Helena Arcoverde

Crônica de natal (republicação)

Posted in Crônica by helenarcoverde on 19/12/2013

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Crédito Helena Arcoverde (imagem década 90)

Por Helena Arcoverde

O vão de entrada era quase uma sala. Ao final uma árvore mediana, poucos dias antes do Natal. A montagem era anunciada e as crianças esperavam ansiosas pelo dia 19. A meia quadra, na outra casa, o anúncio era sempre com antecedência e ele reunia apenas duas crianças, embora as outras também o aguardassem. A árvore de natal das duas crianças era um prenúncio da felicidade incomum. A mãe ressurgia nas datas comemorativas. No Natal, no entanto, os preparativos eram especiais e assim os foram até o fim. O tempo-exceção findara a ausência e todos os dias ela chegava do trabalho com uma sacola cheia, trançada por fios vermelhos. Os enfeites eram quase grandes e a ponteira fincada no alto raramente era substituída  Papeis celofanes com pontas arrematadas com um laço guardavam castanhas açucaradas que às vezes se misturavam a outros doces, embora elas sempre predominassem. Depois os embrulhinhos eram distribuídos para as crianças das duas casas. Os presentes variavam de bonecas a caixotes de madeira contendo garrafas pequenas de refrigerante, naqueles idos raros. As meninas sabiam desde cedo da impossibilidade da existência do trazedor de presentes mas preferiam não pensar nesse fato, aproveitariam a felicidade plena. As outras mulheres da casa sairiam de cena, aquela era a época da mãe e, neste período, ela não admitia substituições. O rememorar desses dias provavelmente estarão entre os últimos a morrerem. Eu observava os enfeites das casas da rua qualquer enquanto relembrava esses idos. As ornamentações foram rareando com o tempo e , neste ano, não teria nenhuma na casa. Há uma década elas se resumiam a um adereço na porta talvez para não ser esta a única do prédio sem anúncio da festa. Observava em algumas das casas os enfeites reaproveitados. Em uma delas, uma árvore de copa arredondada, tronco ínfimo, faceira ante luzes também arredondadas com pinturas descascadas. A dona da casa esguichava água de uma velha mangueira nos filhos. Não viam quem passava na calçada, estavam concentrados na felicidade que antecede o natal. Eu quase parei não fora esse tipo de curiosidade um comportamento inapropriado. Assim mesmo entortava o corpo para trás quase por inteiro enquanto caminhava rumo à casa sem enfeite. Talvez eu preferisse ser mãe o ano inteiro, mas também nunca houvera sido. Reservara um arquivo com receitas para a comemoração, mas sabia que nunca as faria. O natal acabara e eu nem precisara anunciar. As crianças já sabiam. A esperança cessara e todos em casa resolveram negar essas datas. Continuei a observar a fachada das casas enquanto pensei que se eu pudesse alterar a sequência de fatos me vestiria de Noel para os filhos. Mas o tempo – sempre a advertir o arrependimento – me impediria. Ele impossibilita a reordenação e transfigura o que mais se ama. Se assim não fosse, correria contra ele, faria brigadeiros após uma árdua jornada, compraria os presentes ansiados e nunca dados, sanaria com beijos pequenos deslizes, exageraria mais ante uma flor trazida da escola, estenderia a felicidade e cuidaria para que não se quebrasse. Continuei a caminhar até não enxergar mais a mulher jorrando alegria. Dobrei a esquina. Parei em frente a uma venda e comprei um enfeite que nunca ornaria nenhuma porta. No natal eu esperaria os pacotinhos de castanhas açucaradas que eu nunca aprendi a fazer. O elo de pertencimento estaria – por momentos – reforçado. Ela arrumaria os saquinhos sobre a mesa e entre uma arrumação e outra me consultaria com o olhar. E, sem mais objeções, eu assentiria. E este seria o melhor natal de todos, aquele que até hoje eu não consigo aceitar que perdi.

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