”. O senhor observa  no      país uma tendência de fortalecimento dessa postura?

Professor Pedro Demo: Perdura na tecnocracia que estuda a pobreza o ponto de vista empirista,  tecnicista, precisamente porque isto favorece a uma política social neoliberal de acomodação dos pobres (bolsa-família faz  isso  exatamente, embora não só isso). O pobre entra na história apenas como beneficiário e objeto, tudo é decidido à sua revelia. Como a pobreza material é enorme, qualquer dinheirinho basta para       engambelar os pobres. Acredito que neste tipo de política social  há um componente duro de imbecilização popular.

Helena Arcoverde: Para Gutierrez e Prieto, a escola privilegia virtudes passivas: obediência, submissão, ordem, memória, pontualidade. Por outro lado, acrescentam os mesmos autores, castiga as virtudes ativas: criatividade, risco, crítica, imaginação, intuição. Segundo os autores, são as últimas que fazem a história. Para eles, trata-se de eleger entre uma pessoa submetida à história e uma pessoa que  faz a história. A educação brasileira contemporânea privilegia a formação de que tipo de pessoa?

 

Professor Pedro Demo: Já por conta da baixíssima aprendizagem, a educação no Brasil opera pela inoperância, e isto favorece o status quo. Os alunos chegam à 4ª  série sem saber  quase  nada; este tipo de educação é menos ideológico – não é sequer capaz disso – do que inoperante. Mas isto basta para deixar as coisas como estão.

Helena Arcoverde:   Como o senhor vê o mercado editorial brasileiro hoje?

Professor Pedro Demo:  Em crise, até porque, tendo aumentado a população estudantil universitária,      pouco mudou na venda de livros. Ler ainda não faz parte da aprendizagem. Bastam aulas. Aí está uma das origens da miséria escolar – não se pesquisa, elabora, lê; apenas escutam-se aulas       copiadas para copiar. Quando, em 1997, o ano letivo passou para 200 dias, ocorreu a maior baixa relativa na aprendizagem dos       alunos – aumentando as aulas, aumentamos a inoperância da escola…

Helena Arcoverde: No Brasil, a produção científica está restrita às universidades?

Professor Pedro Demo:  Não só, porque há uma rede de institutos de pesquisa no Brasil,  em  geral ligados ao CNPq. Há ainda alguns institutos particulares.  Na universidade pesquisa-se muito pouco, também por falta de apoio   público. No nosso sistema, ainda não fomos capazes de implantar a   ideia de que universidade só interessa à sociedade se for de  pesquisa. Se apenas “transmite” conhecimento, não faz nenhuma  falta, porquanto esta atividade está sendo subsumida pela mídia.

Helena Arcoverde: A articulação ensino/pesquisa/extensão é uma realidade nas   universidades brasileiras?

Professor Pedro Demo: Não é, nem é adequada. Extensão é       primo pobre, fica fora do currículo, como se cidadania fosse  “eventual”, “voluntária”. O termo mais fundamental é pesquisa, da   qual segue o ensino. Quem não pesquisa, não tem nada para ensinar.

Helena Arcoverde: Ao traçar um parâmetro entre suas publicações, como senhor avalia  sua trajetória como autor?

Professor Pedro Demo: Fui aprendendo sempre um pouco mais, o que me levou a rever muita coisa. Continuo pesquisando, para poder me renovar sempre. Minha causa maior é o apoio aos professores básicos, porque entendo que são os artífices centrais da democracia popular.

Observação:

Entrevista concedida em 2006 para o primeiro número de uma revista que tinha como linha editorial a educação, ciência e cultura e que, por razões diversas, não chegou a ser publicada. Perguntado se concordaria na reprodução da entrevista neste espaço, o professor Pedro Demo gentilmente autorizou-a.

 

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Perto do infinito

Posted in Conto by helenarcoverde on 23/03/2011

As cenas eram vistas do alto, como se fossem as tomadas iniciais de um filme. Quando mirava algum detalhe, se fixava nele como se o visse pela primeira vez. Poderia ficar horas, assim, embevecida pelo que normalmente não via. Admirava as pessoas que nunca mais veria, as marcas deixadas na cidade e que contam dramas que igualam e diferenciam, já os diálogos eram geralmente imperceptíveis quando ela não era a interlocutora. Formulava conceitos sobre tudo que via, extrapolava todas as informações que aprendia, as mínimas que fossem. Tinha dificuldades para cálculos, mas se compreendesse suas bases conceituais, aplicava-os às mais inusitadas e contrastantes situações de forma precisa. Visão antecipatória, projetava coisas de forma racional, mas era incapaz de lidar com o cotidiano.  Ordenar simples papeis espalhados poderia se constituir em uma aventura. Entretinha-se ao observar a limpeza de uma vidraça ou de um piso. Algumas linhas de leitura proliferavam muitos caminhos e, assim, rendiam, em termos de informações, um número muito maior de textos. Poderia aplicar informações presentes em um parágrafo a centenas de outros, mas faria o  caminho contrário, rapidamente. Não era estudiosa,  mas todos achavam que sim. Não lia tanto como alguns imaginavam. Atividades que dominava, no entanto, eram feitas com rapidez e simplicidade, mesmo que, aparentemente, se supusesse que teriam levado mais tempo. Poderia transitar da inquietação mental e física à mais absoluta quietude, embora entre esses dois processos não fossem tão próximos em termos temporais. Queria ver o mundo como se usasse a máscara de carnaval da infância, com lentes de papel colorido, mas não poderia fazê-lo, via o mundo sem romantismo. Achavam-na meiga, mas não era. Comparava-se aos bichos de estimação e não via diferenças tão significativas entre estes e as pessoas. A efemeridade era certeza, fora dela não restavam muitas outras. Buscava Deus, mas temia que ele fosse rasgos aleatórios. Da ampla janela de sua sala mantinha o olhar no infinito. Morava também lá fora, em meio às estrelas sombrias ou luzidias, à mercê da vontade do infinito. Tinha como certo o equívoco dos que, diante de poucas certezas, cientificas ou não, se tinham em grande conta. Logo passariam, atropelados pelo tempo e pelos processos que nenhuma ação localizada controlaria. Não queria um desfecho narrado aos moldes de Augusto dos Anjos, preferia se sentir parte do mar, embora soubesse que ele não admite companhia. Ainda assim, insistiria em ficar ali, ora iluminada pelo sol, outras pela lua, mesmo que, repentinamente, o movimento das ondas a chamasse de volta a realidade. Entre o enternecimento e o despertar se entregaria por completo ao universo, sem temores, partícipe da incompletude sem a qual ele não seria o que é.

ASPECTOS DA NARRATIVA EM MESHES OF THE AFTERNOON E CORRA LOLA: MITO, RECORRÊNCIA E VANGUARDA.

Posted in Artigos by helenarcoverde on 12/03/2011

Helena Arcoverde

RESUMO

Recorrência  na construção do tempo e espaço marcam o filme Meshes of the afternoon,  Tramas da Tarde no Brasil, da cineasta e atriz polonesa Maya Deren. A retomada do tempo que perpassa toda essa narrativa fílmico também está presente em Corra Lola, dirigido por Tom Tykwer, embora mais de meio século separem esses dois filmes. O retorno como forma de repensar, de interromper o determinismo iminente e implacável é parte da trama, e garantem, por outro lado, traços de linearidade, de padrão e unidade à narrativa. O experimentalismo e vanguardismo de Tramas da Tarde ficam por conta, principalmente, da ocupação não convencional do espaço, da inversão e simbologia na revisitação deste elemento narrativo. O presente trabalho além de traçar um paralelo entre essas duas produções, faz um apanhado dos aspectos míticos que permeiam o filme de Maya Deren.

Palavras-chave: recorrência, linearidade, espaço, tempo, narrativa fílmico.


 

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

“O homem será apenas o que ele projetou ser” ([1]SARTRE, 1970, p. 4).  Essa frase bem que poderia ter inspirado  a personagem de Corra Lola para, a pretexto de interromper o tempo, ser sujeito do seu próprio destino. E para a personagem de Meshes of the afternoon, o que esse filósofo francês diria? Talvez, se contrapondo às tramas criadas por Deren, afirmaria que “não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade” (SARTRE, 1970, p. 7).

Meshes of the afternoon  e Corra Lola. Enquanto o primeiro desafio o tempo com seu experimentalismo, a produção alemã desperta a atenção pelo processo criativo e risco assumido para um filme que transita entre o comercial e o alternativo. O caráter inovador de uma obra sempre está à mercê das mudanças. Permanecer na vanguarda através dos tempos é uma façanha garantida a raras obras. Meshes of the afternoon é um desses exemplos. Mas que fatores teriam alçado essa obra a um patamar de inovação permanente, que a teriam distanciado dos padrões clássicos? O que ela teria de similar com Corra Lola? Ela seria inovadora também em termos de construção da narrativa? O que ela teria de experimental? Muitas indagações e curiosidades permeiam a trajetória da obra de Maya Deren, embora algumas das produções assinadas por ela, como a estudada neste trabalho, tenham um público restrito aos circuitos mais alternativos e a universidades. Uma obra perdura, entre outros fatores, quando consegue atravessar a barreira do tempo e das mudanças e continua a despertar o interesse das pessoas sobre si. Caráter universalista, experimentalismo, dotes artísticos ou tudo isso junto? Não caberá a esse artigo se estender sobre esse assunto, mas sim evidenciar alguns aspectos ligados ao tempo e ao espaço que, nessas produções, conseguem não somente aproximar esses filmes, mas também constituir-se em modelos que fogem aos padrões tradicionais em parte ainda vigentes.  Que Meshes of the afternoon possui traços ritualísticos não representa novidade, mas pretende-se aqui ir um pouco além, ligando esses aspectos ao mítico, à supressão do tempo, prerrogativa da ficção e do mundo construído pela mitologia para enclausurar seus deuses e demônios, livres do tempo e das mudanças, e, assim, poderem servir de parâmetros para a sociedade antiga distante ainda do poder transformador da (re)escrita. Meshes of the afternoon e Corra Lola de certa forma usam a interrupção e a recorrência para minar o poder do tempo, para garantir um intervalo para a reflexão, para a redenção, para a reescrita mesmo que um deles negue o determinismo e o outro dele se usufrua para perpetuar o inevitável. Um luta pela liberdade motivado pelo amor; o outro pela morte. Em um caso ou em outro prevalece o incomum. Câmera e montagem criativa ajudam a garantir a longevidade dessas produções, em especial de Meshes of the afternoon.

1.1 PERCURSO METODOLÓGICO

Notas de aula sobre teorias do cinema, obras contendo estudos teóricos, filmes e estudos comparativos marcaram a metodologia empregada na elaboração deste artigo. O tipo de pesquisa usado foi o qualitativo. Com isso procedeu-se à comparação, observação dos aspectos propostos para serem desenvolvidos nesses estudos e conclusões obtidas a partir desse conjunto de procedimentos. As análises aqui obtidas foram desenvolvidas e interpretadas a partir de um corte temporal e espacial dos estudos aqui propostos: verificar os aspectos tempo, espaço e mito contidos nas narrativas dos filmes Tramas da Tarde e Corra Lola. O racional e o interpretativo se sobressaíram, portanto, na compreensão do fenômeno estudado e a consequente  produção deste artigo.

2 O ETERNO RETORNO

Recorrência e interrupção marcam o tempo Tramas da Tarde. O tempo, afirma Eliade, entre alguns dos povos primitivos, não tem permissão para se transformar em história. Em Tramas da Tarde e Corra Lola, o passado precisa ser revisto antes de compor definitivamente a história de vida daqueles personagens. Uma espécie de regeneração do tempo. Sobre esse processo, Eliade afirma que:

[…] os cenários do Ano Novo em que a Criação é repetida são particularmente explícitos entre os povos históricos, aqueles com os quais começa a história, propriamente falando — isto é, os babilônios, egípcios, hebreus e iranianos. […] Esses mesmos povos também parecem sentir uma profunda necessidade de regenerar-se periodicamente, por meio da abolição do tempo passado e de uma reatualização da cosmogonia (ELIADE, 1992, p.73-74).

Assim, essa recorrência nos filmes estudados, pode ser considerada como parte de um ritual de purificação, de regeneração, da reescrita necessária para os desfechos, sejam eles esperados ou não;  felizes ou não; plausíveis ou improváveis. Mas é imperioso contar com esse fenômeno antes de mudaram definitivamente os caminhos de história de vida e morte desses personagens.

A irreversibilidade, em Corra Lola, é afastada. Em Tramas o determinismo é maior do que esse processo e, em que pese as revisitações em todos os espaços e o artifício de retomada, o inevitável se sobrepõe. Enquanto no primeiro a “força do amor” é assegurada, na produção de Deren ele é rechaçado porque sua face oculta era a foice. Em Corra Lola esse determinismo é negado com o intuito de “anular o tempo passado, abolir a história por meio de um contínuo retornoin illo tempore, pela repetição do ato cosmogônico”. (ELIADE, 1992, p.80-84) Nesta narrativa há uma “abolição do tempo concreto” impedindo que ele entre para a história de vida daqueles personagens, ato necessário para que esses protagonistas refaçam , reescrevam, reconstruam sua trajetória de vida. Assim, em Corra Lola a protagonista impõe a urgência em controlar as rédeas do destino e assegurar-se como sujeito dessa construção.

O tempo, em Corra Lola, é visivelmente perceptível,   mas”se não dermos atenção a ele, o tempo não existe; além do mais, sempre que ele se torna perceptível — por causa dos “pecados” do homem, isto é, quando o homem se afasta do arquétipo e cai na duração —, o tempo pode ser anulado(ELIADE, 1992, p.84)

Nenhum acontecimento é irreversível, e nenhuma transformação é final. Num certo sentido, é até possível dizer que nada de novo acontece no mundo, pois tudo não passa de uma repetição dos mesmos arquétipos primordiais; esta repetição, ao atualizar o momento mítico em que o gesto arquetípico foi revelado, mantém constantemente o mundo no mesmo instante inaugural do princípio. O tempo só torna possível o aparecimento e a existência das coisas. Não exerce uma influência final sobre sua existência, já que, ele próprio, passa por uma constante regeneração (ELIADE, 1992, p.87)

A interrupção do tempo é o intervalo que garantirá a redenção, período que não pode ainda entrar para a história para não ser marcado pelo irremediável. A verdade de Lola é garantir esse renacimento e, para isso, usa todos os artifícios possíveis somente nas escrituras, em espaços em que as ordens negadas pela sociedade passam a ser permitidas. Corra Lola “não carrega o peso do tempo, não registra a irreversibilidade do tempo; em outras palavras, ignora por completo aquilo que é especialmente característico e decisivo numa consciência do tempo” (ELIADE, 1992, p.84). Nessa produção,  “o passado nada mais é do que uma prefiguração do futuro” (ELIADE, 1992, p.87) e, por isso mesmo, sua irreversibilidade é negada.

3 ESPAÇO, VANGUARDISMO E RETOMADA DO TEMPO

Sob o ponto de vista de alguns dos elementos da narrativa – espaço e tempo, Meshes of the afternoon se não se enquadra nos moldes clássicos hollywoodianos também não foge dele por completo, embora seja, sem dúvida uma obra totalmente inusitada para a década de 40 e até mesmo para os dias atuais. Basta verificar o que se fazia na época, embora não se possa esquecer do marco inovador reservado a Citizen Kane, considerado, em alguns aspectos, conforme afirma Ramos, “relativamente, não clássico” (RAMOS, 2005, p.286).

Se os espaços são inesperadamente ocupados com ângulos de filmagem incomuns, o mesmo não se pode dizer do tempo que, apesar das interrupções e recorrências, é “consistentemente intermitente” (RAMOS, 2005, p.281). Apesar desse padrão, da retomada da linearidade, não se pode afirmar que nesses filmes o tempo se desenvolva conforme o modelo hollywoodiano clássico, “por meio de uma suave e meticulosa linearidade” (RAMOS, 2005, p.281).

Em Tramas, as tomadas no interior da casa evidenciam,  na maior parte das vezes, “o conjunto de elementos envolvidos na ação” enquanto em Corra Lola o que predominam são aquelas cenas em que “o plano toma uma posição de modo a mostrar todo o espaço da ação” (XAVIER, 1977, p. 19). Essa estratégia, além de tornar o curta de Deren mais intimista, mais subjetivo (o caminho percorrido pela câmera leva o espectador a ter essa impressão de subjetividade, intuição). O segundo, por outro lado, traça um panorama da amplitude, do urbano, da dimensão do personagem em busca de dominar extensos espaços. Assim, nesses filmes, em termos de espaço, há um confronto entre interior e exterior; entre o subjetivo e o objetivo; entre o particular e o universal, embora não se possa imputar a Corra Lola essa “completude”, mas, nesse caso, o urbano aliado aos planos gerais impõe essa impressão ao espectador. Enquanto em Corra Lola “a câmera visa os acontecimentos de uma posição mais elevada”, em Tramas da Tarde há um equilíbrio entre o uso de “câmera alta” e “baixa”. Como exemplo, as tomadas envolvendo as escadas da casa (XAVIER,1977, p.29)

A protagonista de Deren usa o silêncio para “falar” com o espectador; Lola, ao contrário, usa-o para agir por meio de um diálogo negociador com o tempo. A câmera, nas tomadas internas de Meshes of the afternoon, é o olhar perscrutador da protagonista: varre, investiga, mostra, busca cumplicidade junto, procura encantá-lo ao não dissimular o amadorismo desse olhar fílmico. É travado, assim, um diálogo sem escritura entre a protagonista e o espectador. A personagem criada por Deren,  ao contrário do “vilão que fala demais antes de dar o tiro final” (XAVIER, 1977, p. 22) se mantém calada, a espera de que essa subjetividade quase sutil fale por ela, indicando hipóteses que levem ao embate entre a vida e a morte; entre a espera e a chegada. “A verificação faz as coisas morrerem”. Para Bachelard, toda intimidade se esconde (BACHELARD, 2000, p. 100). Quem sabe é por isso que a personagem de Meshes of the afternoon é tão cautelosa ao mostrar os cenários que antecedem o fim.

4 CORRA LOLA E TRAMAS DA TARDE: A BUSCA DA REDENÇÃO.

Retornar é uma forma de buscar a redenção, o renascimento, a purificação e a  compreensão da realidade sob ângulos não pensados anteriormente. A interrupção do tempo, nas duas produções, é a pausa para a conquista dessa redenção, transformação, signifique esta vida ou morte. E, nestes casos, a purificação e a catarse[2] estão presentes. Tramas da Tarde remete a um cerimonial que antecede à tragédia anunciada. O espaço é revisto para dar lugar ao ponto máximo dessa purificação – a cena do golpe, apenas sugerido, no interior da casa. Ao se referir as cerimônias e rituais primitivos, Eliade comenta que:

a cerimônia de expulsão de demônios, doenças e pecados pode ser reduzida aos  seguintes elementos: jejum, abluções e purificações; extinção do fogo, aceso novamente durante um ritual, numa segunda parte da cerimônia; expulsão de demônios por meio de barulhos, gritos, golpes (em ambientes fechados), seguidos de sua perseguição pela aldeia, com muita gritaria e algazarra; essa expulsão pode ser praticada sob a forma de ritual que manda embora um animal (tipo “bode expiatório”), ou um homem (tipo Mamúrio Vetúrio), visto como veículo material, através do qual as faltas de toda a comunidade são transportadas para além dos limites do território que ela habita (o bode expiatório era expulso “para o deserto” pelos hebreus e os babilônios (ELIADE, p. 58)

As heroínas dos dois filmes buscam verdades diferentes, mas, pelo menos um termo em comum poderia definir parte dessa verdade:  liberdade. Seja ela da alma ou do corpo. A heroína de Corra Lola busca, acima de tudo, na retomada do tempo e da ação, as respostas que não encontra no presente, sejam elas revelações ou desvendamento das obscuridades. Desencadeia, então, um processo catártico que poderá apontar os fios perdidos. Ela se utiliza da narração, como a heroína de As mil e uma noites, para afastar a morte e assegurar a liberdade. E, como Sherazade, trama contra o tempo.

Se todos os caminhos levam a Roma, em Tramas da Tarde todas as cenas levam à morte, a espreita, desde as primeiras cenas, do seu presente – a presa que se “esconde” nos quatro cantos da casa: a câmera percorre inusitadamente esses cantos perpetuando  os minutos que antecedem a morte, o triunfo dessa redenção. Da morte, porém ninguém se esconde, como já previam as narrativas populares, ela sempre encontra seu alvo. Em uma dessas peças da oralidade, a morte, ao buscar seu eleito, não o encontra e então vai a um baile procurar outro qualquer para não voltar de “mãos abanando”. Encontra outra vitima que não era senão o eleito, irreconhecível por ter raspado todo o cabelo no intuito de afastar a “indesejada”. Essa irreversibilidade está presente em Tramas e esse processo mostra-se anunciado desde o começo, o que faz com que esse curta não esteja, neste aspecto, distante dos modelos clássicos. Há, sim, previsibilidade: a personagem sobe as escadas, há simbolicamente, uma ascensão, mas, ao segurar a chave, esta cai e rola de escada abaixo. A imagem da faca também é recorrente e fortalece as hipóteses do espectador de que há uma inevitabilidade, uma iminência, um prenúncio do trágico;  a personagem senta voltada para a área externa, visualizada pela transparência do vidro, anda, sobe e desce as escadas. A ação dela remete à espera. Por outro lado, a flor simboliza a vida, a pujança. E ela não somente cai, mas também é um símbolo subtraído. Além disso, os espaços são, como já foi dito, investigados pela câmera. O mesmo procedimento é feito sob o olhar da protagonista, uma varredura subjetiva dos espaços, em uma atitude de busca. Provavelmente a personagem pressente o iminente perigo e, mesmo relutante, encena o ritual que a levará senão ao amor, mas à redenção da alma pelo sacrifício do corpo. O espectador é levado a construir hipóteses. E ele “é auxiliado na formulação dessa hipótese por diversos processos” (RAMOS, 2005, p. 296) uma vez que a sequência de ações levam esse espectador a supor que algo trágico ocorrerá, que essas ações não indicam um filme de amor ou de suspense convencional, mas tudo leva a esse espectador a uma  antecipação dos fatos  em face dessas “pistas”.

As cenas iniciais de Tramas da Tarde já possuem prenúncios dessa renovação (por meio da morte e dos rituais) pois  mostram a entrada da casa o que privilegiaria “a experiência da renovação renasceria para ele quando construísse uma nova casa ou entrasse nela pela primeira vez (do mesmo modo que até no mundo moderno, o Ano Novo ainda preserva o prestígio do fim do passado e de um reinicio, de uma nova vida” (ELIADE, 1992, p.77). Essa mesma cena representaria a inclusão da casa como parte das tramas que antecedem esse fim.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em Tramas da Tarde todos os espaços são revisitados, expostos, desnudados de forma não convencional, intrigante e contrastante. A prerrogativa da ficção está presente, entre outros aspectos, na capacidade de reconstituir, reverter a impossibilidade, garantir que a verdade do herói seja perseguida.

Os dois filmes, portanto, possuem um padrão de tempo, que é a própria volta o que os fará, com relação a esse elemento da narrativa, tempo, possuir uma unidade, e esse mecanismo os leva a serem lineares. A supressão do tempo (em especial em Corra Lola), os  vincula relativamente, aos modelos tradicionais. Nesses filmes a linearidade é assegurada por meio do retorno, da repetição, processo mais fortalecido em Corra Lola, onde o passado necessita ser revisitado e os desfechos refeitos. A linearidade não é afastada definitivamente porque é retomada, portanto, presente nos dois filmes.

Essas narrativas são contemplados pela urgência em retificar, refazer a reescrita do passado recente no caso de Corra Lola ou, em Tramas da Tarde, reafirmar o prenúncio da morte  e por isso a urgência ritualística e confessional neste último.

Em Tramas da Tarde todos os caminhos levam à morte. E esse prenúncio necessita de preparativos que o assegurem: a revisitação de todos os ângulos do espaço, o transitar entre a hesitação em aceitar o iminente perigo e a conformação. Assim, quando a “Indesejada das gentes chegar”[3] “encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/A mesa posta,/Com cada coisa em seu lugar. Em  Corra Lola, ao contrário, ela  é firmemente refutada e o passado retomado para impedir que ela triunfe.

Como diria Sartre, “o homem está condenado a ser livre” (p.7). E isso, se vale para a vida real, também serve para o mundo da ficção. Afinal, essa liberdade de escolha de caminhos também distingue o destino das duas protagonistas de Tramas da Tarde e Corra Lola: determinismo ou capacidade para alterar o curso do próprio destino? Eis a questão.

REFERÊNCIAS

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar

S. A., 1993.

BURCH, Noel. Como se articula o espaço e tempo, in Práxis do cinema. São Paulo: Perspectiva, 1992.

ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.

RAMOS, F.Teoria contemporânea do cinema: documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Editora Senac, 2005.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução Rita Correia Guedes. Paris: Lês Éditions Nagel, 1970.

XAVIER, Ismail. A decupagem clássica in O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz &Terra, 1977.


[1] Nessa obra, o filosofo francês refuta, ao expor as bases da filosofia existencialista, as acusações em torno da concepção existencialista da qual era um dos seguidores.

[2] O aficionado da arte cênica utilizaria o protagonista como bode expiatório ou alter ego que recebe, por transferência ou projeção, os conflitos que lhe habitam o inconsciente: assistindo à representação, descarregaria suas tensões através das emoções com as quais se identifica, mas ao mesmo tempo se daria conta do drama que o aflige; vendo o herói padecer, o espectador tomaria consciência de que vive idêntica situação, livrando-se da angustia que o atormenta. Segundo esse autor, ora se entende que a purgação constitui a experiência da piedade e terror que o espectador sofre perante a tragédia; ora se julga que a visualização do tormento alheio proporciona a plateia o alívio das próprias tensões ao menos enquanto dura o espetáculo (MOISÉS, p.71, 2004).

[3] Trecho do poema do poeta Manuel Bandeira Consoada (BANDEIRA, 1993).

A vida na floresta

Posted in Crônica by helenarcoverde on 07/03/2011

Foi morar na floresta. Deixou para trás os shoppings, as livrarias e os cafés. Nos primeiros dias estava triste, arrependida mesmo de ter concordado com a transferência de emprego. Mesmo sendo uma defensora da flora e da fauna, ficou em estado de choque com o isolamento e com o acanhado comércio. Disse-me, desconsolada: quando o avião aterrissa,  a sensação é que estou sendo jogada na imensidão de verde. A maior mudança, no entanto, era a voz. Antes arredia e mandona, aos poucos sua voz ficou quase melosa. Achei que o estado dela era grave. Aos poucos, porém, notei que se animara. Desconfiada, pensei que aquela animação deveria ter uma forte motivação. Lá deve existir algum cabeleireiro bom. Mas não pode ser só isso. Embora eu até ache que isso pudesse ser um alento e tanto para ela. Aos poucos descobri tudo e muito mais. A dose de confissão foi homeopática. Existe um marceneiro que faz tudo, a gente pede e só dá o modelo. Logo ela disse-me ter feito um livrinho com uma infinidade de modelos de móveis e utensílios. Você não imagina, disse-me, tem um cara que faz escultura. Mas só de pássaros, motivos da região, mas ta bom assim, não? Uma costureira de mão cheia que faz tudo que você possa imaginar em termos de roupa. Ela, que se considera de extrema esquerda, nunca amou tanto, nessa mudança de cidade, os meios de produção e distribuição ferrenhamente privados. Aliás, sempre os amou. E eu também. É bom comprar, amiga. Ainda mais nós duas, adeptas das promoções. Viva o fim do feudalismo! Vamos às compras, companheira. Nem que seja na floresta.

Mãe tem férias?

Posted in Crônica by helenarcoverde on 06/03/2011

O filho liga. A casa estava caótica e eu tentava resolver a complexa situação. Esse filho vive, por força do trabalho e de vontade própria,  em meio a marcas, adora atividade física e mede a taxa de gordura corporal para assegurar aos familiares de que não engordou. Às vezes, ninguém acredita. Naquela manhã de domingo fora  em uma feira de animais e ficara apaixonado por um gato. A descrição feita por ele não combinava com os adjetivos direcionados ao bichado e eu compreendi a situação: a compaixão o dominara. Falei-lhe que ele era alérgico, obcecado por arrumação e que quando viajasse o gatinho não tinha com quem ficar. Ele concordou, chateado com a força dos argumentos. Passaram-se muitas horas e, como ele geralmente aproveitava o final de semana para compensar as horas sem dormir, nunca imaginei que ainda estivesse na feira. Mas o que houve, perguntei-lhe. Agora posso ir embora, o gato foi adotado. Fui conversar com a pessoa que ficará com ele e parece ser alguém de confiança. Jesus, Maria, José. Como se não bastasse o mais novo, que divide todos os dias o lanche com os cachorros que rondam, inutilmente, a cantina da universidade. Leve ração dentro da mochila, sugeri dia desses sem esperar a resposta desaforada. Se mãe só muda o RG e CPF, como dizem, os filhos também não ficam longe. Camisa maior do que o corpo? Não, agora é justa. E os ensaios da banda? Qual delas? Ufa! Será que mãe tem férias? Vou me informar.