Helena Arcoverde

orvalho

Posted in Conto, Uncategorized by helenarcoverde on 31/05/2016

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crédito imagem Albert Nane

crédito texto Helena Arcoverde

Nem sempre me soara afável morar ali. Parecia ter chuva demais descendo e mais ainda escorrendo sobre a terra. Com os dias, comecei a apreciar o que me cercava. As flores descambadas nas cercanias das águas que corriam intermitentes sobre os pedregulhos. As borboletas em fuga. Os códigos  das ruas. O mercado sempre vazio. A mochila de compras dificultando o registro do que havia no caminho. A chuva apressada para se juntar ao riachinho. Os casarões e casebres. O odioso binóculo da vizinha. Agora, teria que deixar todas essas miudezas. Não sem antes ter saudade dos respingos nas flores que beiravam os córregos, da camada pouco espessa de asfalto, do mercado sempre disponível, das pipas que peneiravam o ar até o anoitecer. Havia quem passasse a vida toda em uma só casa. De lá sair, sem consentimento. E eu me desfaria mais uma vez dos meus cantos. De onde estiver sentirei falta das flores sem nome, companheiras silenciosas sem as quais vai ser difícil acordar feliz.

Posted in Conto by helenarcoverde on 28/05/2016

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crédito imagem: Albert Nane

crédito texto: Helena Arcoverde

O salão fervia. Eu sentia uma impetuosidade desconexa. Aquela alegria não era parte minha.  Vinha de fora mas não chegava até a mim. Em fila indiana eu apressara o passo na ânsia de ser um deles. Eu queria a insanidade mas ela só aparecia em dias normais.

as mortes na sala

Posted in Conto by helenarcoverde on 27/05/2016

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crédito imagem: Albert Nane

crédito texto: Helena Arcoverde

Cada um em seu tempo  permaneceu inerte no meio da sala. Pela janela da saída de serviço eu os olhei de banda. Não eram mais eles. Seus corpos jaziam sem poder, sem movimento, sem nenhuma autoridade ou amor. Fingi – como parte da cerimonia, que os zelava, mas não os via. Acho que desde essa época desenvolvi essa técnica de achar pontos cegos.  Não encararia a morte ainda. Lembraria suas alegrias em estarem vivos, em acenarem para os passantes da calçada da qual eram tão próximos, ao finalzinho da tarde. Nunca me arrependeria dessa despedida. Eu os repudiava naquela sala. Repudiava a morte que os levara da casa. A mulher também se esvaia. Eu a perdera. Daquele dia em diante poderia perder qualquer um, pensara na época. Até hoje não lembro de seus sepultamentos. Talvez não tenha nem ido, não sei ao certo. Ou, se fui, fingi observar a areia descendo reta sobre eles, uma rotina para o coveiro. `As vezes temo ter sido ingrata ao negar esse último encontro, mas graças a esse subterfúgio posso lembrar dele tomando suco de maracujá no terraço concedendo um intervalo para a leitura ou dela, comandando seu caos doméstico enquanto se orgulhava em saber a localização de cada objeto. Hoje, seus corpos rijos não mais dão conta da casa e nem do que havia dentro dela. Compulsivamente, se acham em um cortejo do qual nenhum de nós escapa.

Os vultos (excerto)

Posted in Conto, Poesia by helenarcoverde on 04/05/2016

borrado com verm

Crédito (imagem e texto) Helena Arcoverde

Posted by helenarcoverde on 31/10/2009
Os vultos surgem impunes. Eles não falam. Mas são conhecidos. Passeiam entre as velhas ruas de paralelepípedo e calçadas quebradas. […]

 

Flor Morta (Um dos meus primeiros posts)

Posted in Conto by helenarcoverde on 02/05/2016

flor roxa para blog

Crédito: Helena Arcoverde

Posted by helenarcoverde on 2009

Não se mede o amor. Nunca se sabe o tamanho dele, até que ele se instale e, só então, mostre-se por inteiro. Assim foi com ela. Sinto saudade do inaceitável, do olhar cheio de adjetivos mesmo que a ele não coubesse nenhum deles, do cheiro que eu não conseguia sentir. Ainda choro por ela, em que pese o tempo. Nunca soube se me amava, mas que importa isso? O amor é construído pelo que as pessoas despertam em nós. Ele não habitava nela, mas em mim. O simbólico o nutre? Ou, quem sabe, o papel que ela representa culturalmente? Nenhuma resposta me separaria desse sentimento de impossibilidade. Ela é isso. E sou feita disso. Não importa do que esse amor é formado, se conseguiu chegar tão perto de mim é porque é além do eu supunha. O doar é incompatível com a obrigatoriedade. Eu me vejo nela, quando falho. E, então, vejo quem sou. Hoje eu a compreendo, mas ainda não a aceito. Mas a amo. Sem justificativa. Ela se foi, mas os impasses ficaram. Dentro e fora de mim. Nas relações que se formaram a partir das tessituras inacabadas. Os fios ficaram soltos, nenhum sentimento os juntou. Estes se perderam, é tarde demais para reuni-los, embora em alguns deles ainda possa haver uma emoção ou outra. Mas elas não são suficientes para reconstruir o que nunca existiu. Aceito esse amor que ela, talvez sem o querer, me deu. Ou, quem sabe, apenas me deixou ficar porque ninguém mais o queria.